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Até o Último Homem: Princípios, heroísmo e exagero
CINÉFILOS
26 jan 2017 | Por Jornalismo Júnior

Em meio a tanta crueza que vivemos nos tempos atuais, é bom que o cinema ofereça um escapismo. Assim, para cada Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), temos um La La Land – Cantando Estações (La La Land, 2016) para balancear a dureza do mundo. Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016) encontra-se nesse limiar, expondo um protagonista de princípios muito puros e singelos a um meio nefasto e tenebroso como o de uma guerra. Será então justamente desse choque de realidades que Mel Gibson contará a história real de Desmond Doss (Andrew Garfield), cristão adventista, mas patriota, que decide lutar na Segunda Guerra Mundial sem carregar uma arma sequer; para ele, enquanto alguns tiram, ele salvaria vidas como médico.

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Mas para que esse conceito não chegue brega nas telas, é fundamental que acreditemos nas motivações do protagonista, e Andrew Garfield é perfeito nisso. Com uma fala pausada e um olhar sempre cauteloso, a impressão inicial é a de uma inocência frágil. No entanto, conforme nos defrontamos com suas convicções, o mesmo porte soa posteriormente como uma pureza nobre; além disso, é justamente por questioná-lo que nos tornamos ao fim ainda mais empáticos.

Esse sentimento é também inspirado pelo contraste que ele faz a seus colegas e superiores. Mas é a partir daqui que a obra começa a dar os primeiros sinais de fraqueza. Por mais brutamontes que sejam, a impotência de seus comandantes após se compadecerem acaba tornando-os ornamentos de tela. O roteiro também é problemático ao criar situações que poderiam ser facilmente resolvidas com uma pequena sacada. Na primeira metade do filme, por exemplo, todo um arco poderia ter sido descartado se o mais incapaz dos advogados soubesse apenas ler a Constituição; mas não se pode perder uma oportunidade de dramatização, não é mesmo?

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Na verdade, por mais poderoso que possa ser, o trabalho se sabotará diversas vezes pelos seus excessos. Dessa forma, se num eficaz momento ele demonstra sua bondade se recusando a bater em seu agressor, em outro, ele é posto quase como um santo, estirado sobre uma cruz à contra-luz. O cúmulo acontece quando, numa tentativa de mostrar seu heroísmo, perde-se qualquer noção de realidade e o roteiro o faz chutar e rebater granadas como se fossem bolas. A primeira parte do filme, aliás, é uma das mais prejudicadas com isso. Pontuada por uma trilha sonora de cordas genérica, o amor que Desmond desenvolve por Dorothy Schutte (Teresa Palmer) é bem melodramático, ainda mais quando o diretor utiliza uma infinidade de câmeras lentas a cada momento mais emotivo.

Felizmente, quando chegamos às cenas de ação, Mel Gibson prova o valor da caótica, mas segura direção que o consolidou em Coração Valente (Braveheart, 1992). As sequências transitam entre planos mais abertos que mostram a dimensão dos estragos e do campo de batalha, e outros fechados nos protagonistas, nos jogando mais de perto ao sofrimento e violência. Aliás, é por justamente acompanhar o treinamento dos personagens na primeira metade da projeção que nos simpatizamos e sofremos junto com eles na segunda. Em outras palavras, tanto o ritmo, quanto a identificação fazem das cenas ainda mais tensas e sensíveis.

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Além disso, como em muitos filmes de ação, o uso do som é importantíssimo para criar a atmosfera da guerra. A questão é que aqui o que se tem não é apenas barulho, tudo que se ouve é nítido por si só, e nebuloso em conjunto. Deste modo, se em uma cena escutamos os gritos em primeiro plano, explosões ao fundo e tiros cortando o quadro, numa outra, a tensão é a mesma com apenas um fraco e perdido grito de socorro. Por isso, o projeto já desponta como um dos favoritos às categorias de som, especialmente a de mixagem – em que, a grosso modo, faz-se a equalização (mistura) de todos os sons captados e produzidos.

Mesmo assim, quando Até o Último Homem encerra com imagens do Desmond da vida real confirmando e repetindo as histórias que acabáramos de ouvir, as tentativas cegas de que nos compadeçamos pelo protagonista e o vejamos também como herói, acabam se tornando (mais uma vez) excessivas. E isso ainda fica pior se lembrarmos que o roteiro foge de qualquer dilema mais complexo. Em nenhum momento ele é posto, por exemplo, numa situação em que a arma seria sua última escolha para continuar a viver. Com isso, por mais bonita que seja a história de vida de Desmond, o roteiro, a direção e a ousadia temática são irregulares, para não dizer tendenciosas; assim como qualquer guerra, e seus consequentes heróis…

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=R4cmOy0V8UA

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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