As várias faces de Lygia Fagundes Telles, a “dama indomada”

O documentário Lygia, Uma Escritora Brasileira (2017) é resultado de pesquisas e documentações organizadas pela TV Cultura para celebrar Lygia Fagundes Telles, uma das maiores escritoras da história da literatura brasileira. Essa é a primeira vez em que algum conteúdo produzido por essa emissora é distribuído amplamente pelo território nacional.

O projeto surgiu com a indicação, em 2016, da autora para o Nobel de Literatura, e tinha como principal objetivo investigar os fatores que permitiam a uma senhora de mais de noventa anos escrever sobre assuntos tão atuais, como a temática LGBT, o racismo e a opressão da mulher.

No começo do filme, Lygia é chamada de ‘dama indomada’, devido à sua forte personalidade. Logo no início, portanto, a plateia já tem, nessas duas palavras, um resumo verdadeiro da alma da autora: uma mulher que, conservada sua feminilidade, é feroz e dotada de uma força incrível.

Ao longo do documentário, o espectador é apresentado a uma visão de Lygia através dos olhos de poetas, escritores, críticos e familiares da escritora. Sempre lembrada por seu humor irreverente e pela sensibilidade, Fagundes Telles é descrita como uma mulher corajosa e destemida, completamente à frente de seu tempo. Como exemplo são citados alguns dos textos da autora, que, já nos anos 50, abordava temas delicados e que mantém seu status de tabu até hoje.

Dirigido por Hélio Goldsztejn, e  com seus 75 minutos de duração, a produção se mostra um pouco longo demais. A partir de certo momento, muitas opiniões são repetidas ou reforçadas sem necessidade. Em vez de exibir mais cenas inéditas com falas de Lygia ou de sua família ou amigos mais próximos, o documentário foca nas ideias de especialistas, o que o deixa impessoal e distante do público.

Os trechos mais interessantes são aqueles onde aparecem em cena alguns momentos da escritora em entrevistas ou conversas. É nessas horas que a plateia pode de fato observar em ação as características comentadas pelos participantes do documentário, e se sente íntima de Fagundes Telles a ponto de se sentir quase como se estivesse assistindo a uma amiga na telona. No entanto, são razoavelmente raros os minutos em que essas passagens são mostradas.

Os aspectos técnicos do filme são competentes: a iluminação, o enquadramento e a edição cumprem suas funções, mas não se destacam e nem fazem do documentário uma obra prima da sétima arte. Muito menos do que isso, o filme serve como um compilado de cenas majoritariamente curiosas e divertidas, mas que se alonga e repete demais. Por isso, Lygia, Uma Escritora Brasileira agradará muito mais aos fãs da literatura nacional do que aos cinéfilos.

É inegável que a autora, um verdadeiro exemplo de valentia, rompeu paradigmas ao se impor como escritora em um mercado dominado por homens que muitas vezes a subestimava e objetificava. Seus livros e sua escrita são, ao mesmo tempo, duros e sensíveis, e conquistam leitores de todas as idades. E é considerando toda a grandeza de Lygia que o documentário torna-se insuficiente para retratar com precisão as suas conquistas e seu jeito de ser único.

O filme estreia no dia 23 de novembro. Assista ao trailer abaixo:

Por Sabrina Brito
sabrinagabrieladebrito@gmail.com

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