A madame marginal

Heloisa Brena

“Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?”, pergunta Millôr Fernandes a João Francisco dos Santos. O ano é 1971 e João estava em liberdade havia 6. Dos seus 76 anos de vida, 27 passou na cadeia. João é Madame Satã – malandro, artista, presidiário, pai adotivo, negro, pobre, homossexual – e um dos maiores mitos da Lapa carioca.

Numa de suas edições mais importantes, a equipe do jornal O Pasquim fez uma entrevista com Madame Satã, transcrevendo-a integralmente em 6 páginas. A conversa contou com nomes do peso do de Paulo Francis, Sérgio Cabral e Jaguar. Mas o que faz de João Francisco um marginal diferente dos outros? O que faz dele um mito?

Trinta e um anos depois, as questões suscitadas pelo Pasquim receberam luz, câmera e ação no filme Madame Satã (2002), dirigido por Karim Aïnouz. Era o primeiro longa-metragem do diretor de 36 anos, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília. Aïnouz fez mestrado de História do Cinema pela Universidade de Nova Iorque, dirigiu vários curtas, trabalhou como assistente de montagem e direção de longas e foi co-roteirista de Abril Despedaçado (Walter Salles, 2001).

 

Madame Satã brotou como ideia para seu primeiro longa-metragem no início dos anos 90, quando leu uma pequena biografia sobre o temido malandro. Instigado por sua história, Aïnouz começou uma intensa pesquisa sobre João Francisco dos Santos: vasculhou arquivos públicos, conversou com conhecidos da Lapa e da prisão da Ilha Grande. Para entender melhor a época, pesquisou também a MPB dos anos 20 e 30, na qual achou inclusive uma música de Noel Rosa, “Mulato Bamba”, aparentemente dedicada ao próprio João.

Depois de muito tempo de pesquisa, Aïnouz percebeu que a melhor forma de relatar quem foi Madame Satã era “construir uma crônica íntima do cotidiano do personagem”. O diretor optou por uma visão pré-mito de Satã, pois notou que sua fama não vinha apenas do que o malandro fazia, mas do que dizia fazer. “Percebi que João Francisco – ou Madame Satã – era um mitômano. Construía invenções e reinvenções em torno de si mesmo, o que o tornou um mito. […] Ele contava, por exemplo, que brigava com oito policiais ao mesmo tempo, que pulava do terceiro andar da delegacia, entre muitos outros lances mirabolantes. Me interessava olhar as filigranas [peculiaridades] por trás desse mito, como era seu cotidiano, a maneira como ele dançava, comia, vivia, transava, andava na rua.”

Nesse ponto, o retrato do filme difere radicalmente do da entrevista do Pasquim. O texto traz um Madame Satã consagrado, que conheceu Getúlio Vargas, dividiu cadeia com Luiz Carlos Prestes e Graciliano Ramos e ainda afirmava: “Olha, enquanto eu for vivo, a Lapa não morrerá”.

O filme apresenta um João Francisco que, nas palavras do diretor, “não sabia que ia ser mito nem que entraria para a história da cidade do Rio de Janeiro”. Assim, a ficção cinematográfica ganha em veracidade da entrevista jornalística, quando João já encarnara irreversivelmente Madame Satã como personagem.

A verdade da ficção deve-se ao mérito não apenas de Karim Aïnouz como pesquisador e roteirista, mas ao de Lázaro Ramos como o brilhante ator que se revelava no cinema. Com uma interpretação precisa e vigorosa, Ramos revela a raiva, a criatividade, a violência e a doçura com que Madame Satã reagia à exclusão social.

É da exclusão de João que advém sua força de mito. O mito é um relato fantástico protagonizado por seres que encarnam as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; mas, ao mesmo tempo, é uma construção deformada, exagerada através do imaginário coletivo e do recontar das histórias.

Contudo, em um país onde a exclusão social persiste como norma, não se pode negar que um homem suburbano, pobre, de aparência submissa torna-se uma grande força da natureza quando resiste, com altivez e provocação, ao jogo de seus exploradores. Com a doçura e a violência que o nome mítico “Madame Satã” resume, João Francisco dos Santos tornou-se um homem temido e intrigante, que desacatou a sociedade tão constantemente quanto por ela foi oprimido. “É o que diz a sociedade, não é?”, responde a Millôr; “Só que tem que eu sou anti-social”.

 

Comentários