A Outra História Americana e sua atemporalidade

Em tempos incertos, com a ameaça do Estado Islâmico, Trump no poder e Bolsonaro como possível candidato à presidência, talvez o caráter xenofóbico e fascista de nossa sociedade nunca esteve tão evidente desde a Segunda Guerra Mundial. Discursos de ódio e as pós verdades são disseminadas em massa, principalmente pela facilidade que os aparatos tecnológicos e as mídias sociais oferecem. Logo, o autoritarismo presente no filme repete-se na atualidade não somente pelo cenário geopolítico, mas também pela perda da capacidade de enxergar e entender o outro, suas ideias e seu lugar na sociedade – tomando suas próprias ideias como verdades absolutas e irrefutáveis.

Sucesso dos anos 90 por suas ótimas atuações e cenas chocantes, A Outra História Americana (American History X, 1998) tem como enfoque uma temática que – infelizmente – continua atual: o racismo e o neonazismo. Retratados de maneira realística, o que enfatiza o caráter assustador da obra, percebe-se a força e influência de uma ideologia sobre o comportamento humano.

O filme conta a história de Derek Vinyard (Edward Norton, em um dos melhores papéis de sua carreira), que após a morte de seu pai em um bairro negro de Los Angeles direciona toda sua raiva para a comunidade negra e hispânica, vistas por ele como “invasores e parasitas sociais”. Ao aproximar-se dessa ideologia, Derek acaba por liderar uma gangue de neonazistas, espalhando violência e intolerância. Isso fica bem claro, por exemplo, na cena em que o grupo invade e vandaliza um supermercado simplesmente por contratarem imigrantes.

Após um discurso ultranacionalista e xenofóbico de Derek – bem aos moldes nazistas da Segunda guerra – os membros adentram descontroladamente o estabelecimento, derrubando todos os produtos no chão e agredindo animalescamente os funcionários. Seu ódio culmina no assassinato de dois jovens negros (o qual rende uma das cenas mais pesadas do filme todo, a do meio fio), sentenciando Derek a três anos de prisão. Após perceber o caráter ilusório de suas ideologias e as reavaliá-las, o personagem sai do cárcere apenas para encontrar seu irmão mais novo, Danny (Edward Furlong) – que sempre o admirou – seguindo seus antigos passos. Isso leva Vinyard a tentar impedi-lo de ter o mesmo destino que o assombra.

Ao alternar, de forma inteligente, entre o preto e branco e o colorido, a direção consegue transmitir com sucesso os sentimentos distintos do passado e do presente do protagonista. A falta de cor ressalta o clima melancólico e o modo frio com que Derek e seu grupo agiam, enquanto a tela colorida passa uma sensação de esperança e uma certa redenção do personagem. As simbologias são bem utilizadas, ao começar pela enorme e imponente suástica tatuada no peito de Derek, como parte de si. Além disso, os quartos e as festas da gangue são repletas de pôsteres com o símbolo nazista, ilustrações de Hitler e imagens e frases violentas, como “Niggers, beware!” (em tradução livre, algo como “Pretos, tomem cuidado!”), sem contar com as inúmeras pessoas de cabeças raspadas (característica dos skinheads) e até com bigodes de Hitler. Toda essa produção de arte ajuda na imersão nesse universo, perturbando-nos com o caráter verídico das ações e crenças dos personagens.

Da História para o cinema

O resgate do nazismo se deu inicialmente por simpatizantes que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial, a maioria ingressante de partidos políticos de extrema direita. Com o passar do tempo, a ideologia neonazista foi conquistando cada vez mais adeptos, popularizando noções da superioridade ariana sobre outros grupos considerados “impuros”, como negros, latinos, asiáticos, homossexuais e, no Brasil, até nordestinos. Esse discurso xenofóbico e racista, apoiado por uma admiração irracional de Hitler, dissemina ódio e violência gratuitos, principalmente no século da liberdade de expressão e da internet, a qual facilita o acesso e a divulgação desses conteúdos. No Brasil, o neonazismo também é proliferado, mesmo que de maneira mais clandestina do que na Europa. Seus adeptos não costumam aparecer publicamente, mas no universo virtual construíram uma rede organizada e fortalecida. Em uma entrevista para a Vice, a antropóloga Adriana Dias afirma que aproximadamente 150 mil brasileiros baixam mensalmente material neonazista na internet, sendo a maioria dos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, organizados por meio de sites e fóruns.

Além disso, A Outra História Americana é bem enfática ao retratar o recrutamento da gangue: jovens frustrados e inseguros, seduzidos pela ideia de pertencimento a uma suposta causa, “cansados de serem maltratados por negros e mexicanos”. Por serem impressionados muito facilmente, obedeciam o que Derek dizia. Essa representação cinematográfica está longe de ser mera encenação, especialmente pela patente presença de grupos extremistas como o Estado Islâmico na atualidade. O EI utiliza essencialmente dessas estratégias para aumentar seu contingente, auxiliado pelas mídias sociais para atrair pessoas que compartilham interesses e fanatismos em comum.

Díficil é encontrar respostas que possam resolver ou ao menos amenizar tamanha raiva e radicalização, principalmente por presenciarmos uma atualidade em que até governos democráticos disseminam a xenofobia e o racismo – como o novo governo de Donald Trump e diversos países europeus durante a crise dos refugiados. Por isso, A Outra História Americana se mantém atemporal ao representar uma mancha obscura na história não só dos EUA, mas do mundo todo. Com uma mensagem que dá um soco no estômago, deve ser visto e refletido: até onde iremos chegar? Em tempos atuais preocupantes, precisa-se mesmo é de empatia, por si mesmo, pelo outro e pela humanidade.

Por Giovanna Simonetti
g_simonetti@usp.br

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