Anastásia Romanov: a lenda que virou animação

Imagem: Fernanda Pinotti/Comunicação Visual - Jornalismo Júnior

Imagem: Fernanda Pinotti/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

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Cartas, filmes, fotografias, peças teatrais, livros: há registros de todo gênero sobre Anastásia Nikolaevna Romanov. A grã-duquesa, quarta filha dos últimos imperadores russos Nicolau II e Alexandra Romanov, morreu jovem, com apenas 17 anos. Sua memória, no entanto, permaneceu viva por muito mais tempo ― tudo por causa de sussurros que emergiram na URSS no início do século XX.

Começou com um rumor e se tornou uma lenda: a princesa Anastásia teria sobrevivido à execução de toda a sua família pelos revolucionários bolcheviques, em 1918.

Mais tarde, em 2007, tudo isso caiu por terra: foi provado que ela havia morrido junto com todos os outros. O mistério, no entanto, permaneceu aceso por muito tempo, principalmente depois que, em 1991, as ossadas da família real foram encontradas, sem que as da grã-duquesa estivessem presentes. Foi no meio desses murmúrios, já espalhados por outras partes do mundo, que a animação Anastásia nasceu, em 1997, nos Estados Unidos.

Produzida pela 20th Century Fox Animation, ela narra, de forma bastante fantasiada, o que teria sido de Anastásia se ela tivesse escapado ao destino da família. O esquecimento de quem havia sido é o mote principal: a princesa aparece em um orfanato, depois de crescida, sem saber nada de seu passado. Passa então a correr atrás de sua identidade pelas ruas de São Petersburgo, e acaba achando dois charlatões – Dimitri e Vladimir – com quem vive todo o resto da história.

Não à toa, o desenho ganhou muita visibilidade: sua imagem, música e enredo o tornam interessante para qualquer um que queira se aventurar. Mas até que ponto podemos confiar nos fatos históricos que recheiam seus acontecimentos?

 

O que a história nos conta

Rússia, São Petersburgo, 1901: uma menina chamada Anastásia nasce. Não é uma criança comum: é filha de dois czares da Rússia, os últimos autocratas a governar o país antes da Revolução. Ela cresce, repleta de luxo, no Palácio de Alexandre com os seus quatro irmãos – sendo ela a menina mais nova e a mais agitada entre eles, pelo que dizem os relatos de seus tutores e criados.

1917, fevereiro: os mencheviques, grupo político do POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo), mudam o curso da história quando tomam o poder, obrigando o czar Nicolau II a abdicar do trono em março de 1917. A família é deslocada duas vezes antes de ser levada a uma cidade chamada Ecaterimburgo, último lugar em que iriam pisar.

Aconteceu em 17 de julho de 1918: guardas revolucionários seguiram ordem de Lênin (líder bolchevique) e assassinaram todos em um porão da casa onde estavam presos. O professor de história Osvaldo Luis Angel Coggiola, docente pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, chama atenção para algo que costuma ser deixado de lado: “Quem foi o grande responsável pelo assassinato da família real? Quem conta essa história esquece uma parte: os bolcheviques ofereceram a libertação da família real à Inglaterra, porque [os Romanov] eram parentes de sangue da família real inglesa ― essa que está aí até hoje. Bastava que a Inglaterra parasse de hostilizar militarmente a Rússia Soviética”.

Para entender isso, antes é preciso lembrar que um dos objetivos dos socialistas ao fazer uma revolução era retirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial (deixando de lutar ao lado da França, Sérvia, e, o que interessa aqui, da Inglaterra). Essa guerra vinha trazendo prejuízos humanitários estrondosos, além de destruir cidades nas quais havia confrontos. Quando os bolcheviques tomaram o poder, em outubro de 1917, tiraram a Rússia da disputa e acabaram trazendo para si a revolta dos países que eram seus aliados. “A União Soviética sofreu a invasão de 14 exércitos nesse momento, sendo o mais importante o inglês. Ofereceram aos ingleses que a família fosse libertada e enviada à Inglaterra, em troca de parar os ataques, mas a Inglaterra se recusou a considerar a questão. Ou seja, preferiu continuar com as hostilidades militares e não libertar a família real”.

Sem possibilidade de negociação com a Inglaterra, e vendo que contrarrevolucionários aproximavam-se de Ecaterimburgo (onde a família estava presa), Lênin tomou a decisão final de executá-los, e foi o fim dos integrantes da família Romanov.

