42ª Mostra Internacional de SP: A Peônia

Este filme faz parte da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Salomon (Simon André) é um homem muito viajado. Fascinado pela caça, ele percorreu o mundo com seu companheiro fiel, Dmitri, um cachorro. Até que um dia, já idoso, ele retorna a sua cidade natal e ao bar Chez Salah, palco de diversas reflexões e memórias.  Sua cidade está tomada pela construção civil e o bar de Salah é como um âncora de resistência. O dono do estabelecimento, por sua vez, torna-se um conselheiro emocional, que, na verdade, mais ouve do que fala.

A Peônia

[Imagem: Reprodução]

Em meio a essa trama, o superintendente de caça e o guarda da floresta têm sentimentos distintos em relação ao caçador. Observa-se uma contraposição entre a hostilidade do primeiro e a simpatia do segundo, que enxergam Salomon de formas diferentes. O superintendente, representando por Christian Cahay, é repleto de desconfiança. Já o guarda, Benoît Pire, parece sentir um misto de dó e admiração em relação ao protagonista.

A Peônia (La Pivoine, 2018) é um longa que pretende ser, acima de tudo, reflexivo e poético. O próprio diretor, Joaquin Breton, conta ao site Un grand moment de cinema que os personagens principais – o caçador, o superintendente de caça e o guarda da floresta – são três opostos e representam alegorias.

Por evocar memórias de Salomon e dos outros dois personagens principais, o filme apresenta uma linha temporal um tanto quanto confusa. Não se sabe ao certo em que momento cada uma das cenas se passou. Isso contribui para que o espectador se confunda no meio da trama. Além disso, a figura dos dois investigadores que aparecem esporadicamente parece explorar uma simbologia, mas que não fica clara para o público.

A Peônia

[Imagem: Reprodução]

Um outro fator que pode provocar estranhamento, principalmente para aqueles que estão mais acostumados com o modo de produção hollywoodiano, é a ausência de uma trilha sonora musical. A Peônia busca valorizar os “silêncios” que, na verdade, sempre se enchem com os sons naturais do local: os passos de Salomon, o barulho dos animais, o ronronar de Dmitri e o movimento da folhagem.

A simbologia da flor, que aparece uma vez no longa, é a divisão entre dois territórios: Flandres, no norte da Bélgica, e França. Ao percorrer um rio que divide os lugares, a peônia é como uma representante perfeita do filme: uma grande quantidade de camadas da história, de coisas que são ditas, de fins diferentes para a mesma trama, como cita Breton na entrevista.

Diferente das produções habituais do cinema, A Peônia é um filme que almeja ser poesia. Mas, como um poema, exige do público uma vasta capacidade de interpretação e abstração, que nem sempre é alcançada.

por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.com

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