40ª Mostra Internacional de SP: Zoology

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

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Natasha é uma senhora russa com seus cinquenta anos que trabalha no zoológico da cidade e mora com sua mãe e seu gato caduco. Sem amigos, marido ou filhos, ela desfruta da solidão e de vícios secretos — fuma, mas se banha de perfume antes de entrar em casa — até que conhece um jovem e charmoso médico chamado Petya, que lhe apresenta os prazeres da vida, leva-a para discotecas e para outros programas tolos e excêntricos que só casais apaixonados sabem escolher. Um belo romance norte-americano para solteironas, não?

Não. Zoology (Zoologiya, 2016) é uma película produzida pela Rússia, Alemanha e França, que ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival Karlovy Vary, na República Tcheca, e é o segundo longa do diretor Ivan I. Tverdovsky. Além disso, Natasha tem uma cauda. Um membro completo, surgido repentinamente, maior que um fêmur, que pulsa, balança e se dobra por debaixo das saias da protagonista para se esconder. Tem vida própria e dita a vida de Natasha. E isso muda todo o tom da história.

Para os médicos do hospital local, este é só mais um caso, mas, para a população católica e afastada da ciência, é um sinal de possessão — o que nunca houve. Natasha é uma senhora normal e o filme não perde tempo com alusões a Deus e o Diabo na terra dos czares. A protagonista é gentil e bem-humorada; dócil pela condição física que a aprisiona em roupas recatadas e cinzas, e que, de alguma forma, influencia como os outros a vêem e a tratam, mesmo que não saibam o segredo que esconde.
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Natasha é odiada, mas não odiável. Apesar disso, suas colegas de trabalho insultam sua aparência e seu serviço gratuita e diariamente. No zoológico, os únicos que demonstram algum carinho por ela são os animais. Fora do horário de expediente, Natasha parece trocar palavras apenas com as pessoas da fila do hospital, onde retorna incansavelmente para tirar radiografias que darão base para a desejada retirada de seu rabo.

Nessas consultas, conhece Petya, que, como profissional, age com naturalidade diante da parte do corpo radiografada e, com gentileza atrás de gentileza, começam a sair. A paixão entre os dois é uma situação que provoca dúvida tanto em quem assiste quanto na personagem, mas o romance não é o ponto da história, assim como não o é de vida alguma. De que vale, afinal, um único laço afetivo entre as várias possibilidades de ser rechaçada por toda a comunidade? Com o tempo, se desgasta, e a cauda, cerne narrativo e sensorial de Zoology, desenvolve questões sobre aceitação, fanatismo e assédio moral.

Sensorial porque a meticulosidade da equipe de maquiagem e de efeitos especiais perturba. Por oitenta e sete minutos, também brota uma cauda indomesticável na nossa lombar, que tememos que seja vista. Por que você se esconde?

Veja o trailer:

por Larissa Lopes
larissaflopesjor@gmail.com

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