Representação albina no cinema

Uma população quase despercebida e um tema sobre o qual pouco pensamos. Quantos filmes com personagens portadores de albinismo você já assistiu? Qual é a visão que esses filmes trazem acerca do grupo? É comum que não venha nenhuma obra à mente de imediato, mas muito provavelmente você já teve contato com filmes que apresentem um personagem albino ou com características albinísticas – o qual muito provavelmente foi representado de forma negativa.

Albinismo

[Imagem: Maria Clara Rossini/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

Não são todos os filmes que assumem essa postura, mas há uma tendência em representar esses personagens mais de forma negativa e ambígua do que positiva ou neutra. Muitas dessas produções cinematográficas seguem o estereótipo do “albino bias”, o qual se distancia muito do que é o albinismo na realidade.

Entendendo o albinismo

Segundo a Organização Nacional de Albinismo e Hipopigmentação dos Estados Unidos (NOAH), albinismo é uma condição genética hereditária que reduz a quantidade de melanina na pele, cabelo e olhos. A melanina é uma proteína que confere pigmentação ao corpo e protege a pele contra os raios solares ultravioleta. Por esse motivo, os portadores de albinismo possuem peles e cabelos muito claros e estão mais suscetíveis aos danos causados pelos raios solares, sendo importante o uso de chapéus e protetor solar e evitar longos períodos de exposição ao sol.

Existem diversos tipos de albinismo com alterações em diferentes genes. Os portadores de cada tipo apresentam características ligeiramente diferentes, o que pode incluir variações nas cores do cabelo, pele e diferentes níveis de problemas de visão. O albinismo oculocutâneo (OCA) afeta os olhos, pele e cabelo, enquanto o albinismo ocular (OA) – mais raro – implica na perda de pigmentação apenas nos olhos. Dentro do albinismo oculocutâneo existem 7 tipos atualmente reconhecidos, alguns deles ainda divididos em subtipos.

Os problemas de visão também são características importantes na vida de pessoas que vivem com albinismo. Eles são causados pelo desenvolvimento anormal da retina e pela presença de padrões anormais de conexões nervosas entre o olho e o cérebro. Além disso, a falta de pigmentação nos olhos faz com que seja difícil controlar a entrada de luz pela íris e pupila, prejudicando ainda mais a visão em ambientes muito claros, sendo importante o uso de óculos escuros para proteger os olhos.

Ao contrário do que muitos pensam, os portadores de albinismo não possuem olhos vermelhos. Pode acontecer que as veias dos olhos fiquem mais aparentes sob determinadas condições luminosas devido à pouca pigmentação, proporcionando um tom vermelho ou lilás, o que não define a cor da íris. O albinismo também não está associado a nenhuma doença cognitiva, outro mito difundido. É possível que uma criança com albinismo tenha dificuldade de aprendizado devido aos problemas de visão e à exclusão social, principalmente em países africanos, onde a ocorrência da doença é mais comum. A condição cognitiva de portadores, porém, é completamente normal e não possui relação com o albinismo.

Albino Bias

O estereótipo e mito sobre albinismo está presente em toda a cultura popular. “Albino Bias” é um termo utilizado para designar a representação negativa e não realística de pessoas com albinismo ou com características que remetam à pouca pigmentação em filmes, séries, livros, quadrinhos e outros. Os personagens com essa condição de pele são geralmente retratados como vilões, aberrações e de forma negativa em geral.

São muitos os recursos usados para representar de forma negativa os personagens com albinismo. O dermatologista Dr. Vail Reese – o qual já trabalhou com a NOAH – lista no site www.skinema.com/albinism/ alguns dos estereótipos aplicados aos personagens: são violentos e assassinos, possuem apelidos bobos ou ridículos, se vestem apenas em branco, são assustadores, possuem outros problemas de saúde e morrem de maneira trágica.

A NOAH se posicionou contra a tendência de Hollywood em representar seus personagens com albinismo como vilões. A estreia de O código da Vinci – trazendo o vilão Silas – em 2006 foi vista com maus olhos pela organização, visto que 2004 e 2005 haviam sido os primeiros anos que não apresentaram vilões com características albinas em décadas.

