Os contrastes harmoniosos de A Amante

Na Tunísia recém-democrática, Hedi (Majd Mastoura) é um jovem apático e sem grandes perspectivas de vida, moldado pelas convenções sociais de sua cultura e por sua mãe, Baya (Sabah Bouzouita), uma mulher tradicional e superprotetora. Deixando-se guiar por tais aspectos de sua vida, Hedi acaba em um noivado arranjado com uma mulher de família tradicional, mas tudo muda quando ele é enviado a uma viagem de negócios a uma semana de seu casamento. Lá ele conhece Rym (Rym Ben Messaoud), uma jovem de espírito livre e nada tradicional, e se apaixona. Assim começa a história de A Amante (Hedi, 2016), ganhador do prêmio de Melhor Primeiro Filme (Best First Feature Award) no Festival de Berlim.

Logo no início, o que mais chama atenção no enredo é a relação de Hedi com sua mãe. A imagem de um homem adulto sendo controlado por sua genitora e deixando-a tomar todas as decisões de sua vida pode parecer chocante de início. Apesar disso, bastam alguns minutos para perceber que cenas assim apenas refletem a realidade que vivemos hoje, na qual a adolescência se estende para além das primeiras duas décadas de vida. Outro ponto trazido pela figura de Baya é o contraste entre o tradicional e o moderno. Ao mesmo tempo em que o país em que vivem passa por mudanças profundas, pronunciando uma nova realidade, a família continua apegada aos costumes e às condutas tradicionais da sociedade.

A Amante

Hedi e Baya, sua mãe superprotetora [Divulgação]

Rym é outra personagem que traz contraste a A Amante. Além de ser um contraponto explícito não só a Baya, como também a todas as condutas que costumavam reger a vida de Hedi, a personagem que dá nome ao filme também nos apresenta um lado totalmente novo do homem. Se em sua vida comum Hedi é um jovem inexpressivo e quieto, ao lado de Rym torna-se uma pessoa alegre, extrovertida e aventureira. A mudança de comportamento é interpretada esplendidamente por Mastoura que, não à toa, recebeu o Urso de Prata por sua representação do personagem.

Os aspectos técnicos também contribuem para evidenciar a transformação do personagem durante seus encontros extraconjugais. Quando Hedi está em seu ambiente natural, com sua família, as cenas possuem tons mais escuros e sombrios, enquanto que, quando está na cidade onde se passa seu romance com Rym, as cenas sempre possuem cores mais vivas e alegres, como que espelhando o humor do personagem.

A Amante

Hedi e Rym em um de seus encontros [Divulgação]

O único ponto em que o filme deixa a desejar, entretanto, é no desenvolvimento de suas personagens femininas. Apesar da forte presença da mãe, as presenças femininas do filme interagem pouco entre si e não possuem uma história com muito aprofundamento. Dessa forma, parecem apenas estar na história com o intuito de provocar as mudanças necessárias para um personagem masculino que, se não estimulado, não teria um grande desenvolvimento. Isso constitui uma fórmula estereotipada muito utilizada em outros filmes.

Com aspectos mais positivos do que negativos, A Amante mostra situações comuns da modernidade em cenários diferentes dos quais estamos acostumados. Assim, acaba apresentando novas culturas, com atuações excelentes e uma fotografia que complementa a história de forma sublime, resultando num longa digno de grandes prêmios.

A Amante estreia dia 31 de março nos cinemas. Assista ao trailer abaixo:

por Beatriz Crivelari
beatrizcrivelari@usp.br

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