41ª Mostra Internacional de SP: Três Anúncios para um Crime

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

 

Um crime hediondo pode abalar uma cidade. Ainda mais, uma família. Três Anúncios para um Crime (2017) aborda esta temática. A negligência policial, o desespero de uma mãe após a perda de sua filha e a impunidade do assassino se contrastam nesta narrativa que parece não convencer o público mas que, surpreendentemente, se desenvolve muito bem, cativando a atenção e interesse do espectador.

Como já mencionado, o filme conta a história de Mildred Hayes (Frances McDormand), que perde sua filha, vítima de um crime grotesco. A filha, teve seu corpo completamente queimado e, após sua morte, ainda foi estuprada. A mãe, então, jura justiça à garota. No entanto, o corpo policial local foi ineficiente na investigação do crime. Assim, Hayes decide contratar uma agência publicitária para contratar três outdoors em uma estrada remota. Nestes outdoors (os três anúncios), ela deixa uma mensagem de afronta ao xerife de sua cidade, Ebbing, Missouri. Assim que os anúncios são instalados, a atenção de todos se volta para o local, ainda mais com a presença da mídia, dando destaque aos acontecimentos nada rotineiros. A partir daí, a vida da cidade começa a passar por muitas turbulências.

 

Os anúncios acusativos de Mildred, afrontando a polícia, numa busca por justiça. Foto: Divulgação.

Os questionamentos à polícia surgem em um momento em que estes já são acusados de racismo e de torturarem negros. Esse comportamento e pensamento fica explícito no oficial Jason Dixon (Sam Rockwell). Dixon é uma pessoa arrogante e prepotente, costumada a abusar de seu poder para atingir seus próprios interesses. Além disso, na maioria das vezes, os comentários acerca do racismo vêm dele. Não são raras as vezes em que demonstra atitudes loucas e muito imprevisíveis, como quando invade a agência publicitária envolvida no caso dos anúncios, destrói tudo e ainda joga o proprietário do segundo andar do prédio. O oficial, certamente, causa desgosto a quem assiste o filme. É um típico traste, com todas as letras.

Já Mildred é uma mulher forte e ríspida. Divorciada do marido, ela vivia só, com seus dois filhos. Sua personalidade de “durona” já é conhecida por todos na cidade. Muito corajosa, ela resolve enfrentar os oficiais de sua cidade e levar a briga até o fim, visando resolver o mistério acerca da morte de sua filha, custe o que custar – literalmente. Apesar de ser uma mulher valente, também vemos o desmontar da personagem, em um momento do filme quando Hayes permite a si mesma derramar lágrimas de dor pela perda da filha, ficando evidentes sua fragilidade e sensibilidade, normalmente ocultas por sua personalidade forte.

 

A história consiste em mostrar a batalha enfrentada pela mãe para atingir seus objetivos, contrastando com a repercussão polêmica que seus anúncios têm aos habitantes da cidade. Enquanto isso, a rotina incorreta dos oficiais da lei também entra em foco. Desdobrando-se na vida de cada um dos personagens principais, numa profunda introspecção, chegamos ao íntimo desses, ficando explícitas as razões para os comportamentos demonstrados por eles ao longo da narrativa.

A personagem de Frances McDormand, apesar de grosseira, mostra-se também uma mulher sensível e deprimida. Foto: Divulgação.

O filme tem sido muito bem recebido pela crítica, merecidamente. No início, não demonstra a grande história que vem pela frente, porém, aos poucos, vai conquistando o espectador, que se sente, cada vez mais, parte da história. Dessa forma, não demora até que surja a empatia pela mãe destemida, o desprezo pelos policiais locais e suas atitudes questionáveis, além da curiosidade quanto ao desfecho da trama que aposta em muitas reviravoltas.

Repetidamente, em alguns momentos quando a história flui tranquilamente, somos surpreendidos por uma outra situação que muda tudo e abala a forma como o contexto vem sido desenvolvido. Utilizando desse recurso, o público dificilmente fica cansado da história, pois há sempre uma louvável renovação de fôlego.

Outro aspecto muito interessante é análise do caráter de cada personagem. É quase impossível defender algum personagem, pois todos carregam a dor da culpa em suas costas. No desenrolar da história, eles têm suas fases de mocinho e de vilão, bem e mal. Isso fica claro na personagem de Bill Willoughby (Woody Harrelson), o xerife de Ebbing, que é a pessoa mencionada diretamente nos anúncios da estrada. Em alguns momentos, vemos nele alguns traços de uma personalidade ruim, compactuando com o comportamento racista de sua corporação, por exemplo. No entanto, também vemos o lado humano do xerife, aproveitando sua família enquanto pode, já que tem uma grave doença e corre riscos de vida.  

O poderoso Xerife Willoughby, que surpreende ao longo do filme com atitudes justas. Foto: Divulgação.

O ponto que mais agrada, sem dúvidas, é a boa dosagem dos sentimentos ao longo do filme. Apesar de ser uma história dramática, com uma temática triste, o filme acerta muito ao equilibrar esse tom com as inúmeras cenas de comédia. Somos pegos de surpresa em uma cena supostamente triste com algo engraçado, seja uma atitude boba de Dixon, ou algum comentário ácido de Mildred. De qualquer forma, é incrível a suavidade em que drama e comédia se misturam. Somado à isso, vem as cenas de ação muito bem feitas, concretizando um mix de estilos com um ótimo resultado final.

No Festival Internacional de Toronto, o longa foi eleito o melhor filme pelo voto popular. A expectativa é que a produção ainda renda alguns outros prêmios pela frente, especulando-se muito, inclusive, sobre indicações ao Oscar. Uma das apostas para as honrarias da Academia diz respeito à atuação de Frances McDormand, que agrada e é muito convincente. No entanto, provavelmente, o filme será indicado também para outra categorias. Três Anúncios para um Crime é algo para mantermos os olhos até as premiações de 2018 e que pode surpreender. Quem sabe não estamos frente a uma das melhores produções do ano?

 

Trailer:

por Gabriel Bastos

gabriel.bastos@usp.br

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