O estereótipo reforçado em filmes

A Última Esperança da Terra

A Última Esperança da Terra (The Omega Man, 1971) foi o segundo filme baseado no livro “Eu sou a lenda”, de Richard Matheson. Além de ser considerado por críticos um filme de qualidade ruim e enredo fraco, é também extremamente preconceituoso. Esse foi provavelmente o primeiro filme a introduzir o “albino bias” ao cinema.

A população da Terra foi praticamente extinta devido a disseminação de uma bactéria que causa a morte quase instantânea do portador. Alguns humanos sobreviventes sofreram mutações as quais, aparentemente, deixam a pele, cabelos e olhos mais brancos e também desenvolvem fotofobia, tornando-os incapazes de ficarem expostos ao sol ou à luz. Em nenhum momento é explicado como essa mutação se desenvolve e se possui algum outro efeito colateral além desses citados.

Albinismo

[Divulgação]

Os portadores dessa mutação se juntam em uma espécie de seita chamada “a família”. Eles vagam a noite pela cidade e possuem o intuito de destruir a tecnologia avançada criada pelo homem e matar os últimos humanos considerados “normais”, sob a justificativa de que eles causaram o extermínio da humanidade. Basicamente, o filme mostra que a falta de pigmentação no corpo implica também na vontade em matar aqueles que não fazem parte da seita.

Albinismo

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Neville é um homem considerado “normal” e imune à bactéria, portanto, seu sangue possui anticorpos e pode ser usado como um soro. Ao invés de oferecer o soro aos integrantes da “família” para que eles possam sair à luz do sol novamente, o herói do filme prefere deliberadamente matar qualquer mutante que cruze seu caminho.

Esse é um ótimo exemplo do uso de características albinas para identificar vilões que não possuem motivo nenhum para agir daquela forma. O que torna o longa tão ruim é justamente a falta de explicação para aquele comportamento. Há uma cena que mostra uma personagem sendo transformada em um mutante e automaticamente alterando seus pensamentos e querendo se juntar a seita. O final do filme também deixa muito a desejar e faz com que o espectador desejasse ter gasto sua uma hora e meia de outra forma.

Powder

Esse filme não atribui características negativas ao personagem portador de albinismo nem o retrata como vilão. Nesse caso, ele é o protagonista e o mocinho do longa. O estereótipo, porém, está na forma com que ele é tratado pelas outras pessoas.

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Powder (1995) conta a história de Jeremy, um jovem que foi rejeitado pelo pai desde criança e passou a infância em um porão, sem nenhum contato com o mundo real. Após a morte dos avós, ele é obrigado a frequentar uma escola e conhecer outros jovens. Aos poucos é revelado que Jeremy possui certos poderes, como controlar e atrair eletricidade, ler mentes e olhar o passado de cada pessoa.

Desde o primeiro momento do filme, a condição de falta de pigmentação na pele é encarada como uma aberração. Antes que o espectador possa conhecer o protagonista, é dito que o garoto possa ter deficiências mentais e até mesmo deformações. Ao entrar em contato com a sociedade pela primeira vez, todas as pessoas que o cercam parecem chocadas e horrorizadas com a sua aparência, como se nunca tivessem tido contato ou nem soubessem da doença anteriormente.

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Além disso, existem poucos filmes que colocam um personagem portador de albinismo como protagonista. Ao invés tratar o personagem de forma fiel e realista, Powder atribui poderes sobre-humanos a ele, aumentando ainda mais o misticismo existente sobre a doença.

Albino

Dificilmente será possível produzir um filme que reforce tanto o “albino bias” quanto o filme independente Albino (1976). O longa também é conhecido como The Night of the Aaskari, Death in the Sun e Whispering Death. Porém, o nome pelo qual ficou mais conhecido é aquele que reforça a condição de pele do vilão.

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Whispering Death ou simplesmente “albino” é um terrorista, estuprador e assassino que aterroriza a vida dos habitantes da Rhodesia. Ele é o culpado por estuprar e em seguida matar a noiva de um policial colono britânico. A história do filme basicamente segue o policial em sua procura pelo terrorista para mata-lo.

Por mais inacreditável que seja a maneira como retratam o personagem, o mais preocupante é que a história trate de um portador de albinismo africano e se passe em um país da África, local onde esse grupo está sujeito à maior discriminação e sofre um perigo real pautado em sua condição de pele.

