7 Desejos e o surpreendente êxito da temática banal e do terror não-aterrorizante

Em algum momento, todos nós já desejamos que nossas vidas se tornassem, de alguma maneira, diferentes. Há momentos em que gostaríamos de arrancar do nosso dia a dia apenas uma coisinha, banal e mínima, que nos incomoda, e que sabemos que estaríamos melhor sem. Quem nunca desejou por um salário melhor, um emprego que nos trouxesse satisfação, uma casa dos sonhos, ou viajar o mundo? Independentemente do que seja, não é difícil pensar num aspecto que facilmente tiraríamos de nossas vidas. E se magicamente todas as coisas que desejássemos realmente acontecessem?

Em 7 Desejos (Wish Upon, 2017), a jovem Claire (Joey King) tem a oportunidade de responder à essa pergunta. Do mesmo diretor de Annabelle (2014), o filme conta do momento em que Claire entra em contato com uma misteriosa caixa de música chinesa, e vê toda sua vida transformada: a caixa lhe concede um total de sete desejos e realiza-os à troco de um determinado preço.

Imagem: reprodução

Numa temática colegial comum, Claire é uma adolescente que detesta seu colégio e seus colegas de classe. Entre brigas com a menina mais popular da escola e a paixão não correspondida pelo garoto mais bonito, Claire tem a oportunidade de fazer com que todos os motivos que acarretam sua infelicidade desapareçam. Para a colegial, seu maior desejo, como ela mesma diz no longa, é o de viver uma vida “normal”, sem implicância por parte dos colegas, em que fosse correspondida e, de maneira geral, que tudo desse certo. Estando tão próxima de conseguir tudo aquilo que sempre quis, Claire não hesita em pedir alguns desejos à caixa. Logo, entretanto, descobre-se que a caixa não só concede desejos, mas também cobra uma recompensa.

Numa espécie de temática consequencialista, muito reforçada pela música de principal do filme — “careful what you wish for” (em tradução: “cuidado com o que você deseja”) —, o filme abusa da lógica ato-consequência, causando-nos mais reflexão do que medo. Num primeiro momento, a reação que temos diante da incapacidade de Claire de parar de fazer pedidos, mesmo vendo os estragos que eles causam, é revolta. Essa nos aparenta ser uma menina imatura e egoísta, que põe seus interesses acima de qualquer coisa. Porém, conforme o filme se desenrola, acabamos por nos questionar até em que ponto você mesmo iria se estivesse no lugar de Claire, se tivesse a chance de viver, mesmo que por algumas semanas, sua vida perfeita, a vida dos seus sonhos. Claire não é apenas individualista e leviana, ela é viciada no comodismo da felicidade.

Imagem: reprodução

Apesar da temática não tão inovadora — afinal, desejos sendo concedidos por objetos existem desde a lâmpada de Aladim —, o longa apresenta como ponto positivo a ausência de efeitos especiais excessivos, comuns ao gênero, principalmente quando se trata de representações das entidades malígnas. 7 Desejos também se diferencia dos filmes regulares ao não apelar ao jumpscare — aquela clássica técnica de provocar sustos através de gritos ou sons muito altos acompanhados de mudanças repentinas na imagem — para ser considerado dentro da categoria “terror”. De maneira sutil, o filme nos deixa mais apreensivos e agoniados do que realmente com medo. Pode-se até dizer que encaixá-lo no gênero “terror” é um equívoco, e que este converge mais com uma narrativa de suspense. Isso pode ser visto como um convite àqueles que têm pouca intimidade com filmes da categoria, já que os momentos mais tensos do filme não são pautados em medo, mas em aflição.

Ainda quanto aos momentos mais apreensivos do filme, é possível notar que o desenrolar se pauta na mesma lógica que a sequência Premonição (Final Destination, 2000). Conforme estende-se a lista de desejos de Claire, a tensão toda é depositada no momento de iminência de morte, e não no ato em si. Ao não saber o que exatamente pode acontecer, alguns rostos podem se contorcer de agonia, mas nada que seja impactante o suficiente para desviá-los. Além disso, o filme também apela à lógica de que há vários possíveis acidentes, mortais ou não, em todos os lugares. Essa ideia, quando bem usada, pode trazer um aspecto mais realístico ao filme, pois ao não tratar de eventos muito extraordinários, mas de atividades cotidianas e dos perigos advindos dessas, surge uma certa identificação de “isso poderia acontecer comigo”. No filme, pode-se dizer que todos os trechos que são seguidos de morte se desenvolvem nessa base. Corrigindo as falhas de exagero e irrealidade de Premonição, aqui essas cenas se desenvolvem de forma mais natural e corriqueira, trazendo até um aspecto inovador aos filmes de terror. Uma vez que estamos fartos de ver maníacos correndo com serras elétricas atrás de universitários, como em O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 2003), é surpreendente o impacto que uma morte por enforcamento pode causar.

Outro ponto positivo  é a escolha de Joey King como protagonista. A atriz, que participou da também franquia de terror Invocação do Mal (The Conjuring, 2013), apresenta grande amadurecimento profissional e interpreta com maestria a jovem Claire. Joey é uma das poucas atrizes que teve oportunidade de interpretar uma colegial nos seus 17 anos, já que esses papéis geralmente são reservados para atrizes que já saíram da adolescência, e não decepciona: podemos notar a evolução da personagem no decorrer do longa, e conseguimos compreender seus problemas como se fossem nossos próprios. O círculo vicioso no qual se encontra, que simplesmente não consegue quebrar, não consegue sair, e se torna obcecada, todas essas facetas Joey consegue incorporar com êxito.

A colegial que, para fazer a passagem pela escola menos dolorosa, pede coisas insignificantes à caixa em função do seu benefício próprio e acaba causando uma avalanche de eventos desastrosos. É um filme para quem gosta da temática de terror, mas fica receoso de se aventurar em conteúdos mais intensos. Não só nos envolve na trama, nos incomodando em determinadas cenas e mesclando com alguns pingos de comédia, mas também nos faz refletir sobre nossos próprios limites, nossa reação em uma situação do tipo. 7 Desejos é mais para entreter e menos para assustar (ao contrário do que é transmitido pelo trailer).

O filme estreia dia 27 de julho. Assista ao trailer legendado abaixo:

por Giovanna Jarandilha
giovannajarandilha@gmail.com

Comentários