Anima Mundi 2016: A Tartaruga Vermelha

A imaginação faz da realidade caleidoscópica. É por meio dela que podemos ver as mais diferentes disposições dos cristais. É por meio dela que se ama e se vive. Afinal, a realidade é fluida. Num instante, o que era simples se torna complexo e o que era dor se torna alegria e vice-versa. Tão imersos estamos em nossos papéis sociais, essa percepção às vezes se perde. A Tartaruga Vermelha (La Tortue Rouge, 2016) é desse cinema que nos invade e a resgata.

O homem surge minúsculo entre as gigantescas ondas da tempestade. Uma vez agarrado aos restos de um bote de madeira, consegue alcançar a praia de uma ilha tropical, totalmente isolada. Após algumas inspeções do novo ambiente, ele segue em sua empreitada para abandonar aquela solidão.

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Utilizando a vasta mata de bambus, o homem, que não tem nome, ou mesmo falas inteligíveis, constrói sua jangada. Ela se mostra perfeita até chegar a certa distância da ilha, quando algo misterioso a quebra. Frustrado, o protagonista volta à areia para se recuperar e tentar novamente. Esta sequência se repete mais algumas vezes, porém com embarcações cada vez mais robustas até que, finalmente, a causa de tudo aquilo emerge tranquila da água, vermelha no azul do oceano.

A partir de então, a narrativa se desenrola num realismo mágico que não seria decente entregar em palavras. Estas, que por vezes são o refúgio de cineastas preguiçosos, os quais se acomodam em verbalizar o que o filme deveria trazer em imagens, ruídos e música. Felizmente, Michael Dudok Wit não é preguiçoso.

O diretor belga, conhecido por Father and Daughter, vencedor do Oscar de Melhor Curta Animado de 2001, fala ao espectador em pura linguagem cinematográfica. Com cores, trilha sonora, enquadramento, justaposição de cenas, sopra vida em seus personagens, cria metáforas e conta seu périplo da solidão.

A direção de arte é impecável. A paleta de cores, além de ser deslumbrante, dando uma aula de combinações cromáticas, aprofunda o estado psicológico dos atores, entre estes, a própria natureza, uma das protagonistas da obra. Ela está no verde infinito da mata, nos simpáticos siris, nas rochas austeras, no mar de humores, hora azul turquesa e vivaz, hora cinza e sereno, e no céu, que à maneira do mar, também nos narra uma camada da história. Tendo Isao Takahata, diretor de O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988) e, mais recentemente, O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari, 2013), como produtor artístico, afora toda a tradição do Studio Ghibli, não é de se surpreender tamanha sensibilidade estética.

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A música, de Laurent Perez Del Mar, permeia todo a obra de uma maneira muito astuta. Ela chega aos ouvidos de uma forma discreta em grande parte do filme. Em momentos de suavidade, em que se pode respirar. No entanto, quando o enredo pede, ela vem implacável e toma o espírito, a tal ponto que a apneia é mesmo real. Após cada segundo de catarse, não se vê mais um filme, vislumbra-se o porquê de se ir ao cinema. Sente-se erguer aquela perspectiva múltipla da realidade, perdida em alguma esquina da psique.

O somatório de tantas qualidades é uma obra cinematográfica magnífica. Desafiadora dos sentidos e da noção de realidade. Promotora de reflexões sobre o ciclo da vida humana entregue à natureza, da qual nunca deixa de fazer parte, mesmo com toda a civilização. A Tartaruga Vermelha assume tais papéis com uma delicadeza comovente, que inunda a alma, trazendo, consigo, o calor escarlate de sua carapaça.

A Tartaruga Vermelha foi exibido durante o Festival Anima Mundi 2016.

Veja o trailer:

por Daniel Miyazato
danielmiyazato@gmail.com

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