As Duas Irenes e as questões da adolescência em entretenimento para adultos

A transição da infância à fase adulta é marcada por um período bem turbulento, que atinge os jovens com incessantes dúvidas, questões existenciais, conflitos identitários e desavenças com a família. No cinema, diversos filmes foram compostos nessas bases, temática que foi chamada de coming of age (em tradução literal, chegada da idade), como por exemplo o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), ou o renomado Boyhood: Da Infância À Juventude (2014), que talvez seja o melhor para ilustrar essa passagem.

A adolescência também é pano de fundo para As Duas Irenes (2017), mas nem por isso se trata de um filme feito para adolescentes, como As Melhores Coisas do Mundo (2010). Aqui, na verdade, a relação por trás do amadurecimento é complexa, apesar da leveza com a qual é retratada, e envolve questões que transpassam o entretenimento infanto-juvenil.

Numa cidade interiorana, cortada por longas estradas e repleta de matas esverdeadas, mora Irene (Priscila Bittencourt), de 13 anos. O embaraço se inicia quando a jovem descobre que seu pai, Tonico (Marco Ricca), tem outra família, com uma filha de mesma idade também chamada Irene (Isabela Torres). Tudo isso inflama seu conflitos internos, num primeiro momento exasperando a raiva e a incompreensão do porquê de o pai ter outra família. Irene acaba, então, por se aproximar da segunda família de seu pai, sob nome falso e pretextos inconsistentes. O contato com a meia-irmã mais experienciada, desenvolta e extrovertida a faz questionar sua própria vida, colocando-a em pé de guerra com sua mãe (Susana Ribeiro), que preserva valores tradicionais de família e feminilidade.

A amizade das duas se fortalece à medida que passam pelas primeiras experiências juntas — o primeiro beijo, o primeiro namorado, o primeiro amor. A identificação de Irene com a irmã distante se mostra mais forte do que com a própria família, e a nova relação funciona quase como um escape das constantes cobranças por boas maneiras exercidas pela mãe. Também é nessa outra família que a personagem encontra amor, num ambiente em que se sente livre pra ser quem realmente é.

Com isso, Irene passa por um processo de redenção: o que antes era rancor transforma-se em entendimento. Ela, que se sente menos amada que as duas irmãs de sangue, já que uma ganha toda as atenções graças ao seu baile de debutante, e a outra é pequena demais para ser deixada sozinha, encontra um refúgio fora de casa, no qual é compreendida e confortada.

O filme não aprofunda muito a problemática por trás das Irenes, como por exemplo a relação distanciada com o pai e as consequências dessa falta. As diversas nuances que permeiam o tema são deixadas subentendidas, de forma que não sabemos se é um erro de coesão ou se é intencional. Na verdade, a abordagem é muito rasa, e o que vemos é o mínimo que poderia ser mostrado. A narrativa como um todo, porém, não é prejudicada por esse fator, e o longa pode ser assimilado com certa facilidade.

Entre os pontos positivos, têm-se a rolagem de câmera, minuciosamente calculada, num trabalho de captação excelente. Há de se destacar também a sintonia entre as atrizes que interpretam as Irenes, que transmitem o regozijo de uma amizade tão jovem de uma forma natural, contagiando a quem assiste ao despertar sentimentos nostálgicos e transformando toda a complexidade das incertezas identitárias pré-adolescentes numa grande melodia — ruidosa, mas bonita.

As Duas Irenes estreia dia 14 de setembro. Confira o trailer abaixo:

por Giovanna Jarandilha
giovannajarandilha@gmail.com

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