Clássico Akira é marco da influência japonesa na cultura pop

Uma das maneiras mais eficientes de tornar o cinema material de reflexão é enxergando cada filme como uma espécie de fotografia do tempo e lugar em que foi produzido. Nas ficções científicas, em que alegorias fantásticas são geralmente utilizadas pelos autores para criticar algum aspecto da sociedade em que vivem, esse fenômeno pode ser ainda mais perceptível. Nesse sentido, Akira (1988), adaptação do mangá homônimo de Katsuhiro Otomo e dirigido por ele, é um retrato descontente do Japão no fim do século XX.

Akira

Imagem: divulgação

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em poucas décadas o país asiático passou de um cenário de devastação e pessimismo para um período de grande crescimento econômico, até se tornar símbolo do bloco capitalista durante a Guerra Fria. Em Akira, o ano é 2019, a cidade de Tóquio foi destruída por uma misteriosa explosão de dimensões assustadoras, e, sobre os destroços, fundou-se a ostensiva e tecnológica Neo-Tóquio, onde se passa o filme.

Nos pés de seus lustrosos arranha-céus, a população de Neo-Tóquio vive um cotidiano de pouco glamour: o lugar é perigoso e constantemente palco de combates entre manifestantes furiosos e um governo autoritário. No meio desse pandemônio somos apresentados a Kaneda e Tetsuo, membros de uma gangue de motoqueiros cujo objetivo é vagar pelas ruas sem qualquer compromisso com as leis ou com nenhuma causa política. Certo dia, Tetsuo sofre um acidente envolvendo um estranho garoto com poderes psíquicos, e é levado com ele pelo exército local. Kaneda, então, parte em busca do amigo, e acaba dentro de um conflito que envolve o governo, uma rede de espiões e um projeto científico relacionado com a explosão que atingiu a cidade décadas antes.

Akira

Com animação detalhista, Akira choca pela crueza de algumas cenas

Logo de início, chamam a atenção as cenas pesadas de violência, acompanhadas pela trilha sonora que dá um tom de caos e urgência. Expoente do estilo cyperpunk, o filme faz jus ao mantra “high tech, low life” (alta tecnologia, baixa qualidade de vida), mostrando uma realidade desesperadora sob luzes de neon. O traço detalhista da animação realça o visual sujo da decadente Neo-Tóquio, numa estética que lembra a de Metropolis (1927).

Assim como no clássico de Fritz Lang, Akira mistura um pouco de política, filosofia e misticismo em seu enredo, numa trama tão densa que pode confundir quem assiste, caso não fique atento. A narrativa episódica pode até perder um pouco o ritmo em alguns momentos, mas o faz para aprofundar e tornar mais ricos os personagens, o que, no terceiro ato, quando o arco de cada um deles atinge o desfecho, torna-se justificável.

Akira

A cidade fictícia de Neo-Tóquio lembra um pouco a Metrópolis de Fritz Lang. Imagem: reprodução

Dentre diversas leituras, é possível dizer que um dos comentários que Katsuhiro Otomo faz no longa é contra uma sociedade que aceita viver sob uma falsa ideia de estabilidade, ignorando seus problemas mesmo sabendo que cedo ou tarde as coisas irão explodir ‒ literalmente ou não. Isso talvez explique o sucesso que o filme teve no mundo ocidental, em que a situação após o fim da União Soviética não era muito diferente. Pouco mais tarde, filmes como Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting, 1996), Clube da Luta (Fight Club, 1999) e até Beleza Americana (American Beauty, 1999) fariam críticas parecidas.

Ao longo dos anos, Akira ganhou status de clássico, e segue influenciando artistas dos mais diversos. É um dos grandes responsáveis pela inserção e aceitação de elementos da cultura japonesa ao redor do mundo, que continua crescendo até hoje. Enquanto nos preparamos para a realização das Olimpíadas em Tóquio (algo curiosamente mencionado no filme) e discutimos temas como o whitewashing em Hollywood, parece ser um bom momento para revisitá-lo.

Trailer:

por Matheus Souza
souzamatheusmss@gmail.com 

Comentários