22º Festival É Tudo Verdade – Em um Mundo Interior

Este filme faz parte do 22º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Desde que aparece pela primeira vez, sempre que possível, Beto bate sua cabeça contra paredes e seu próprio joelho. Não só o som é mais seco do que se nós fizéssemos isso, como segundo a mãe, a quantidade de choques já deixou o crânio do garoto com alguns achatamentos. É tão angustiante vê-lo nessa situação que quando o abraço de um colega o acalma, nos reconforta que os diretores Flavio Frederico e Mariana Pamplona mantenham o plano por mais alguns segundos.

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Com uma premissa simples e uma condução bastante caseira, Em um Mundo Interior (2017) acompanha por alguns dias, a vida de sete crianças, de 3 a 18 anos, que sofrem de autismo no Brasil. Didático e esclarecedor, o documentário traz em seu primeiro terço especialistas da área, que ajudam a contextualizar o transtorno: a exclusão dos semelhantes, o atraso no desenvolvimento emocional e comunicativo, a compreensão totalmente literal das coisas, a maior sensibilidade a som e luz e as várias nuances que separam alguém sem o distúrbio do autista clássico. Nesse último ponto, é importante que os diretores acompanhem crianças diferentes para que de fato percebamos a complexidade do autismo.

Assim, se Beto bate a cabeça em tudo que pode, Igor já consegue brincar com um amigo de mãos dadas. Se Eric é capaz de praticar judô e apresentar toda sua coleção de personagens de RPG, Isabela só se comunica através de figuras. Frente a todos esses graus, talvez um ponto de confluência seja a função terapêutica da escola, aquela que primeiro desempenha o papel de socializar indivíduos que naturalmente precisariam apenas de si mesmos para buscar prazer. Quanto a isso, uma psiquiatra ainda ressalta que a inclusão de autistas dentro dos centros de formação gera cidadãos mais conscientes e com menos preconceitos.

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Por outro lado, ainda que o recorte do transtorno seja ilustrativo, o mesmo não se pode dizer sobre a classe social. Não só 70% das crianças que acompanhamos são de São Paulo, como todas elas são no mínimo de classe média. A indagação que fica é que se para essas, lidar com tratamentos e assistência já seja custoso e difícil, como será então para outras sem recursos? O documentário aponta que várias delas são abandonadas pelos pais, mas sem dúvidas, é um grande prejuízo que não tenhamos sequer uma que nos exponha essa realidade.

Pelo menos, no quadro a que se propõem, o filme nunca cai ao melodrama, poupando-se também do artificialismo que uma trilha sonora traria, caso incluída. Além disso, é interessante reparar como o pacto documentarista/documentado, sempre respeitado pelos adultos, é constantemente quebrado pelas crianças, por exemplo nas diversas vezes em que elas tentam interagir tocando ou olhando diretamente para a câmera – o que sugere em vídeo as tímidas tentativas de socialização das quais discutiam antes os especialistas. Por outro lado, a ideia de entregar câmeras às crianças para que elas capturassem o mundo segundo seus próprios olhos – lembrando o maravilhoso Nascido em Bordéis (Born in Brothels, 2004) –, se mostra frustrada e praticamente esquecida após um tempo.

Ainda numa análise técnica, incomoda o número de vezes que o microfones aparecem no quadro. É certo que as crianças são imprevisíveis, mas várias cenas em que isso acontece não trazem nada de tão repentino, que justifique o descuido. Mesmo assim, sendo a interferência de câmeras bastante intrusiva para indivíduos que teoricamente não suportariam o inusitado, é preciso elogiar como Em um Mundo Interior consiga extrair tamanha sensibilidade de vidas tão ingênuas, mas que ao mesmo tempo ricas, provem a beleza daqueles que convivam com o autismo.

 

Trailer:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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