A sublime imperfeição d’A Vida em Família

Aplaudido no Festival de Veneza de 2017, A Vida em Família (La Vita in Comune, 2017), do diretor Edoardo Winspeare aborda uma amizade improvável. Na primeira cena, o público assiste aos irmãos Pati (Claudio Giangreco) e Angiolino (Antonio Carluccio) na tentativa de assaltar um posto de gasolina na cidade de Disperata, localizada no sul da Itália. O crime acaba mal sucedido, quando Pati sem querer mata um cachorro. Enquanto o irmão foge, Pati permanece imóvel com o animal morto em seu colo, acariciando-o. Essa cena é a premissa para entendermos o coração gigante que este ladrão de galinhas esconde.

A amizade improvável que conduz o filme começa quando Filippo Pisanelli (Gustavo Caputo), o sensível prefeito da cidade, ao sentir-se extremamente incompleto e incompetente em sua profissão, agarra-se ao amor pela literatura e vai dar aulas para os detentos de uma prisão. É lá onde conhece Pati, e com as aulas repletas de paixão ministradas pelo prefeito, o ladrão de galinhas começa a desabrochar a sua sensibilidade oculta. É através da arte que Pati começa a enxergar um novo significado na vida, e isso também alcança seu irmão Angiolino, um criminoso um pouco mais determinado em manter sua pose de durão.

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A partir dessa relação improvável entre o prefeito e os irmãos, conhecemos outros personagens. Eufemia (Celeste Casciaro) é uma mulher trabalhadora que compõe o partido do prefeito com mais competência do que o próprio. O desenvolvimento dessa forte personagem feminina deu alguns passos, mas poderia ter sido melhor aprofundado. Há ainda o ingênuo Biagetto (Davide Riso), fruto da finada relação entre Eufemia e Pati. Boa parte dos alívios cômicos provém da relação de Biagetto e o tio Angiolino, que tenta ensinar ao garoto uma postura que nem ele mesmo sabe portar.

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Numa trama sensível e envolvente, o filme acerta com a fotografia terna e bucólica, transparecendo a deslumbrante simplicidade do cotidiano das cidades sul-italianas.

O roteiro é destaque na produção. Winspeare consegue equilibrar o drama da história com leveza e mesclar alguns momentos cômicos, se consagrando ao desenvolver os personagens de forma extremamente humanizada. Nenhum dos protagonistas é apresentado desprovido de defeitos. O prefeito tem tantos defeitos quanto o detento. O prefeito, homem estudado e culto, tem tanta sensibilidade quanto o detento, que após matar um animal se apega à poesia para aliviar a culpa latejante. Ambos parecem bem intencionados com seus objetivos, mas às vezes simplesmente falham. E quando falham, percebem que não há problemas em mudar de ideia e seguir rumos totalmente diferentes na vida. A reflexão que fica é a de que todos são humanos, com suas milhares de facetas.

A Vida em Família estreia em 06 de setembro. Confira o trailer:

por Giovanna Stael
giovannastael@usp.br

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