Sequestro, dúvida e política: 7 Dias em Entebbe é a mais nova obra de José Padilha

No ano de 1976, um grupo composto por dois alemães esquerdistas revolucionários e dois palestinos revoltados sequestrou um avião como forma de luta contra Israel no antigo embate entre judeus e muçulmanos. Exigindo em troca a libertação de 53 presos em território israelense, os terroristas levaram os reféns a um aeroporto na Uganda, onde permaneceram com a bênção do ditador Idi Amin. Mais do que retratar esse evento, o filme 7 Dias em Entebbe (7 Days in Entebbe, 2018) explora um ato terrorista de uma forma pouco tradicional e apresenta um resultado lindo em todos os sentidos.

7 Dias em Entebbe

Brühl e Pike interpretam dois alemães revolucionários no novo filme de Padilha

O mais novo longa-metragem do consagrado diretor brasileiro José Padilha (responsável por Tropa de Elite, de 2007, e Robocop, de 2014) traz como protagonistas Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike). Enquanto ele faz o papel de um homem indeciso sobre o quão longe quer ir para alcançar seus objetivos, ela encarna uma mulher disposta a tirar vidas e causar todos os tipos de dano para conseguir a soltura dos 53 presos palestinos, o que representaria uma enorme derrota para Israel.

Ambos os atores fazem exatamente o que era esperado deles: apresentam atuações convencionais, porém convincentes. Nem Pike nem Brühl entregam o melhor de seus trabalhos aqui, o que inevitavelmente traz um sentimento saudosista em relação aos filmes Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) e Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), que trazem duas das melhores performances da atriz e do ator, respectivamente. No entanto, os dois ainda são capazes de, no longa de Padilha, levar ao espectador as emoções de raiva, alívio e frustração mais de uma vez durante a obra. Um bom exemplo é o momento do sequestro do avião, durante o qual a plateia assiste, com a respiração presa e semblantes tensos, um Wilfried reservado e uma Brigitte resoluta desempenhando ações que poderiam muito facilmente culminar em situações catastróficas.

7 Dias em Entebbe

Daniel Brühl encarna Wilfried, um homem que, ao longo do filme, descobr até onde está disposto a ir em relação ao ato terrorista que pratica

Do ponto de vista da direção, o brasileiro demonstra novamente suas habilidades e dinamicidade enquanto cineasta: enquadramentos precisos, takes longos e uma direção de atores eficaz compõem 7 Dias em Entebbe, que consegue se comunicar com o público ao longo de todo o filme.

A maior qualidade do longa-metragem é levar à plateia os pontos de vista de todos os envolvidos, humanizando as personagens e aproximando-as do espectador. Não raramente a pessoa assistindo se encontrará torcendo para Brigitte e Wilfried, muito embora eles façam o papel de terroristas. Esse fato denota a capacidade do filme de mostrar o quão multifacetada pode ser uma situação, por mais delicada que seja, e torna 7 Dias memorável. Além disso, os diversos momentos cheios de ação fazem a obra ser ainda mais dinâmica – e esse ritmo, somado à beleza visual do longa-metragem, torna toda a experiência muito atraente.

Assim, outro aspecto digno de destaque é a cinematografia, pela qual o também brasileiro Lula Carvalho é responsável. Por meio de decisões acerca do lado estético da produção, o filme chama a atenção do público e reforça sua atenção naquilo que se passa na telona. Muitas vezes escuras, as cores predominantes nas cenas do filme denotam uma sombriedade ao enredo, fazendo a situação das personagens parecer ainda mais perigosa e escusa.

Em uma coletiva em São Paulo, Padilha afirmou ter estudado o acontecimento que inspirou o filme durante dois anos. Além de viajar para Israel, o cineasta entrevistou os reféns e militares envolvidos no sequestro do ano de 1976, e disse ter aprendido muito com cada uma dessas pessoas.

Ao comentar sobre o longa metragem, o diretor contou sobre as experiências que mais o marcaram ao longo das filmagens e sobre as técnicas usadas para fazer o filme acontecer. Acima de tudo, Padilha acredita na importância de se entender a mente de um terrorista. “Olhar para o terrorismo virou tabu. Mas o terrorista é uma pessoa que temos que estudar, até para prevenir outros ataques. O terrorismo é um fenômeno que envolve várias culturas, e, se nós não pudermos olhar bem para quem o pratica, não o entenderemos nunca”, comentou.

7 Dias em Entebbe

O cineasta brasileiro José Padilha comentou, em uma coletiva, a necessidade de se estudar os terroristas

O filme estreia no dia 12 de abril no Brasil. Assista ao trailer:

por Sabrina Brito
sabrinagabrieladebrito@gmail.com

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