A Hora das Estrelas

por Amanda Panteri
amanda.panteri@gmail.com

Datilógrafa, virgem e amante de Coca-Cola. Uma nordestina que mal possui consciência de si enfrentando uma cidade feita inteirinha contra ela, Macabéa representa a busca por identidade, ao mesmo tempo que protagoniza o filme baseado na obra homônima de Clarice Lispector A Hora da Estrela (1985).

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Suzana Amaral, responsável por dirigir a adaptação que ganhou visibilidade internacional e levou diversos prêmios para casa, é uma paulista nascida em 1932 que acumula mais de cinquenta documentários de curta-metragem, três longas e diversos outros trabalhos de roteirização. Suas obras e carreira pessoal denunciam um intenso gosto pela literatura, uma arte que ela mesma afirma ter um enorme potencial para se transformar em um bom filme.

A Hora da Estrela foi, com justiça, bem recebido desde o início pelo público. A ótima relação que a diretora manteve com a atriz Marcélia Cartaxo permitiu a esta independência na realização do seu trabalho, resultando em um Urso de Prata na categoria Melhor Atuação Feminina. Além desse, o longa garantiu mais doze prêmios no Festival de Brasília e um no Festival de Havana, sem contar as participações em vários outros eventos de cinema ao redor do mundo.

A obra de Amaral capta a essência ingênua da moça nordestina e a transmite para os espectadores com a mesma beleza das palavras da grande escritora. A suavidade atribuída a assuntos complexos – resultante de um olhar visivelmente poético nas cenas – fazem os 95 minutos passarem como um. Porém, ao final impera uma sensação bastante incômoda, e a repressão a que a jovem é constantemente submetida funciona como soco no estômago para quem assiste.

Silêncio e Inocência

Macabéa tem 19 anos e mora com mais quatro colegas em uma pensão. É nova na cidade, mas tão invisível quanto as Marias com quem divide o quarto. Possui o anseio de conhecer e se reconhecer dentro deste lugar estranho, que parece não ter tempo e nem paciência para ela, gerando um sentimento de exclusão exteriorizado pelos diversos pedidos de desculpas da personagem, como se houvesse algo de errado no simples fato dela estar ali.

Contudo, ela não deixa de lado a sua curiosidade. Se apega à Radio Relógio, estação que a cada minuto expõe um fato inusitado sobre temas aleatórios. Também, entope quem a rodeia com perguntas sobre o mundo. Seu namorado, Olímpico de Jesus, demonstra muita irritação com os incessantes questionamentos e esconde sua ignorância atrás de discursos como “isso não é coisa pra moça direita saber”. Um dia será deputado, afirma.

Maca não tem direito nem de se descobrir mulher. Apesar de possuir os desejos e voluptuosidades comuns da juventude, sua sexualidade, metaforizada em uma flor de hibisco vermelha, está sempre sujeita à poda e intromissão dos outros. Em todos os momentos em que olha seu reflexo, os espelhos nunca estão suficientemente nítidos ou inteiros.

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“Todas as mulheres são um pouco Macabéa” – Suzana Amaral. Foto: Reprodução

Depois de perder o namorado e esgotar seu estoque de aspirina para tentar suprimir a dor misteriosa, ela recorre a uma cartomante. Na obra de Clarice, é aqui o momento da epifania. Na de Suzana, é a hora em que a personagem finalmente dá conta de si, para depois ser esmagada, dessa vez permanentemente.

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O reflexo invertido durante a consulta pressente o trágico fim da menina. Foto: Reprodução

O Som ao Redor

Os sons compreendem parte importante do trabalho da diretora. Estão presentes desde vinhetas da Rádio Relógio, até cenas na qual se tornam imprescindíveis para a construção do sentido. A maioria do conhecimento adquirido pela datilógrafa provém do que ela escuta, uma vez que mal sabe ler ou escrever (ressaltando assim a relevância da audição para a narrativa).

Um dos exemplos acontece quando ela mente para o chefe e tira um dia de folga em seu quarto. Lá, dança com um lençol ao som de Danúbio Azul, a mesma valsa utilizada por Kubrik em 2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968). Mesmo em um dos seus únicos momentos de intimidade, Maca é constantemente interrompida por suas colegas e pela dona da pensão.

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Macabea dança com um lençol ao som de Danúbio Azul. Foto: Reprodção

Una Furtiva Lacrima, umas das árias mais famosas da ópera, toca na Rádio Relógio. A moça fica tão emocionada que começa a chorar. Porém, Olímpio parece não se importar com o fato, e quando fica sabendo do ocorrido pergunta se o que ela escutou era um samba.

Veias Abertas

Apesar de ter mais de trinta anos, a história surpreende por sua problematização atual. O enredo toca em feridas profundas da sociedade, e encontra em Macabéa a reprodução dos que, mesmo em períodos adversos e intolerantes, não desistem de tentar compor uma voz que seja ouvida e levada a sério.

Lispector e Amaral deixam então uma lição valiosa, e nos fazem pensar na relativa disposição que temos em escutar e ceder espaço ao outro – que muitas vezes nem nosso é. A dureza encarada pela personagem deixa a dúvida, ao final do filme, se foi realmente ela quem não entendeu o mundo ou se ele não a entendeu.

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