A Teoria de Tudo: Entre Clichês Românticos e Grandes Performances

por Ana Carolina Leonardi
carolinamleonardi@gmail.com

A vida de Stephen Hawking tem todo o jeito de uma adaptação cinematográfica. Uma das maiores mentes da atualidade, o estudo de questões tão profundas quanto a origem do tempo e do universo e uma das doenças mais terríveis e enigmáticas para a medicina. Adicione a isso uma esposa – também extremamente intelectual – que decidiu permanecer do seu lado por 25 anos.

É a mistura de genialidade, tragédia e bravura perante as adversidades tão típica dos filmes mais atraentes de Hollywood. Sem esquecer também a curiosidade que envolve a figura de Hawking, uma pessoa reclusa e extremamente discreta. Talvez por isso o interesse por uma forma de humanizar o cientista e nos aproximar de sua trajetória de vida. Esse é um dos objetivos claros de A Teoria de Tudo (Theory of Everything), indicado a cinco Oscars, incluindo melhor filme, melhor ator e melhor atriz. O filme é baseado no livro de Jane Wilde Hawking, a primeira esposa de Stephen, lançado com o mesmo nome no Brasil, que conta a história do casal, do início do relacionamento ao divórcio oficial, 30 anos depois.

Desde o momento em que se conhecem, Jane (Felicity Jones) e Stephen (Eddie Redmayne) se mostram extremamente diferentes, e, na mesma proporção, intrigados um pelo outro. Ambos tem interesses acadêmicos: ele planeja o tema de seu doutorado em astrofísica, e ela pretende alcançar um PhD em literatura espanhola. Uma das questões recorrentes no filme, e que marca um contraste entre os dois, é a crença em Deus. Stephen Hawking talvez seja um dos ateus mais convictos da atualidade, enquanto Jane, na ficção e na vida real, é cristã anglicana.
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A questão da escolha da tese de doutorado de Stephen é utilizada no filme para demonstrar sua forma peculiar de se “dedicar aos estudos”. Extremamente desorganizado – chegando ao ponto de admitir estudar apenas uma hora por dia durante seu período em Oxford -, sua única preocupação diária durante seus estudos em Cambridge é ouvir Wagner (preferência que tem em comum com Freud… e Hitler) e sua escrivaninha é extremamente bagunçada (característica que divide com Steve Jobs, Albert Einstein e Mark Twain!). Pouco depois de conhecer Jane, Stephen é diagnosticado com a doença do neurônio motor, ou esclerose lateral amiotrófica: aos poucos, ele perderia a capacidade de controlar os músculos do corpo e, segundo o médico, só teria mais dois anos para viver.

“E o cérebro?”, ele pergunta.

“Não afetará o cérebro. Seus pensamentos não mudarão. Mas, eventualmente, ninguém saberá quais são”.

Embora a primeira reação de Stephen seja se isolar, Jane se recusa a aceitar a separação e insiste em continuar com ele apesar do prognóstico. Eventualmente, eles se casam, mas a saúde de Stephen só piora. Depois da descoberta da doença, é interessante notar a transição do personagem por algumas das fases fundamentais do luto: em especial a raiva, a depressão e a negação (que se manifesta mesmo muitos anos depois do diagnóstico, quando ele insiste com a esposa “somos uma família normal!”).
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As cenas de adaptação da casa da família às condições de Stephen vão do trágico ao hilário, e são também as mais reveladoras da personalidade do cientista. Quando perde a capacidade de subir as escadas, ele passa a dormir na cozinha. Temos um vislumbre do senso de humor marcante de Hawking nessa cena: “Bom, é conveniente para o café da manhã!”. O destaque dado para pés e mãos durante diversos pontos do filme também é digno de nota. Os closes parecem ser simbólicos dos momentos em que o personagem toma consciência da piora de sua condição, observando o funcionamento normal das mãos alheias.

A grande virada do filme, que traz os ares de um final mais esperançoso, é o desenvolvimento da tecnologia. A partir daí, notamos uma ampliação na autonomia de Hawking, em especial após receber o famoso Equalizer, programa que utiliza para se comunicar até hoje, selecionando frases e letras em uma tela. A cereja do bolo é a cena em que ele testa o sintetizador de voz, que lê as palavras digitadas… com sotaque americano. Suas primeiras experiências com a voz robotizada estão entre as cenas mais hilárias do filme: em uma piada mais britânica impossível, ele corre atrás de seus três filhos gritando “Exterminate, exterminate!”, em referência aos Daleks, personagens da série Doctor Who.

A Teoria de Tudo certamente ameniza diversos aspectos da vida dos Hawking: elogia a resiliência de Stephen perante a doença mas minimiza seu temperamento bastante forte, além de abrandar o impacto do divórcio dos dois, e o consequente afastamento do cientista de sua família e filhos. A parte científica, talvez compreensivelmente, foi bastante simplificada, e o roteiro se utiliza de um recurso bastante comum (e um pouco clichê) nos filmes sobre ciência, colocando cenas do cotidiano, tão simples como observar a lareira, como gatilhos e inspirações para grandes ideias do personagem.

Apesar de em certos momentos esbarrar no estilão Nicholas Sparks = grande amor + doença terrível, o filme tem a seu favor a perfomance fantástica de Eddie Redmayne. A gradação com que ele exibe a progressão dos sintomas –  pés e mãos, ombros e pescoço, deslocamento da mandíbula –  segue ora sutil, ora drástica, até alcançar a imagem atualmente conhecida de Stephen Hawking. Ele que, no último dia 8, completou 73 anos, superando em 50 aqueles “últimos dois anos de vida”.

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