Em Ritmo De Fuga e o encontro perfeito entre ação e musical

Os primeiros 6 minutos, disponibilizados na internet pela Sony Pictures, são uma introdução eletrizante. Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017) já começa mostrando a que veio. Baby, o personagem-título da versão em inglês, faz uma divertida coreografia ao volante, embalada por BellBottoms, do The Jon Spencer Blues Explosion. A sincronia não é exclusividade desse momento. Logo depois, ele já prova por que é o “devil behind the wheel” quando em companhia de seus fones, em uma fuga que se encaixa perfeitamente com a batida da música. Isso porque Em Ritmo de Fuga não é apenas um filme de ação; é também um musical, mesmo que não no sentido clássico da palavra.

Edgar Wright, o diretor e roteirista, tem um histórico de miscigenação de gêneros cinematográficos em suas obras, como em Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2004) e Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, 2010). Há 4 anos, ele iniciou esse projeto, moldando o roteiro em torno da trilha sonora. O script recebido pelo elenco vinha com instruções claras: devia ser lido ao som da playlist em um Ipod enviado anexo, como parte de suas atuações, já que as faixas ditam as cenas. E é essa a sensação quando se assiste ao filme: a música coprotagoniza o longa, que tem sua maior originalidade em usá-la como se fosse um maestro.

E esse maestro impõe um ritmo frenético aos acontecimentos. O filme está sempre tão acelerado quanto o velocímetro de seus carros, sem se atropelar ou perder o fôlego. Mas, por isso mesmo, não é um longa a que se assiste apenas uma vez. É inato ao estilo de Edgar ser detalhista e propor diversas nuances, mas a rapidez de Em Ritmo de Fuga é singular. Em vários momentos é perceptível a sensação de se estar deixando informações passarem, o que é angustiante e estimulante ao mesmo tempo. O espectador pode ter a certeza de que sua impressão vai mudar ao revê-lo. O que é um mérito de uma proposta em si simples, mas realizada de uma maneira que a torna única.

A ação fica por conta de um elenco estelar. Baby (Ansel Elgort), trabalha compulsoriamente para Doc (Kevin Spacey, o Frank Underwood de House of Cards) como piloto de fuga. Quando criança (sim, literalmente) o garoto, órfão após um acidente, contraiu uma dívida com seu mentor. Sem meios legais de pagá-lo, ele passou a dirigir para os bandidos que realizavam os roubos, arquitetados pelo chefe. O grupo de criminosos mudava a cada empreitada, mas alguns deles se destacaram por seus bons resultados. Darling (Eiza González) e Buddy (Jon Hamm, conhecido por estrelar a premiada série Mad Men), um casal bastante inconveniente em suas demonstrações de afeto, e Bats (Jamie Foxx), são uma exceção a uma regra do chefe: nunca repetir quase nenhum de seus funcionários, sendo Baby o único que participa de todas as operações, isso porque é o melhor no que faz, mesmo diante da incompreensão dos outros em relação aos seus hábitos. As inúmeras desconfianças quanto ao comprometimento do piloto e algumas provocações direcionadas a ele levaram Doc a explicar que os fones de ouvido inseparáveis eram consequência de uma condição médica.

No mesmo acidente que vitimou seus pais, Baby adquiriu o tinido, um zumbido na orelha, que faz da música constante também um alívio. E nisso é importante destacar uma preocupação impressionante do cineasta. Nos momentos em que Baby, por algum motivo, é privado do uso de seu fone, o zumbido que ele ouve fica audível também ao espectador. O diretor tinha, assim, o objetivo de causar incômodo a quem estivesse ouvindo, estabelecendo uma relação de empatia maior entre espectador e personagem.

Mas a história é envolvente e dinâmica até quando não interativa. Os personagens estão sempre inseridos em algo estimulante, mesmo quando não uma corrida. Baby, por exemplo, tem uma ótima cena em que anda dançando no meio da rua.

Para quem conhece o trabalho de Elgort mais a fundo, faz com que o papel pareça ter sido escrito sob medida para o ator. O nova iorquino de 23 anos se formou pela escola La Guardia, tradicional no ensino das artes à seus alunos. Lá, Ansel flertou com o sapateado e levou a carreira artística como profissão, com uma vida de DJ paralela à de ator. Recentemente, ele expandiu seu gosto por música para além da EDM e se aventura cantando nas faixas, com uma voz que, assim como o filme, transita entre os gêneros. O protagonista é, provavelmente, um dos menos conhecidos no elenco, sendo popular entre um público mais jovem por sua participação no sucesso teen A Culpa É Das Estrelas (The Fault In Our Stars, 2014). Não é possível dizer, como descrito acima, que dar vida à Baby tenha sido um desafio para Ansel, mas é visível seu amadurecimento como ator e seu carisma, com uma performance cativante mesmo com pouca expressão em palavras.

