A vida, a morte e muitas alegorias em Antes do Fim

No nosso imaginário, sempre relacionamos a imagem de um casal de idosos com fofura e ternura. Apesar disso, Antes do Fim (2018) mostra Jean (Jean-Claude Bernadet) e Helena (Helena Ignez) de um modo que fazemos repensar essa impressão radicalmente. Desse modo, os incomuns modos de pensar e características marcantes compartilhadas pelo casal são o ponto que rege a história.

A trama de Antes do Fim se passa antes do fim. Jean, um dos personagens principais, já está com quase 80 anos e vive há quase 60 com sua fiel esposa Helena, a outra protagonista. Incrédulo com a cultura da longevidade e temendo a velhice, o marido resolve tentar um suicídio consciente, e convida a mulher a fazer o mesmo. Apesar da recusa, pois sabe que poderá viver bem mesmo sem o esposo, Helena promete ser cúmplice e  ajudar Jean com sua ideia. A partir disso, o longa se ocupa em mostrar como os dois lidam com as situações da vida até a hora decisiva.

Antes do fim

Divulgação

Uma premissa dessas é realmente instigante. Não é muito comum, no cinema, vermos um personagem cujos motivos para o suicídio não são a tristeza, a depressão ou a desesperança, e muito menos uma personagem que apoia tal escolha. Ao invés disso, a razão que leva Jean a querer acabar com a própria vida em Antes do Fim é na verdade uma satisfação com ela mesma, uma recusa de vê-la se deteriorar conforme chega a uma idade mais avançada. Com relação a Helena, ela não compartilha dessa mesma linha de pensamento, mas entende os motivos do marido e pretende ajudá-lo custe o que custar. Ainda mais, de um jeito um tanto pragmático – traço compartilhado pelos dois, de certa forma  – justifica suas decisões dizendo para Jean que, ao contrário da personagem do livro que está lendo, cuja morte do marido a deixa completamente desamparada, Helena pode muito bem viver sem seu amante.

O que se espera a partir desse ponto é uma viagem filosófica sobre a vida e a morte, e outras questões da humanidade. De um jeito, é o que acontece, mas não de um modo concreto e sucinto. Para falar sobre a efemeridade e fragilidade da vida humana, Antes do Fim se utiliza de inúmeras alegorias e metáforas durante grande parte da sua história. A maior parte delas está relacionada com a temática do teatro, para combinar com a profissão de Helena, que é atriz. Por causa disso, as imagens acabam sendo muito abstratas e levam a qualquer interpretação por parte dos espectadores, que podem ter dificuldade para entendê-las. Nesse sentido, o filme tem tudo para cativar aquele público niilista que gosta de várias interpretações para um mesmo assunto. Outros públicos talvez saiam do cinema antes do fim.

 

Antes do Fim estreia dia 15 de fevereiro nos cinemas. Assista ao trailer:

por Bruno Menezes
brunomenezesbaraviera@gmail.com

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