 

O surgimento da lenda

Por um bom tempo, o governo socialista tentou esconder esse massacre, com medo de que houvesse revoltas por parte dos simpatizantes dos czaristas. Contudo, algumas investigações foram feitas acerca do paradeiro da família, e guardas da casa confirmaram essa versão da história. Acrescentaram ainda que, quando as balas foram atiradas nas meninas, acabaram ricocheteando por causa das várias jóias que elas usavam no corpo. Os guardas não esperavam por isso, mas a família havia costurado várias de suas jóias nas roupas de baixo, na esperança de que, caso escapassem, pudessem sobreviver com o dinheiro advindo delas. Nunca aconteceu: na verdade, apesar de inicialmente protegê-los das balas, acabou trazendo uma morte ainda mais violenta para as meninas ― morreram por baionetas.

Além desse incidente, ainda houve mais uma parte inesperada nos relatos dos guardas: eles disseram que na noite do assassinato, estavam bêbados, e não tinham voltado toda a atenção para os corpos da família Romanov.

Anna Anderson Anastásia

Retrato de Anna Anderson, mulher que se tornou famosa por se passar por Anastásia

Esses relatos fizeram brotar a dúvida: teria alguma das quatro meninas sobrevivido àquele dia?

Não só isso causou inquietação: pessoas afirmaram ter visto a menina pedindo ajuda em vilarejos próximos, naquela mesma noite. Além disso, várias mulheres, por toda parte da Rússia, começaram a alegar que eram a princesa Anastásia Romanov ― algumas impressionantemente parecidas com a grã-duquesa. Foi o caso de Anna Anderson, que brigou na justiça por anos (até a morte) tentando provar tal identidade. Foi só após seu falecimento, em 1984, que descobriram sua farsa através de exames de DNA, mas ela contribuiu para que a lenda continuasse viva entre a população.

 

Entre o desenho e a realidade

Quais são, afinal, as grandes discrepâncias entre a animação e a história que conhecemos? Em que partes o desenho erra e em que partes acerta?

  • A avó de Anastásia

Na animação, há alguém que também escapa ao assassinato da família: a avó de Anastásia. Ela consegue fugir para Paris e lá refaz sua vida, sempre triste por não ter conseguido trazer a princesa junto com ela. Na esperança de tê-la por perto novamente, passa a oferecer uma recompensa para quem conseguir levar Anastásia para lá, e com isso atrai para si várias falsas princesas que fingem ser sua neta.

Na história real, por mais surpreendente que pareça, algo muito similar aconteceu: Maria Feodorovna, Imperatriz russa e mãe de Nicolau II, realmente conseguiu escapar e fugir da URSS em 1919. A diferença é que não existiu Paris nessa história: Maria pousou os pés na Dinamarca, lugar onde havia nascido e onde depois morreria. Assim como no desenho, ela entrevistava mulheres que diziam ser a grã-duquesa Anastásia, mas todas as suas tentativas foram frustradas.

  • As muitas Anastásias e os muitos charlatões

Dimitri e Vladimir vivem em São Petersburgo e são essenciais para o enredo do filme. São esses dois farsantes que, vendo na personagem Anastásia um grande potencial para se passar pela princesa (sem que qualquer um dos três soubesse quem ela realmente era), tentam prepará-la de todas as maneiras para levá-la à Paris. Tudo pela recompensa que a avó de Anastásia oferecia.

Histórias como essa eram clássicas na URSS. Como já dito nessa reportagem, as tentativas de mulheres de se parecerem com a grã-duquesa foram inúmeras, várias delas levadas a sério por muito tempo.

  •  O vilão Rasputin

As íris vermelhas, o rosto pontiagudo, a expressão maldosa: Rasputin é retratado de forma asquerosa e maligna no desenho animado, sendo o grande vilão da história. Logo nos primeiros minutos do filme, a avó de Anastásia narra a chegada dele ao palácio: “Uma sombra negra havia descido sobre a casa dos Romanov. O nome dele era Rasputin. Pensávamos que ele fosse um homem santo, mas ele era uma farsa! Perigoso, sequioso de poder”.

No filme, o personagem era confidente da família real, e cometeu uma grande traição contra ela (traição que não fica clara no enredo). Expulso então do palácio, Rasputin se enche de raiva e decide lançar uma maldição sobre os Romanov: “Guarde as minhas palavras”, diz ele para Nicolau II, “você e sua família vão morrer  dentro de 15 dias! Não vou descansar até que eu veja o fiRasputin real Anastásiam da linhagem dos Romanov para sempre!”. Cheio de ódio, vende sua alma em troca do poder para destruí-los. É assim que os revolucionários chegam ao poder: através da maldição de Rasputin contra a família.

