Baseado em Fatos Reais não cumpre seu papel como terror psicológico

 

Diretor aclamado de filmes consagrados e ganhador do Oscar de Melhor Diretor em 2003 por O Pianista (The Pianist, 2002), o nome de Roman Polanski tem grande peso na direção de um filme. Espera-se uma obra que cause ao espectador emoções fortes e sentimentos à tona, no entanto o novo filme do diretor polaco, Baseado em Fatos Reais (D’après une histoire vraie, 2018), é insatisfatório e desanimador.

Na trama, somos apresentados à protagonista Delphine (Emmanuelle Seigner), uma escritora de sucesso que teve sua última obra dedicada à sua mãe. Durante a sessão de autógrafos desse novo livro, conhecemos a jovem encantadora e linda Elle (Eva Green) que se apresenta como uma fã de Delphine. A partir daí é forçada uma amizade entre as duas, que se constrói através da fragilidade emocional da protagonista e de uma tensão amorosa pouco explorada.

A maneira pela qual Polanski submete a interação delas na trama é errônea, a relação erótica não se apoia e é inexistente uma resistência e desconfiança a respeito de Elle. Utilizando-se como justificativa a instabilidade emocional da protagonista – que é estruturada de maneira incoerente – somos surpreendidos precocemente com a jovem fã fazendo parte da vida de Delphine: morando juntas, respondendo e-mails importantes e até mesmo se apresentando em um evento para estudantes de uma escola como se fosse a própria Delphine.

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A misteriosa Elle pedindo um autógrafo à sua ídola Delphine. [Divulgação]

É utilizado a todo momento como recurso de nexo para a relação tão próxima de Elle ao longo da trama a necessidade da criação de uma obra literária de Delphine, que se supõe que ela esteja desenvolvendo em segredo.

Após a protagonista cair da escada e ter sua perna imobilizada por algumas semanas, as duas decidem morar juntas na longínqua casa do companheiro amoroso de Delphine. Com o anseio e necessidade de criar um livro, a protagonista vê então a oportunidade de escrever sobre a vida de Elle, que começa a falar sobre suas memórias ao longo da viagem.

Já no final da obra cinematográfica, após maçantes cenas de convívio e diversos ataques por parte de Elle – que se mostra mais desestabilizada e inquieta – à Delphine, é então revelado ao espectador o grande “segredo” do filme, que em decorrência do debilitado roteiro, já era esperado e não impressiona.

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A protagonista, Delphine, em uma das poucas cenas com aparência um pouco mais serena. [Divulgação]

Baseado em Fatos Reais é um terror psicológico que não cumpre seu papel. O roteiro fraco e confuso não consegue achar uma vulnerabilidade na mente humana e não causa desconforto e incômodo. As atuações fracas contribuem para o desempenho insatisfatório da obra – os atores não conseguem expressar angústia e a aflição necessária. Ao final da película, são forçados momentos de maior tensão entre as personagens que não causam nenhum abalo moral ao espectador. Polanski erra feio em seu novo filme, com instabilidade e falta de coesão o resultado é desanimador e passa longe da originalidade do diretor polaco.

 

Baseado em Fatos Reais estreia dia 12 de abril nos cinemas. Confira o trailer:

por Guilherme Roque
guilhermeroque@usp.br

 

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