Uma outra perspectiva da história clássica de Anna Karenina

Partindo de uma premissa um pouco diferente da história clássica, Anna Karenina: A História de Vronsky (Anna Karenina: Istoriya Vronskogo, 2017) traz a visão do amante de uma das personagens mais conhecidas da literatura mundial. Século XX, Guerra Russo-Japonesa, Manchúria. Esse é o ambiente em que Sergei (Kirill Grebenshchikov), filho de Anna, já adulto e responsável pelo hospital militar, encontra o conde Vronsky (Max Matveev) e a partir daí o questiona sobre os motivos que levaram sua mãe a tirar a própria vida. Contado a partir de flashbacks, Vronsky relembra, 30 anos atrás, tudo que viveu ao lado de Anna do seu ponto de vista.

No que diz respeito às atuações, todos os atores conseguem entregar o que seus personagens exigem. Apesar de a história contar o lado de Vronsky, Anna Karenina (Elizaveta Boyarskaya) é o grande destaque. Com uma gama de emoções, que vão desde a contenção de sentimentos até a raiva, a atriz consegue interpretar Anna com maestria, sendo capaz de fazer com que o espectador queira saber os motivos que levaram ao final da personagem.

Anna Karenina: A História de Vronsky traz uma discussão muito interessante acerca do papel da mulher na sociedade, principalmente se tratando da época em que o filme se passa. A alta sociedade russa do século XX julga muito Anna por buscar o divórcio. Seu marido não quer se divorciar, pois isso “mancharia” sua honra, e mesmo sabendo que sua esposa tem um amante, prefere esconder tudo, chegando a um ponto em que ela confessa para ele que ama outro homem e quer se separar. O filho do casal também é um fator determinante nas decisões dela, uma vez que é usado por seu marido, Alexey, para prendê-la ao casamento.

A representação de uma sociedade de aparências é muito evidente. Uma cena que consegue expressar muito bem essa ideia acontece quando Anna decide ir ao teatro e é praticamente renegada pelas pessoas. Isso acontece porque ela já está com Vronsky, mas ainda não é divorciada de Alexey. Apenas Anna passa por isso, diferente de Vronsky, pelo simples fato de ele ser homem.

A direção de arte é um dos pontos mais fortes de Anna Karenina: A História de Vronsky. O rigor estético fica evidente tanto na caracterização dos personagens como na reconstrução da Rússia do século XIX, ambas muito bem feitas. Todo esse ambiente consegue transportar o espectador para outra época, sendo imersivo. A fotografia é muito bonita, ao mesmo tempo em que utiliza cores vivas e vibrantes consegue dar um aspecto antigo ao longa.

Anna Karenina

Cena envolvente de dança entre Anna e Vronsky [Reprodução]

Já a direção do filme oscila entre cenas muito bem filmadas e cenas exageradas ou até mesmo desnecessárias. Por exemplo, a cena em que ocorre uma corrida de cavalos consegue ser grandiosa. A trilha sonora e toda forma como ela foi filmada contribuem para a tensão do momento. Em contrapartida, algumas cenas que eram para ser de guerra tornaram-se exageros visuais, com inúmeras explosões colocadas apenas pelo efeito estético.  

O roteiro apresenta algumas falhas, como a necessidade de verbalizar coisas que são facilmente entendidas pelo contexto ou que poderiam ser ditas apenas através da atuação. A exemplo disso existe uma cena logo no início do filme em que o filho de Anna fala que é um médico do exército, entretanto sua fala torna-se desnecessária porque ele já tinha sido apresentado como tal. Além desse problema, outro ponto que prejudicou um pouco a trama diz respeito ao final, no qual é utilizado um recurso de narrativa fácil em que a protagonista explica praticamente todos os seus pensamentos (que resumem uma das questões mais importantes da história: suas motivações), para uma personagem secundária.

Anna Karenina: A história de Vronsky é um filme que retrata muito bem a época em que se passa, traz discussões pertinentes e apesar de alguns problemas consegue cumprir ao que se propõe: trazer outra perspectiva do clássico de Tolstói.

O filme estreia no Brasil no dia 7 de junho. Confira o trailer no link abaixo:

por Marcelo Freitas
marcelofreitas@usp.br

Comentários