Invenção e Reinvenção: A Arte do Beijo no Cinema

Hugo Nogueira

The Kiss (1896), filme com menos de um minuto de duração, é um pequeno ornamento arqueológico na história do erotismo cinematográfico: o corpulento John C. Rice une, pudicamente, seus lábios aos da matronal May Irwin, consubstanciando um breve beijo amadorístico, polido, autoconsciente e casual. Foi este o primeiro beijo registrado no celulóide. As audiências dos cinemas experimentaram então, pela primeira vez, a vastidão da excitação voyeurística que é parte integral da arte cinematográfica. O advento do beijo cinematográfico constituiu, desde o início, uma miraculosa solução figurativa: a sugestão erótica impressa no toque de lábios passou a funcionar como um instrumento de sublimação sensual, uma metáfora do sexo em sua totalidade pelo encontro epidérmico que antecedia, invariavelmente, a conjunção sexual plena.

Foi a escandinava Greta Garbo quem rompeu a pantomima coreográfica dos primeiros beijos cinematográficos. Na década de 1920,ela deitou seus lábios sobre os lábios de John Gilbert em A Carne e o Diabo (Flesh and the Devil de Clarence Brown: 1926 – veja foto ao lado) materializando o primeiro beijo de boca aberta e na horizontal. A ambigüidade de gênero também foi uma marca dos beijos de Garbo: em Rainha Cristina (Queen Christina de Rouben Mamoulian: 1933) e O Véu Pintado (The Painted Veil de Richard Boleslawski: 1934) os beijos da diva sueca foram também dedicados às atrizes Elizabeth Young e Cecilia Parker respectivamente.

Beijo Gay

O beijo homoerótico já era então conhecido pelas platéias. Charles “Buddy” Rogers e Richard Allen protagonizaram o primeiro beijo homossexual das telas no drama de guerra Asas (Wings de William A. Wellman: 1927) embora as conotações eróticas do gesto permaneceram ocultas sob o manto da amizade. Foi somente com Domingo Maldito (Sunday, Bloody Sunday de John Schlesinger: 1971) que o homoerotismo encontrou livre expressão no intenso beijo entre Murray Head e Peter Finch. Os beijos trocados pelo britânico Daniel Day-Lewis e pelo paquistanês Gordon Warnecke em Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundrette de Stephen Frears:1985), por sua vez, adicionam ao homoerotismo o elemento da inter-racialidade.

Os beijos lésbicos igualmente floresceram cedo nas telas. A atriz germânica Marlene Dietrich, envergando fraque e cartola masculinos, foi quem, pela primeira vez, beijou ostensivamente uma mulher diante das câmeras em Marrocos (Morocco de Josef von Sternberg: 1930). Sua ousadia seria muitas vezes repetida com grande êxito por inúmeras atrizes como Catherine Deneuve e Susan Sarandon em Fome de Viver (The Hunger de Tony Scott: 1983) e Hilary Swank e Chloë Sevigny em Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry de Kimberly Pierce: 1999), entre tantas.

Coisa de Criança

Homoerotismo junta-se à sensualidade juvenil pela primeira vez no beijo entre a professora encarnada por Dorothea Wieck e a aluna interpretada por Hertha Thiele na produção alemã Mädchen in Uniform (1931). O beijo entre crianças foi relativamente comum na origem da arte cinematográfica a despeito do gosto duvidoso das produções – a pequena Shirley Temple, então com apenas quatro anos, já era vista beijando atores-mirins em curtas-metragens da série de filmes Baby Burlesque (1932). Na comédia dramática Bem-vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse de Todd Solondz:1995), contudo, o beijo de Heather Matarazzo, então com 12 anos, e de seu colega de escola, Brendan Sexton Jr, está impregnado da tensão que une fragilmente duas crianças desajustadas.

Beijos compartilhados entre adultos e crianças foram relativamente raros, nenhum deles mais perturbador que aquele compartilhado pela atriz britânica Deborah Kerr e o menino Martin Stephen na cena derradeira de Os Inocentes (The Innocents, de Jack Claiton:1961). Deborah Kerr, ao lado de Burt Lancaster, já havia protagonizado o mais exuberante dos beijos cinematográficos de todos os tempos em A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity de Fred Zinnemann:1953): numa praia deserta, os atores trocaram beijos que tomaram seus corpos sob o fluxo das ondas numa das mais intensas metáforas visuais de orgasmo consubstanciada nas telas.

Recordes

O beijo de Regis Toomey e Jane Wyman na comédia You’ re in the Army Now (de Lewis Seiler: 1940) durou três minutos e cinco segundos, um recorde apenas igualado por Cary Grant e Ingrid Bergman. O ator britânico e a estrela sueca, entremeando suspiros, mordidas e carícias ininterruptas, sustentaram um beijo ardoroso numa seqüência de quase três minutos em Interlúdio (Notorius de Alfred Hitchcock:1946). Igualmente digno de nota é o recorde de127 beijos que o astro John Barrymore distribuiu entre Mary Astor e Estelle Taylor, as estrelas da produção Don Juan (Don Juan de Alan Crosland: 1926) – adicionando os contactos labiais com as demais atrizes da película, a soma chega à inabalável marca de 191 beijos. Pertence a Barrymore, aliás, o beijo mais fotografado do cinema: foram necessários quatro longos takes para o adequado registro do beijo que o ator dedicou em A Fera do Mar (The Sea Beast, de Millard Webb: 1925) à sua belíssima esposa, Dolores Costello (ambos avós da atriz Drew Barrymore), a qual, coerentemente, desmaiou diante das câmeras após a façanha. O maior close-up num beijo cinematográfico, contudo, ainda pertence a Elizabeth Taylor e a Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun, de George Stevens: 1951)

Branco e Preto

A Ilha dos Trópicos (Island in the Sun de Robert Rossen: 1957) foi o primeiro filme a romper com a proibição dos censores sobre as relações inter-raciais exibindo o beijo do ator branco James Mason e da atriz negra Dorothy Dandrige. Seria necessário mais uma década, porém, até que os padrões de racismo patriarcal da sociedade norte-americana fossem suficientemente atenuados para que a platéia pudesse assistir ao primeiro beijo de um homem negro e uma mulher branca. Ainda assim, o beijo entre Sidney Poitier e Katharine Houghton em Advinhe Quem Vem para Jantar (Guess Who’s Coming to Dinner de Stanley Kramer: 1967) foi visto apenas indiretamente, pelo reflexo do espelho retrovisor de um táxi.

Uma antologia de beijos, contudo, pode ser bem encerrada pelo beijo que não aconteceu: em Casablanca (Casablanca de Michael Curtiz: 1942), Humphrey Bogart e Ingrid Bergman sacrificam nobremente seu amor numa antológica cena marcada pela intensidade do desejo reprimido – o beijo que não trocaram ecoa imponderavelmente na imaginação dos cinéfilos desde então. Nas telas cinematográficas, o beijo adquiriu dimensões monumentais. Funcionando como um mágico substituto da realidade, o cinema concebeu a mais refinada forma de sublimação erótica pelo intenso contacto entre os lábios dos protagonistas, ato derradeiro o qual, infalivelmente, põe fim ao filme. A Arte do Beijo, uma suprema conjunção de carne e espírito, foi, de longe, uma das maiores contribuições visuais da Sétima Arte para a sanção do epicurismo voyeurístico das audiências cinematográficas mundo afora.

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