40ª Mostra Internacional de SP: Uma Bandeira Sem País

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Os curdos são a maior nação atual sem um Estado definido. Situado nas regiões da Turquia, Armênia, Azerbaijão, Iraque, Irã e Síria, o conflito já perdura por décadas, principalmente sob a figura do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK). Desde então, os ecos de militância são vários, estendendo-se das conferências na ONU à produção audiovisual. Ao que tange o último, o principal representante da atualidade é Bahman Ghobadi, que no último ano produziu o documentário A Vida na Fronteira (Life on the Border, 2015) – que deixava a responsabilidade da câmera na mão de oito crianças refugiadas em suas experiências frente aos ataques do grupo ISIS –, e dirigiu e produziu Uma Bandeira Sem País (A Flag Without a Country, 2015), em que comenta o conflito de forma bastante original, acompanhando a história de duas celebridades curdas – um piloto de avião e uma cantora pop que interpretam a si mesmos – e o impacto que a luta armada teve e continua tendo em suas carreiras.

Entrecruzando a história dos dois, o filme ilustra como mesmo profissões totalmente diferentes acabam, em tempos de guerra, com atuações similares. Ambos, por exemplo, realizam trabalhos comunitários para ajudar crianças refugiadas. Nariman Anwar dá aulas de aviação, enquanto Helly Luv fala sobre música. Duas atividades fecundas pelo amor que cada um deles nutria por ídolos ou histórias pessoais, mas que diante das circunstâncias passaram a funcionar também como arma ou mensagem política, como acontece com outro cidadão qualquer. Dessa forma, o filme acaba também sendo o retrato da dificuldade com que um indivíduo, independentemente de seu destaque social, é privado de uma vida comum.

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Logo no início da projeção, o piloto afirma que veremos algumas reencenações de seu passado, assim como a documentarização dos fatos presentes; o que também vale para a cantora. De fato, conhecer a trajetória dos dois é vital para que possamos nos sensibilizar com o momento vivido. O uso dessa ferramenta tira, no entanto, parte do peso dramático dos relatos, sendo bastante aquém à veia documental. Nesse quesito, a apresentação de Anwar é um pouco artificial, pois confia quase inteiramente na reencenação.

Helly Luv, por sua vez, flutua perfeitamente entre o limiar de ficção e realidade que o filme pretendia. Contando seu passado através de vozes em off, enquanto passamos por uma loja de armas, uma barraca de crianças refugiadas e uma jaula de leoas, sua apresentação é bastante enigmática. Quando então sacamos a relação de todos esses elementos, não só já estamos totalmente interessados pela personagem, como também nos damos conta de que sua narração já apresentou todos os fatos importantes de sua história.

A proposta documental, por outro lado, também não é tão espontânea quanto a cena em que um personagem pede para que o diretor pare de filmar dá a parecer. Em diversos momentos, um mesmo diálogo é gravado de várias posições diferentes, sem que se perca um único pedaço da fala. Em outros, dizendo acompanhar em primeira mão o que seus protagonistas fazem, o filme rouba se antecipando com um corte de dentro do recinto pelo qual a personagem anteriormente entrava. Se tudo o que acontece é inesperado, como o diretor pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo sem perder nenhuma informação nas transições? Não estando. Em outras palavras, mesmo o que se propunha a ser documentarizado tem resquícios de encenação, o que compromete a noção de realidade das cenas.

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Contudo, algumas imagens de arquivo de bombas explodindo ou cenas de total normalidade, como uma em que o piloto pede as direções para dois brincalhões aprendizes de pastor compensam com uma dose, no primeiro caso, crua, e no segundo, leve da vida. Junto a isso, os caminhos de luta e superação dos dois protagonistas também nos oferece um sopro de esperança, que infelizmente tem de ser deixada de lado por um desejo coletivo maior. O desejo de um país ainda sem bandeira em procura da paz, que para isso vive trilhando um caminho de sangue. Nesse momento percebemos que por mais que a tenhamos tachado como o problema da obra, a única coisa que gostaríamos de fato é que tudo não passasse apenas de uma encenação.

P.S.: Tendo fugido quando pequena do Irã, Helly Luv é hoje perseguida pelo ISIS e repreendida por muçulmanos conservadores, além de ser a prova do alcance que a música pop tem não só como entretenimento, mas como denúncia política. Seu canal no YouTube tem atualmente mais de 5,5mi de visualizações. Ela concedeu no ano passado uma entrevista muito interessante para a Vice americana.

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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