5 motivos para não assistir a uma pornochanchada

                                                                                                                                                                                                                                                    Bruno Molinero

Em uma clássica madrugada de sua vida, com pouco ou nenhum sono, fatalmente você já decidiu correr até a cozinha e preparar um sanduíche. Se esparramou no sofá e com aquela meia colorida de dedinhos torturou o controle remoto até achar um filme brasileiro, provavelmente dos anos 1970 e com temática sexual (afinal, nada como a combinação entre sexo e margarina para passar o tempo). Você não sabia, mas, pela primeira vez, se lambuzava com uma pornochanchada.

Pornochanchada é um rótulo genérico que abriga os filmes brasileiros da década de 1970 que recorriam ao apelo sexual (pouco importa se eram melodramas, suspenses, comédias ou terror). Mas não vá se animando. Embora o prefixo “porno” seja sugestivo, as pornochanchadas não apresentavam mais do que um erotismo implícito, a partir da nudez feminina, da insinuação do sexo e de títulos com duplo sentido e piadas maliciosas. Vale lembrar que o “gênero” só encontrou espaço por conta da ditadura. O regime estimulava a produção cinematográfica nacional, logo, debaixo das barbas da censura “sexo pode, política não”, as pornochanchadas alçaram voo como produto voltado às classes populares. Com acabamento digno de um hipopótamo, essas produções fizeram a alegria da geração Copa de 70 e lançaram nomes que hoje beiram o estrelato, como Vera Fischer, Nuno Leal Maia, Ney Latorraca, David Cardoso e Helena Ramos.

Se por um lado essas interessantes produções são divertidíssimas, por outro, seus “aaahs”, “smacks”, “slurps”, “wooshs” e “nheque nheques” podem constranger os mais conservadores. Bochechas vermelhas à parte, confira cinco motivos para você não gritar “Manhê, corre, começou a pornochanchada!”.

“Vereda Tropical”

1. A Feira: Pastel, caldo de cana e uma mexerica – seus almoços dominicais estão ameaçados. A feira pode se tornar um local intimidador, de práticas sexuais não ortodoxas, uma verdadeira “Sodoma do pomar”. Tudo graças ao curta Vereda Tropical (1977), que trata de uma tórrida paixão sexual entre um professor e sua melancia – e se diferencia das demais pornochanchadas por não ter palavrão e mulher pelada. O filme é genial, é sutil, é a descoberta genital das frutas (com direito a uma câmera penetrando a melancia no ato). Mesmo assim, ele só foi reproduzido sem cortes em 1979 por ser considerado uma “aberração sexual”. A feira ainda pode proporcionar outras surpresas, como frutas com formatos fálicos. Esse é o mote de A Árvore Dos Sexos (1977), em que uma árvore centenária passa a dar frutos com formas “curiosas”, que engravidam as mulheres quando ingeridos.

“Histórias Que Nossas Babás Não Contavam”

2. A Babá: Aquela doce senhora pode se transformar em um monstro. Além dos gibis da Magali, as belíssimas histórias contadas serão indícios de abusos que você sofreu. Graças ao filme Histórias Que Nossas Babás Não Contavam (1979), cada ação infantil terá uma nova explicação. O longa é uma sátira do clássico Branca de Neve e traz Adele Fátima (uma morena sensual) no papel principal. A trama é hilária, a madrasta tem um caso com o príncipe, o espelho mágico é voyeur, a Branca de neve é disputada pelos anões, mas acaba com o Dunga, e o Zangado é gay e foge com o príncipe. A música de abertura também é ótima, com destaque para o verso: “história de príncipe e princesa sempre acaba em safadeza / como João e Maria que faziam bacanal / e Chapeuzinho Vermelho que dava muito pro Lobo Mau”.

“Como É Boa Nossa Empregada”

3. Seu Pai: Seus pais fatalmente irão se separar após essa sessão. Títulos auto-explicativos como Oh! Que Delícia De Patrão (1974), Ainda Agarro Esta Vizinha (1974) ou Como É Boa Nossa Empregada (1973) transformarão seu pai no maior cafajeste brasileiro -quase um Ojuara casado, de O Homem que Desafiou o Diabo (2007). A vizinha, a secretária e a empregada, nesses longas, são a materialização das fantasias masculinas e envolvem o homem em um jogo de sedução. Depois disso, seu pai não abrirá a porta do elevador ou atenderá o celular a negócios, sem a devida supervisão.

“Essa Gostosa Brincadeira a Dois”

4. As Viagens: Final de semana na casa do primo, festa na praia, jogos universitários…a imagem de uma casa arrumadinha, com um tabuleiro de War e sucos de laranja sobre a mesa, desaparecerá da mente de sua mãe. Será impossível desvencilhar o pé-na-estrada das dançarinas semi-nuas e de experiências sexuais selvagens e intempestivas, como as de Essa Gostosa Brincadeira a Dois (1974). No longa, o Road Movie das pornochanchadas, um típico burguês vai de moto para a Bahia, onde conquista a estonteante Vera Fischer com uma piscadela. A partir daí é puro sexo, no quarto, na piscina, na praia, no navio…e só pára quando ele retorna ao lar, em busca de seu verdadeiro amor. Já em Nos Tempos da Vaselina (1979), um caipira viaja ao Rio de Janeiro para passar uns dias com o primo, mas acaba se envolvendo com a atmosfera carioca de sexo, motéis e mulheres.

5. A Literatura: Você, que sempre enxergou as personagens de José de Alencar como seres assexuados e que não encontrou a relação sexual de Iracema, terá um problema de identidade. Todos os floreios e recursos linguísticos utilizados por Alencar e insistentemente estudados durante a escola foram destruídos em Lucíola, O Anjo Pecador (1975). O filme é uma adaptação de “Lucíola”, um livro bem ao sabor do Romantismo, em que são retratados a sociedade burguesa do século XIX e seus excessos. Para o diretor Alfredo Sternheim, “o filme tinha nudez porque havia nudez no livro de José de Alencar”. Contudo, no livro, ela estava debaixo de toneladas de metáforas longuíssimas – que sumiram junto com sua paixão pelas aulas de literatura.

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