41ª Mostra Internacional de SP: O Dia Depois

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Em O Dia Depois (Geu-hu, 2017), Hong Sangsoo nos presenteia o mesmo objeto, em outro embrulho. Descrito como uma comédia, o longa entrega os mesmos questionamentos sobre adultério, amor e moral que já vimos anteriormente na filmografia de Hong. O enredo é permeado, como já é de praxe para Sangsoo, por seus próprios dilemas pessoais – dilemas estes que foram a público este ano, e que já explicamos nesta resenha. Entre referências, subtextos e claras inspirações, ele monta mais uma autobiografia velada, porém desta vez muito mais contida do que no anterior Na Praia à Noite Sozinha (Bamui Haebyun-eoseo Honja, 2017).

O veterano Kwon Haehyo é nosso protagonista Kim Bongwan, um célebre escritor e crítico literário casado, que na primeira desconfortável cena come seu jantar enquanto é bombardeado por perguntas de sua esposa – por que está emagrecendo, por que está saindo mais cedo de casa, e, finalmente, a questão que esteve por trás de todas as anteriores: se está tendo um caso, e com quem.

O roteiro é fragmentado, cenas do passado e do presente sendo sobrepostas e tornando a história um pequeno mistério entre o começo e meio do filme. Conhecemos a presumida amante de Bongwan, uma mulher mais nova que o chama constantemente de “chefe”. Logo depois, conhecemos quem logo roubará a cena do protagonista e conduzirá o enredo, interpretada pela tão adorada Kim Minhee.

O Dia Depois é o segundo filme de Hong com a atriz em 2017, dos três que produziu no total, e também o segundo após a polêmica de ter traído a esposa com Minhee. Desta vez, diferentemente de Na Praia à Noite Sozinha, Minhee não tem sua personagem envolvida em uma relação adúltera, mas é espectadora de uma e acaba sendo vítima desta. Ela é Song Areum – cujo primeiro nome “Areum” significa, basicamente, “bonita” -, uma jovem contratada por Bongwan para ser sua assistente. Logo descobrimos que ela está tomando o lugar da antiga amante do chefe, pouquíssimo tempo após da relação terminar. Antes de saber disso, porém, Areum tem um primeiro dia razóavel no novo emprego. Bongwan a trata bem, puxando conversa sobre sua família, oferecendo livros, e até a levando para almoçar em um pequeno restaurante nos arredores – onde ambos engatam uma conversa filosófica sobre o sentido da vida e suas crenças.

Com a presença de Areum, vários paralelos começam a ser traçados entre as duas mulheres – ela, e a amante. A primeira conversa entre Areum e Bongwan, com todas as divagações existenciais, é diretamente comparada com a última conversa do escritor com a ex, Changsook (Kim Saebyeok), em que ela, aos prantos, o chama de covarde: uma acusação que ele não pode negar, e que fica mais e mais evidente no decorrer da história.

Enquanto isso, a esposa encontra na casa da família um poema um tanto caloroso escrito pelo marido. É claro que não é direcionado para ela. Tendo a prova do que já estava suspeitando em mãos, ela vai confrontá-lo em seu trabalho, e lá encontra a jovem e bela Areum. As suspeitas imediatamente recaem sobre ela, e logo ambas estão em uma desajeitada troca de tapas e empurrões. É assim que a nova funcionária, em seu primeiro dia de emprego, é sugada para a teia de mentiras de Bongwan e Changsook, e se torna o novo alvo de ódio da esposa traída.

O filme segue com inúmeras situações desconcertantes e, por vezes, incrivelmente patéticas – e é justamente daí que vem o humor. O diretor Hong tira sua comicidade não de piadas ensaiadas ou escracho, mas de provocar uma tamanha inconformação do espectador que sua única reação possível é rir.

Não há hesitação em transformar o protagonista em um caricato adúltero, que não consegue impor-se diante da mulher ou da amante, muito menos explicar seus sentimentos a qualquer uma delas, vendo então os acontecimentos passarem por ele sem fazer nada. A inutilidade dele como agente e sua alta incompatibilidade com o público fazem que a personagem de Kim Minhee, diante de toda a sujeira que a rodeia, seja ainda mais engrandecida.

Aliás, várias artimanhas de filmagem e roteiro funcionam para fazer Song Areum parecer superior ao seus próximos. Ela é constantemente elogiada por sua aparência, por mais de um personagem. Uma cena é montada em torno do seu novo chefe lhe dizendo que suas mãos são bonitas. Ela permanece moralmente intacta enquanto todos os personagens ao seu redor erram repetidamente, recorrem à violência, traem e tentam prejudicá-la. Close-ups do seu rosto são habituais.

Aparentemente, Hong Sangsoo não consegue superar Kim Minhee, ou deixar de lado seus sentimentos românticos por ela ao produzir longas em sua presença. Isso fez com que Na Praia à Noite Sozinha tenha sido um ode à atriz, e isto se repete em O Dia Depois. É uma situação perigosa para o diretor, que corre grande risco de se estagnar criativamente. Mas também é preciso considerar que a filmografia de Hong é fortemente caracterizada por enredos muito próximos entre si, todos intensamente carregados de subjetividade e de sentimento do diretor – talvez estes marquem a época pós-Kim Minhee do cineasta, e a impressão de mais-do-mesmo esteja apenas sendo intensificada pelo lançamento muito próximo destes dois longas muito similares em inspiração.

É o modo de trabalhar tal inspiração que mais os difere, já que o humor amargo de O Dia Depois traz uma maior leveza comparada à intensa contemplação moral de seu antecessor. Apesar da paleta monocromática preto-e-branca colabore para uma atmosfera mais melancólica, é evidente que o filme é muito contido, planejado e deliberadamente mais vago. As contemplações estão lá, mas dançando nas entrelinhas de cenas tragicamente cômicas, ao invés de escancaradas à frente do público.

Amargo do início ao fim, O Dia Depois consegue se tornar extremamente agradável em um sentido: ter um protagonista tão pateticamente imóvel certamente faz o espectador se sentir um pouco melhor sobre si mesmo.

 

Confira o trailer de O Dia Depois:

por Juliana Santos
jusantosgoncalves@gmail.com

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