Acertando o Passo: uma produção demasiadamente humanas

Sandra (Imelda Staunton) vai pra casa da sua irmã depois de descobrir a traição do marido no seu aniversário de 35 anos de casamento. Acertando o Passo (Finding Your Feet, 2017) aborda “a segunda chance” fazendo analogia com a frase de divulgação: “Everyone deserves a second dance” (Todos merecem uma segunda dança). Porém, não quando ela dá ao esposo mas sim de como ela dá uma segunda chance para si mesma: de se redescobrir como pessoa e não deixar sua personalidade diminuir por um outro alguém.

Acertando o Passo

[Divulgação]

A personagem principal tem algumas atitudes que levam a ver que foi afetada pela traição do marido, de como é difícil perder o status de lady e de que a traição pode ser terrível. Talvez não porque a protagonista se preocupasse tanto com o marido, mas porque essa situação foi necessária para que Sandra percebesse que tinha algo de errado na sua vida e descobrir a traição, possivelmente, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a personagem. É provável notar esse sentimento de status quando há a oferta de participar de um festival de dança no natal e pelas suas expressões, percebe-se que fica muito tentada a aceitar a proposta, porque é uma atividade que sempre gostou desde nova, mas não faz isso devido a construção da sua imagem e influência em uma comunidade mais nobre.  Ao longo do filme vê uma evolução da personagem, um deles é no instante em que Sandra vai à casa do marido e decide destruir vários dos muitos troféus que ele possui e valorizava mais do que tudo. Não que tenha sido algo correto, mas expressa o desligamento afetivo com ele.

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Sua irmã, Bif (Celia Imrie), ao contrário de Sandra, é aquela pessoa que todos gostariam de ter como amiga. Divertida, desconstruída, alegre, descolada e, mesmo sendo uma senhora, tem mechas coloridas no cabelo, curte as coisas naturais e valoriza os pequenos detalhes da vida. O modo como a personagem lida com a morte também é muito vanglorioso: sabe que não é algo ruim, e sim um curso natural e por isso precisa aproveitar o melhor sempre, fazendo o bem e compartilhando tudo com as pessoas. A intérprete não possui um estilo de vida financeiro tão grande como a irmã, estabelecendo aquele clássico contraste da riqueza e simplicidade e de diferentes valores, sendo notório no momento em que Bif dá uma lição em Sandra, que está reclamando de tudo, dizendo que os valores naquele lugar são diferentes do que a irmã mais nova está acostumada a viver.

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As relações dos personagens com a idade já avançada intensificam muito no quesito de diversos deles estarem vivenciando crises nos relacionamentos amorosos de alguma forma. Um exemplo disso, é o de Charlie (Timothy Spall), um dos atores principais do elenco e que possui um contato muito complicado com sua esposa Lilly (Sian Thomas) por sofrer de alzheimer.  Havendo de vender, até mesmo, a sua casa e viver em um barco para custear todo o tratamento da esposa, que, infelizmente, não possui um resultado positivo. Em alguns momentos, dá pra se ter uma ideia superficial de como viveriam os personagens de Friends (1994-2004) se eles estivessem mais velhos. Sendo uma reafirmação do que a atriz Lisa Kudrow (Phoebe) disse em entrevista a Conan O’Brien. Isto é, que não seria legal uma continuação da série ou um filme com eles mais velhos por já não ser engraçado e divertido e sim triste ter alguns desses problemas em uma idade avançada.

Acertando o Passo é um verdadeiro mix de sentimentos. O roteiro consegue trabalhar muito bem o drama e o humor. No início, as piadas não fazem tanto efeito, sendo um pouco sem graça, mas a partir de que se conhece mais dos personagens e entende a essência deles, desse modo, vai criando uma gradação e tornando o filme mais envolvente e empolgante. Um dos problemas é que alguns personagens do elenco primário não são tão explorados em Acertando o Passo. É o caso de Jackie (Joanna Lumley) e Ted (David Hayman) que poderiam muito bem ter as suas histórias aproveitadas, mas são vistas apenas superficialmente. Além disso, os recursos de humor usados no filme são mais para reduzir a dramaticidade, não tornar pesado demais e demonstrar a leveza da vida, retratando que apesar de todos os problemas, viver possui seus lados positivos. Saindo da ideia de que tudo tem um início, meio e fim programado, evidenciado o quão surpreendente a vida pode ser.

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Apesar de ter trabalhado o longa dentro de um contexto esperado, os recursos utilizados foram bem estruturados, com uma boa equipe de produção, direção e elenco. As expressões e interpretação dos atores foram tão naturais que convencem de uma forma muito positiva. No entanto, alguns momentos do roteiro podiam ser melhor trabalhados, pois, em algumas cenas, o nível máximo de dramaticidade de determinadas situações acontecia antes do clímax de fato. Depois disso, já não conseguia passar a mesma mensagem com mesmo impacto que seria necessário e que poderia marcar mais se segurassem um pouco lá atrás, tornando muito previsível e sem surpresas.

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A aproximação das irmãs ao longo do filme é muito cativante, porque se percebe que o contato é muito importante, pois sempre que há isolamento, se esquece que o outro existe e como é bom ter a família do lado pra ajudar nos momentos mais difíceis dando suporte na reafirmação de quem você é. Apesar de o filme ter trabalhado o amor mais em cima de casais e por possuir cenas clichês, a relação das irmãs e essa persistência de uma com a outra dentro de todas situações foi o melhor que o longa propôs. Um filme simples, mas que se bem observado, pode trazer muitos ensinamentos para quem for assistir.

Acertando o Passo estreia dia 10 de maio nos cinemas brasileiros. Assista ao trailer abaixo:

por Daniel Terra
danielterra@usp.br

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