As lembranças coloridas de Fellini

Márcia Scapaticio

Quem sabe as cores de seu passado? Federico Fellini nos mostra um reencontro com as memórias de sua infância em Amarcord (1973). Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, no ano de 1974, mistura realidade à atmosfera onírica vivida em Rimini, cidade italiana que também sofreu o domínio fascista de Mussolini.

A espetacularização da política, a família, a igreja, a escola; todas essas instituições são representadas tendo em vista as relações de poder que se estabelecem entre elas, como, por exemplo, o padre repressor em meio a garotos envolvidos num turbilhão de desejos proibidos.A cena protagonizada por Tita Biondi, a taberneira da venda é umas das mais impotantes do filme, na qual o ator Bruno Zanin dá adeus a qualquer inocência que ainda havia em seu personagem. Todas essas passagens ocorrem permeadas, sempre, de muita leveza e humor.

Quem se aventura na filmografia de Fellini tem de estar disposto a entrar em seu universo. O cotidiano da família Biondi é o ponto de partida à representação das instituições; o pai autoritário e desajeitado figura como uma extensão da vida pública, a mãe encarna a moral católica e seus preceitos, além da figura do padre que, a cada confissão ouvida, parece instigado por sua imaginação.

O relato da infância por meio de Amarcord traz a público muito mais do que um filme, mas uma possibilidade de se aproximar do início da vivencia do cineasta. De que forma cresceu, quais as memórias fundamentais para o desenvolvimento de sua personalidade. A verossimilhança existente faz com que, em seus longas, Fellini imprima um estilo, mostrando-se um bom observador social e das atitudes dos homens frente as mais distintas situações.

A infância vivida numa pequena cidade italiana sob regime fascista italino, as descobertas da infância e a necessidade de quem precisa crescer se evidencia na cena em que todos os garotos estão reunidos na rua sentindo o vento e imersos em suas próprias memórias, as quais se confundem com a do próprio diretor. Fellini provoca o encantamento ao narrativizar suas recordações e, também, ao recriar fatos que só existiram em seu imaginário. Ninguém pode afirmar ao certo o quanto há de ficção e o quanto há de realidade em Amarcord; porém, em seu título nós é oferecido um caminho, já que no dialeto italiano, amarcord significa “Eu recordo”.

Entre o onírico e o registro histórico, Amarcord se mostra uma obra essencial na obra de Fellini e mais ainda, mostra-se especial aos que desejam participar dessa poesia fílmica e imagética, da relação entre o que foi e aquilo que realmente desejamos que tivesse acontecido. Armarcord é brincadeira de gente grande feita para seduzir e encantar os cinéfilos.

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