Com arcos muito bem costurados, Wright não deixa de justificar o tom monossilábico dos diálogos de Baby. Seu pai adotivo é um homem mudo (C.S Jones). Já idoso e em uma cadeira de rodas, a interação entre pai e filho garante passagens bastante sentimentais que nos permitem conhecer uma faceta mais humana e sociável do protagonista, muito inserido em seu próprio mundo. Uma paixão à primeira vista também compõe esse lado passional. Em uma lanchonete, o herói da trama conhece Debora (Lily James), uma garçonete que já tinha chamado sua atenção antes e que o conquista de vez ao cantarolar um divertido B-A-B-Y BABY, antes mesmo de saber o nome de seu mais novo admirador. A personagem é musical e solar e é parte importante na intensificação da vida dúbia do motorista, com uma oposição entre o que praticava e o que acreditava.

Ao fazer uma última corrida e quitar suas pendências com Doc, Baby queria se ver livre da vida de delitos. Ao longo da trama seus conflitos internos se intensificam, mas, assim como na vida real, se desvencilhar de uma organização criminosa não é nada fácil. Ser o melhor no que faz cobrou um preço, e o jovem se viu preso nas chantagens do personagem de Spacey, que agora tinha duas pessoas a quem ameaçar. Mas a maior construção de tensão da história fica por conta de Bats.

O personagem de Jamie Foxx força Baby a situações limite, pondo à prova seus valores e sua bondade rotineiras,fazendo o papel do antagonista que desenrola o enredo e contribui para a fluidez do roteiro. Sem ele não haveria clímax, já que o personagem de Spacey mantém um padrão de comportamento estável e Bats, por outro lado, tem variações de humor rotineiras e nenhum escrúpulo. A violência é intrínseca à sua forma de agir.

 

Fica claro que o elenco de apoio é no mínimo impressionante. Com nomes reconhecidos na indústria cinematográfica, o longa poderia recair em um erro bastante comum e apoiar seu apelo no prestígio daqueles que enfeitam seu cartaz. Mas Spacey, por exemplo, não é apenas um figurante de luxo: dando sentido a seu status como ator, ele domina a tela quando aparece, com tiradas inteligentes e hilárias e um caminho de redenção. Seu relacionamento com seu outrora subordinado se desenrola por caminhos mais emocionais, de forma talvez um pouco rasa para aqueles que procuram maior profundidade psicológica, mas bastante efetiva dentro do contexto narrativo. Jon Hamm, que até certo ponto parece ser ofuscado por Foxx, também tem seu espaço para brilhar, e é quem mais molda o destino do Baby Driver, extinguindo algumas de suas barreiras pessoais. E, por sua vez, brincando com o humor, Jamie dá mais uma mostra de seu talento, após alguns anos imerso em obras mais sérias.

Em Ritmo de Fuga é um filme de baixo orçamento se comparado com outros lançamentos da temporada, incluindo longas de super-herói e continuações de franquias renomadas, que ocupam grande parte das salas do circuito mundial e captam boa parte da atenção. Por isso mesmo, o filme, antes pouco comentado, com um roteiro original de tom cômico e inteligente, não desafiando a inteligência do espectador, foi uma grata surpresa que ganhou os corações da crítica especializada.

Nada grandioso em cenário, com as ruas sendo o ambiente mais usado para as cenas, os custos de direitos autorais, com faixas conhecidas como Brighton Rock, do Queen — a killer track de Baby — assim como a dificuldade em garantir a originalidade da trilha, parecem ter sido os maiores desafios de Edgar Wright. Recentemente, um sucesso de bilheteria flertou com a ideia do herói apaixonado por música. Edgar manteve conversas constantes com James Gunn, seu amigo pessoal e diretor de Guardiões da Galáxia: Volume 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2, 2017), para que nenhuma faixa se repetisse nos dois filmes. Se por esse aspecto ele buscava manter sua originalidade intacta, quando o assunto é sua amizade com Quentin Tarantino, pode-se perceber como esse o inspira.  A aura da estética e escrita de Edgar Wright tem pitadas semelhantes a do diretor de Pulp Fiction (1994), assim como a escolha das músicas, o que não parece mera coincidência.

