O Feminismo em Harry Potter

por Bruna Nobrega e Lucas Almeida
brunadanobrega@gmail.com
almeidalucas1206@gmail.com

Em uma franquia tão grande quanto Harry Potter, o feminismo acontece de várias maneiras e em personagens diferentes, apesar de nem sempre ser de uma forma positiva. A análise dessas representações pode expor tanto um reflexo da sociedade em que vivemos, como a influência que a série teve para milhares de pessoas ao redor do mundo.

JK: O pseudônimo não definidor

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Se nem em 2016 somos capazes de dizer que as mulheres são plenamente aceitas no mercado, em 1997 menos ainda. Quando Joanne Kathleen Rowling escreveu uma ficção para todas as idades e gêneros, seu editor se deparou com um problema: Como fazer com que o público queira ler seu livro sem ser intimidado pelo fato de ele ter sido escrito por uma mulher?

A partir dessa pergunta, surgiu a ideia da abreviação dos seus primeiros dois nomes  como pseudônimo. Assim, nenhum leitor seria intimidado, já que sequer saberia o gênero da autora pelo seu nome. Talvez, se o livro tivesse sido publicado com o nome verdadeiro não teria feito tanto sucesso, mas é gratificante ver como, hoje, JK Rowling é uma das maiores e mais reconhecidas mulheres do mundo.

Fleur Delacour e Beauxbatons apenas para meninas

Há muitas mudanças no enredo da adaptação de literatura para cinema, é certo, em Harry Potter não seria diferente. Por exemplo, enquanto nos livros a Academia de Magia de Beauxbatons, da França, é mencionada como uma escola mista, nos filmes ela foi apresentada apenas como uma instituição feminina.

Isso não faria diferença, se não fosse a escola ser uma das competidoras do Torneio Tribruxo. O impacto de ter uma campeã feminina seria maior e mais representativo caso a escola fosse mista. Assim, nos filmes, Fleur Delacour, a única mulher na competição, recebe o mérito não por suas habilidades, mas talvez por não haver um homem para substituí-la.

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Como se não bastasse, em Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005) Fleur é colocada como a pior concorrente. Ela não consegue terminar a segunda prova, quando é atacada pelas criaturas aquáticas, Grindylows, forçando Harry a resgatar sua irmã. Também, a francesa é a primeira a sair da terceira prova da competição, após gritos apavorados e ser “engolida” pelo labirinto, deixando, mais uma vez, para Harry a tarefa de salvá-la.

Uma pequena mudança no roteiro – e a contratação de meninos em vez de meninas – não faria diferença para a produção do filme, mas com certeza contribuiria para dar à Fleur seu verdadeiro destaque.

Hermione Granger: muito mais que a amiga de Harry Potter

Hermione é a única mulher do trio de personagens principais e possui um dos arcos mais desenvolvidos da saga. É extremamente inteligente e esforçada desde o primeiro filme, e demonstra o seu conhecimento, ao saber a resposta para qualquer questão que os professores fazem. A garota em momento algum tenta esconder ou se sente envergonhada pelo seu domínio e tem orgulho do que faz.

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Além de ser habilidosa com a magia, Hermione sempre lutou pelo que acreditava, como a liberdade dos elfos domésticos. Em Harry Potter e o Cálice de Fogo, a bruxa criou o Fundo de Apoio à Libertação dos Elfos-Domésticos (F.A.L.E) e mesmo com as piadas e a reprovação de seus amigos, continuou lutando pela causa. Após o fim da saga, JK Rowling informou à imprensa alguns fatos posteriores a Batalha de Hogwarts. Um deles conta que Hermione, depois de anos de trabalho, conseguiu libertar as criaturas da escravidão.

Outra característica de Hermione é de ser muito emotiva. Algo não muito comum entre pessoas muito inteligentes nas produções de Hollywood. A garota não tem vergonha de demonstrar seus sentimentos, também parte da sua personalidade.

Uma perspectiva mais controversa da história é Hermione ser vista como superior às outras alunas de Hogwarts, por não seguir o arquétipo raso normalmente atribuído ao papel das mulheres nas séries. O reforço da ideia de que a bruxa é “diferente das outras meninas” poderia desmerecer os outros papéis na série, criando uma certa rivalidade entre mulheres que não apresentam os mesmos valores que Granger.

De qualquer forma, Hermione é movida por seus próprios sonhos, desejos e ideais e não depende de nenhum homem pra realizá-los. Sua personalidade é apresentada em diversas dimensões, construindo uma personagem bem desenvolvida, que representa o feminismo.

Molly Weasley e o direito de escolha

Algumas pessoas questionam Molly Weasley ser considerada uma personagem feminista, pelo fato da mesma ser dona de casa. No entanto, ela ter feito essa escolha mostra que as mulheres têm o direito de exercer qualquer função, incluindo as tarefas domésticas. Rowling declarou: “No começo, quando escrevia a série, eu lembro de uma jornalista falando para mim que a Sra. Weasley era ‘você sabe, só uma mãe’. E eu estava absolutamente irritada com esse comentário. Hoje, eu me considero feminista e eu sempre quis mostrar que só porque uma mulher fez uma escolha livre e disse ‘Bem, vou criar minha família. Talvez eu ainda tenha uma carreira em tempo integral, ou em meio período, mas essa é a minha escolha’, não significa que é só isso que ela pode fazer. E conforme mostramos naquela pequena batalha, Molly Weasley prova que é igual a qualquer guerreiro”.

A autora se refere à batalha final de Hogwarts, em que Molly exibe suas forças durante a luta e mata Bellatrix Lestrange, após falar uma das frases mais famosas da série “A minha filha não, sua vadia”, para defender Gina Weasley.