A realidade é muito diferente disso. Rasputin era realmente conselheiro da família real, mas não era visto como vilão pela família – a czarina Alexandra inclusive acreditava que ele havia ajudado seu filho Alexei, hemofílico, em vários ataques causados pela doença. As crianças, principalmente as meninas, eram muito próximas a ele, a ponto de estarem usando um amuleto com fotografia dele no dia em que morreram em Ecaterimburgo.

Rasputin realmente foi afastado da família durante um período, por causa de rumores espalhados pela cidade e dentro do palácio de que ele estava muito íntimo de Alexandra e das meninas (dizia-se que ele estava se relacionando com todas as cinco). Mas quando morreu em 1916, ele ainda tinha ligações com a família ― e essas ligações não eram ruins. Prova disso é que a família pensava em construir uma igreja no lugar onde ele havia sido enterrado.

E não, ele não tinha ligação com os socialistas.

 

  •  Os revolucionários e o incêndio do palácio

Por causa da maldição de Rasputin, os socialistas teriam conseguido se encher de tochas e invadir o palácio, causando um incêndio. A animação mostra todos tentando fugir, desesperados, sem ter êxito (a não ser Anastásia e sua avó, que conseguem sair pela passagem dos criados). É dessa forma que a família Romanov morre no filme: dentro do Palácio de Alexandre, pega pelos revolucioComunistas Anastásianários.

A história não foi bem essa. Demorou até que a família fosse morta, e não houve nenhum incêndio. Depois que Nicolau II foi forçado a abdicar do trono em 2 de março de 1917, ele e seus parentes ainda voltaram a viver ali dentro do palácio por alguns meses, presos. Foi somente em agosto que foram levados para a Sibéria, passando a viver na casa de um ex-governador. Em maio de 1918, foram mandados para Ecaterimburgo e só então mortos pelos guardas revolucionários.

 

A animação como instrumento político

Estamos acostumados a associar desenhos à infância, e dissociá-los, portanto, da política. Anastásia nos faz repensar isso desde as primeiras cenas. Uma maldição que traz os socialistas ao poder; uma população que mostra-se saudosa da antiga família real, e teme pelo novo governo; um incêndio causado pelos revolucionários acabando com um palácio de muitos séculos. Por que essa perspectiva foi escolhida para narrar o filme? O que queria os EUA ao mostrar a Revolução Soviética dessa forma em um desenho animado de 1997?

Depois de acabada a Guerra Fria, o fato de a Rússia ter abandonado o comunismo não fez com que a burguesia norte-americana deixasse de odiá-lo. A Revolução Comunista continuou condenada, independentemente da mudança de política da Rússia. Isso se explica facilmente: o ódio à Revolução Soviética é artigo de fé em todo o Ocidente capitalista”, diz o professor Osvaldo.

É preciso lembrar que, embora tenha sido condenável o fim que os revolucionários deram aos Romanov, a família real também não era nenhuma mocinha. A situação da Rússia Imperial, governada pelos czaristas Romanov havia mais de três séculos, era catastrófica. O país, predominantemente agrário, tinha seus camponeses e novos operários insatisfeitos com a situação precária a que estavam submetidos. Inúmeras manifestações contra o czar foram organizadas nesse período anterior à revolução, e foi nesse contexto que os socialistas ganharam espaço dentro do país.

A narrativa do filme, portanto, de que eles eram vilões odiados pela população não é bem verdadeira ―  é só pensar que os camponeses compunham 80% da população e viviam em uma situação miserável, por isso dificilmente apoiariam o governo vigente. Além do mais, a população russa era muito grande, e composta por muitas classes, por isso não seria possível traçar um único perfil para todos eles.

 

Um convite à história

A animação Anastásia, que completou 20 anos em 2017, pode não trazer os fatos exatos relacionados à Revolução e ao czarismo de Alexandra e Nicolau II, mas é com certeza um gatilho para que muitas pessoas passem a ir atrás da história desse conturbado período que a Rússia viveu.

Recheado de músicas, cenários e personagens carismáticos, o desenho também é uma ótima forma de conhecer um pouco sobre a grã-duquesa Anastásia Romanov e sua presença no mundo até hoje ― por meio de muitas histórias e muitas lendas.

por Lígia de Castro
ligiaadecastro@gmail.com

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