Outros

O Código da Vinci – Esse foi o filme que exigiu uma posição mais firme da NOAH. “O Código da Vinci” fez muito sucesso e chamou a atenção da organização devido ao vilão Silas, o qual apenas reproduz as características descritas no livro que deu origem ao longa. No livro, é reportado que ele possui albinismo, foi rejeitado pelo pai e que isso fez parte do que desencadeou a sua personalidade como adulto.

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Cold Mountain – Esse filme é apenas mais um dos que escolhem designar características violentas a um personagem declaradamente albino. Bosie é um psicopata que vive na guerra civil americana. O ator que dá vida ao personagem diz ter pesquisado muito sobre a condição de pele antes de começar a encenar, mas o que ele mostra em entrevistas é uma tremenda desinformação e reforço de estereótipos.

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As Crônicas de Nárnia – O albino bias não se refere apenas à má representação de personagens declaradamente portadores de albinismo, mas também de características que remetam a essa condição de pele. Esse é o caso do filme As Crônicas de Nárnia – o leão, a feiticeira e o guarda-roupa. A feiticeira branca é um exemplo de uma vilã que apresenta essas características.

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Uma Cilada para Roger Rabbit – Esse é outro caso em que o vilão do filme não é declaradamente albino, mas apresenta características que remetem ao albinismo. A característica que chama mais a atenção no Juiz Doom, vilão de “Uma Cilada para Roger Rabbit”, são os olhos vermelhos. Esse é um outro estereótipo errôneo associado a pessoas com albinismo, além de deixar o personagem muito mais assustador do que já era.

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Perseguições

Não é incomum que Hollywood identifique vilões e aberrações com condições ou marcas na pele. Com o albinismo, porém, essa tendência preconceituosa pode causar impactos diretos na segurança do grupo. Retratar esse grupo de forma negativa ou “mística” contribui para uma construção errônea e estereotipada no imaginário popular.

Existe uma crença antiga que afirma que as partes do corpo de albinos trazem riqueza e sorte. Essa crença é muito forte principalmente em algumas partes do continente africano. Dessa forma, existe uma intensa perseguição nesse continente contra os portadores de albinismo, os quais são mutilados e mortos com o intuito de terem partes de seu corpo vendidas por altos preços aos seguidores dessa crença.

A incidência de albinismo em algumas regiões da África pode chegar a 1 em cada 2000 pessoas. Essa porcentagem é muito alta quando comparada com outros continentes, o que apenas aumenta a preocupação e exige a atenção de autoridades para o problema.

O documentário White and Black: Crimes of Color evidencia a gravidade da questão enquanto segue uma jornalista que busca denunciar a perseguição na Tanzânia. O grande objetivo do documentário é procurar quem está realizando e patrocinando a perseguição de forma ilegal. Segundo o longa, são os curandeiros tradicionais os principais responsáveis pelas atrocidades, chamados de Witchdoctors. A jornalista mostra o constante medo, violência, discriminação, estigma e dificuldade de sobrevivência que essa população vive. É possível perceber no documentário que parte da sociedade os vê mais como aberrações e menos como humanos, assim como é feito em muitos filmes aqui citados.

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O filme White Shadow, apesar de não ser um documentário, também mostra de forma extremamente realista essas mesmas questões. Ele conta a história de um garoto albino chamado Alias cujo pai também sofria da mesma condição e foi morto por Witchdoctors. O garoto é forçado a mudar de sua casa, abandonar sua mãe e estar em constante fuga. Além da perseguição, a obra também mostra o preconceito nas escolas e a batalha diária de Alias para conseguir seu sustento. Por ir contra a onda da má representação do albinismo em filmes e mostrar tamanha realidade, o longa foi indicado e vencedor de diversas premiações e festivais internacionais.

Albinismo

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Apesar do que muitas vezes mostra Hollywood, ainda é possível encontrar produções cinematográficas que façam justiça aos portadores de albinismo, seja mostrando realidades dolorosas ou tratando-os simplesmente como pessoas comuns. É importante que essa representação exista e seja difundida para que o público não se deixe levar por estereótipos ou pensamentos errôneos e, principalmente, não perpetue esse tipo de visão.

por Maria Clara Rossini
mariaclararossini@usp.br

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