Além disso, as cenas de violência, mesmo que mais modestas, guardam certa semelhança, com a quantidade de carros destruídos tomando outra fatia considerável do orçamento. Em suas cenas de velocidade, Baby Driver flerta com a franquia Velozes e Furiosos (The Fast and the Furious, 2001-) — sem precisar de grandes viagens pelo mundo para entreter — mas todo o conjunto o aproxima muito mais de filmes cool entre os amantes de cinema, como Drive (2012), que tem Ryan Gosling como protagonista.

O uso das frases de Monstros S.A. (Monsters, Inc., 2001), as brincadeiras com o Ipod de Baby, a referência à Barbra Streisand, assim como uma hilária sequência que inclui Samm, o sobrinho de Doc, dão mais frescor ao filme. Mas é claro que, ao retratar uma ideia central tão tradicional quanto às corridas de carro, e não fugindo de algo muito comum entre a maioria dos roteiristas, o filme de Wright conta com diversos clichês, incluindo desfechos não muito imprevisíveis mas coesos, o simples que funciona. Talvez a maior falha esteja no desenvolvimento de Debora e seu relacionamento com Baby. Em algumas cenas a moça é vulnerável e romântica demais, beirando uma ingenuidade um pouco irritante. Suas falas por vezes soam bastante cafonas e são encenadas com um ar ligeiramente afetado, o que pode ter sido proposital, para combinar com a aura vintage do Bo’s diner em que trabalha, ou apenas uma falha do roteiro ou da atuação. Esse lado old school de Baby, visto também nas fitas cassete e na ausência de celulares em seu romance, é complementado pela mocinha frágil que precisa de seu amparo, mas não parece uma premissa tão convincente em tempos de empoderamento das figuras femininas no cinema.

Apesar dos deslizes, de maneira geral, o filme é moderno e notadamente feito por um diretor que brinca com o novo se inspirando nas fórmulas clássicas. Não se deixe enganar pelo péssimo título digno de Sessão da Tarde. Em Ritmo de Fuga não é cinema dispensável para as tardes preguiçosas, é entretenimento de qualidade para recomendar aos amigos.

Simpatia e sorrisos

O Cinéfilos acompanhou a coletiva de imprensa realizada na última segunda, dia 24, em que o ator Ansel Elgort e o diretor Edgar Wright, vieram ao Brasil promover o longa. Ansel se mostrou super animado com a vinda para o país que foi promovida através dos apelos do fãs pelo Twitter. Esses mesmos fãs lotaram a porta do hotel à espera do ator que foi muito simpático com todos. Quando questionado sobre como se sente por ser um “crush mundial”, o ator mostrou-se animado com o carinho dos fãs. “É ótimo, por sorte minha namorada não é ciumenta e eu amo meus fãs, eles me fizeram estar aqui”, conta.

As questões giraram em torno dos pontos principais do filme: a trilha sonora e a relação do Baby com a música. O diretor declarou que a trilha sonora foi desenvolvida há muito tempo e tornou-se parte do seu cotidiano. ” Enquanto ouço minha playlist pessoal, as vezes estou ouvindo algo e penso “oh essa faz parte de Baby Driver”.” Edgar contou também que “sem querer” ele faz uma pequena participação no longa. Em uma cena que Baby está tocando instrumento, é possível ver o reflexo do diretor assistindo a cena.

Já Ansel, que chegou literalmente pulando no palco e só sorrisos, nos contou que sua maior inspiração para o personagem foi Gene Kelly, de “Cantando na Chuva”. O ator, que veio se preparando para o papel desde o fim de A Culpa É das Estrelas, conta que desejava fazer todas as cenas de ação, já que teve que aprender a manobrar por um mês. Ansel teve a oportunidade de trabalhar com astros consagrados de Hollywood e declarou que o longa foi responsável por torna-los amigos. “No início eu estava nervoso para trabalhar com esses caras legendários, a gente nunca sabe quão legais eles serão. Então nos conhecemos, fui na casa deles, jogamos basquete, e me tornei amigo do Jamie e do Kevin”, compartilha.

A dupla, que era só sorrisos e entusiasmo, apresentaram ao vivo a sintonia que percebemos em Em Ritmo de Fuga. Uma coisa é certa: os dois conseguiram nos deixar ainda mais ansiosos para a estreia que acontece quinta, 27 de julho.

Clique aqui e confira a trilha sonora do filme

Assista ao trailer:

Por Pietra Carvalho e Larissa Santos
pietra.carpin@hotmail.com
larissasantos.c@usp.br

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