Árvores Vermelhas: a lembrança – e o alerta – de tempos sombrios

É com essa citação de Walter Benjamin que o longa-metragem Árvores Vermelhas (Red Trees, 2018) se inicia: “Há um quadro de Klee que se intitula Angelus novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. Tal deve ser o aspecto do anjo da história. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as joga aos seus pés. Ele gostaria de deter-se para despertar os mortos e reunir os vencidos, mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.

Com direção da designer brasileira Marina Willer, o documentário conta a história de como seu pai e seu avô, ambos judeus, tornaram-se migrantes na época da Segunda Guerra –  e questiona o progresso da humanidade desde então.

A ideia inicial de Marina era fazer um curta de 20 minutos contando a história do pai, Alfred Willer, desde a sua infância na República Checa até a sua chegada no Brasil, depois de sobreviver à ocupação Nazista em Praga. A designer tinha imagens amadoras de uma viagem que realizou em família para conhecer o país de origem do pai, e então resolveu criar um projeto de financiamento coletivo para mesclar esse material a filmagens profissionais. Com a ajuda e produção de Charles Cohen, porém, a ideia pôde se estender a um longa-metragem de fotografia impecável.

ÁRVORES VERMELHAS 01

[Divulgação]

O nome por trás dessa excelência das imagens é César Charlone, que também dirigiu a fotografia de “Cidade de Deus”. São com as suas imagens que podemos enxergar de forma tão pessoal – e melancólica – os lugares em que Alfred cresceu e enfrentou todas os crueldades com que o nazismo o cercou. Conhecemos, durante o filme, ruas, fábricas, florestas e estradas que fizeram parte da história de um jovem que, no fim da guerra, era parte de uma das 12 únicas famílias judaicas e de origem checa a sobreviver ao holocausto.

E não foi só o público que teve a chance de se aproximar de Alfred através do longa. Marina e Marcelo Willer, irmão da diretora e co-produtor do filme, só tiveram um contato maior com a história do pai quando decidiram tocar esse projeto. Para a produção do documentário, houve muita conversa entre a família, além de toda uma pesquisa histórica.  “E então a gente começou a entender que ele é meio caladão porque passou por isso, perdeu muita gente, e que ele não gostava de ficar contando histórias de guerra porque realmente foi mais difícil do que a gente imaginava”, conta Marcelo.

As lembranças de Alfred são narradas pelo ator britânico Tim Pigott-Smith, o que, junto a uma trilha sonora pungente, torna a história ainda mais tocante. E além dessa emoção inevitável que qualquer relato sobre o holocausto nos traz, a história contada também nos instiga à reflexão sobre o que pode levar a tragédias como essa. Autoritarismo, intolerância, racismo, preconceitos? E são essas questões apenas daquela época?

O filme é, além de uma lembrança dos tempos sombrios que vivemos décadas atrás, um alerta para a realidade que estamos assistindo se erguer. Que o anjo da história citado por Walter Benjamin continue querendo afastar-se do passado que o encara fixamente.

 

Árvores Vermelhas estreia nos cinemas brasileiros dia 29 de março, com distribuição independente. Confira o trailer:

por Jade Rezende
jaderezender@gmail.com

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