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Gina Weasley: muito mais que o interesse amoroso

A maior mudança de personagem dos livros para os filmes é Gina Weasley. Em uma breve análise, a Gina dos livros é incrível. A partir do quinto livro – nos primeiros quatro ela não chama muito a atenção de Harry – ela aparece segura de si, popular, falante, decidida, uma das melhores jogadoras do time de quadribol da Grifinória, uma bruxa habilidosa e ótima amiga.

Nos filmes, entretanto, é diferente. Nas primeiras vezes em que ela aparece é sempre tímida e envergonhada, só começamos a notá-la em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009) quando o Harry se apaixona por ela.

A partir do seu quarto ano em Hogwarts, Gina sofre constantemente com o slut-shaming feito por seu irmão Rony, que se incomoda com o fato dela se envolver com diferentes estudantes da Grifinória. Um exemplo é a cena em que ela está com Dino Thomas no restaurante Três Vassouras.

Luna Lovegood: a importância do diferente

Se tem nos filmes uma personagem “diferente”, essa é Luna Lovegood. Ela não se encaixa em nenhum padrão e por isso, pode ser considerada uma das mais feministas da série.

Apesar de ser classificada por seus colegas como esquisita, com gosto duvidoso e uma imaginação fértil demais, a melhor característica de Luna é que ela não se importa com nada disso. Se ela quiser vestir uma cabeça de leão, ela vai; se quiser andar por aí com um óculos estranho, ela também não terá problemas. Aqui, é importante lembrar que ela sabe que as pessoas falam mal dela pelas costas, mas apesar de admitir que acha isso “cansativo”, nunca considerou mudar para se encaixar nos padrões.

Além disso, Luna também é compreensiva, leal e livre de maldade, e a soma de todas essas características a torna uma das personagens mais queridas – e inspiradoras – da saga.

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Bellatrix: o feminismo do outro lado

Dependendo de como criadas, só o fato de serem vilãs já dá um maior destaque às personagens femininas de um filme. É o caso de Bellatrix em Harry Potter já que, através de sua personagem, o filme mostra que mulheres também podem estar no lado mal, sem serem loucas ciumentas ou vingativas.

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A exceção de Voldemort, Bellatrix é a personagem mais violenta da saga. Ela não mede esforços para conseguir o que quer e sente prazer ao machucar e torturar os outros, não por algum tipo de vingança feminina ou por se sentir injustiçada, mas simplesmente porque quer. Não que essa seja uma característica boa, mas em um filme é ótimo mostrar todos os tipos de mulheres que podem existir, até no lado do mal.

Minerva McGonagall e Umbridge: Bruxas no poder

Minerva é diretora da Grifinória, professora de transfiguração, vice e depois diretora de Hogwarts, mostrando como no mundo bruxo de Rowling, as mulheres também ocupam os cargos de poder.  McGonagall é extremamente profissional, rígida e sempre segue a sua moral. A professora ainda ajudou Sibila Trelawney, mostrando sororidade, quando a mesma foi demitida em Harry Potter e a Ordem da Fênix.

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Dolores Umbridge também representa o lado maligno, como Bellatrix, mas de outra maneira – regado a gatos e cor-de-rosa. Apesar desse lado muito “feminino”, Umbridge possui um dos maiores cargos do Ministério da Magia e assume uma vaga criada especialmente para ela, Alta Inquisitora  de Hogwarts, em Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, 2007), que lhe dá o poder de mudar quase tudo que julga errado. Além disso, ela também não liga se causar algum tipo de dor física de vez em quando (não devemos contar mentira, certo?).

Poção do Amor e Cultura do Estupro

Um artigo publicado por Emma Lord no site Bustle causou grande polêmica entre os fãs de Harry Potter. Nele, Lord discorre sobre como a poção do amor é tratada de forma crítica na história, contribuindo para a cultura do estupro.

A poção do amor, também conhecida como “amortencia”, é considerada pelo professor Horácio Slughorn como uma das mais perigosas que existe. No entanto, o seu uso é apresentado de forma cômica em Harry Potter e o Enigma do Príncipe: Rony come um bombom envenenado com a poção, feito por Romilda Vane para Harry.

Então, o garoto perde oda a sua autonomia e pensa até em terminar com sua namorada, Lilá Brown, para ficar com Romilda.Uma história não incluída nos filmes é a de Mérope Gaunt, a mãe de Voldemort, que era apaixonada pelo trouxa Tom Riddle. Um dia, a bruxa lhe deu a poção do amor e  os dois fugiram de sua vila. Quando Mérope engravidou, a mulher acreditava que Tom já havia se apaixonado por ela e decidiu parar de dar-lhe amortencia. O homem então, voltou para a sua antiga aldeia e a abandonou grávida.

Emma Lord argumenta que a poção do amor poderia ter uma analogia com o estupro, no sentido de que nos dois casos a vítima tem a sua autonomia retirada e enfrenta situações que não são consensuais.

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A problematização continua no fato de a poção ser ensinada nas próprias aulas de Hogwarts e no fato de os produtos para a realização da mesma não serem regulamentados, considerando a sua utilização como comum ou aceitável. 

De qualquer forma, a franquia Harry Potter influenciou diversas pessoas e produções posteriores, ajudando na diversificação do papel da mulher no cinema. O fato de ser baseado em histórias escritas por uma mulher também é grandioso e marcante. Cada personagem feminina da série tem uma personalidade única e independe de qualquer homem, contribuindo para a criação de um universo mais realista e importante para as mudanças do mundo atual.

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