Blade Runner 2049 honra e se emancipa do original

“Nascer é ter uma alma”. Nessas cinco palavras ditas pelo policial K se encontra o mote de Blade Runner 2049 (2017).

Trinta anos após os eventos do primeiro filme — Blade Runner  (1982) —, a história se passa em uma Califórnia cinza, sob uma ordem mundial baseada na mão de obra compulsória de androides. Buscando a solução dos problemas enfrentados com os Nexus 8, Wallace (Jared Leto) adquire a indústria Tyrell e desenvolve uma nova geração de replicantes.

Blade Runner

Imagem: reprodução

O policial K (Ryan Gosling), do Departamento de Polícia de Los Angeles, é um blade runner dessa nova geração, encarregado de caçar e eliminar modelos antigos de androides, foragidos. Em uma de suas missões, K se depara com um segredo substancial: uma replicante havia ficado grávida e parido uma criança. O fato inédito seria capaz de lançar o que havia restado da sociedade em completo caos, fomentando uma guerra entre humanos e replicantes. A tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envia para achar e destruir a criança e qualquer prova de que havia existido.

Ao longo de uma longa e acidentada busca, agravada por danos em arquivos, decorrentes de um blecaute, K encontra rastros que levam a um ex-oficial blade runner, Rick Deckered (Harrison Ford), desaparecido há mais de trinta anos. Quanto mais perto K chega da singular criança, mais perguntas surgem, assim como mais respostas que ele preferiria não ditas. Enquanto isso, Wallace mantém sua replicante favorita, Luv (Sylvia Hoeks), no encalço do oficial, a fim de obter o segredo da reprodução de replicantes.

A memória, como o filme a pinta, é revivida pelo sentimento, e pode revelar mais do que pretende.

Blade Runner

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É inevitável fazer comparações ao Blade Runner original. Assistir ao 2049 é sentir a névoa e aridez cinzentas, mas perceber que há mais tons de amarelo em mais cenas. É perceber o frio das cenas de chuva, mas sentir que esse frio não é tão incômodo. É enxergar uma Torre de Babel em que todos falam línguas diferentes, possuem sotaques diferentes, mas se entendem. É observar o caos encaixotado, quadrado da cidade, mas ver que está coberta de pó. E quase tossir. Assistir a Blade Runner 2049 é ter discernimento para separá-lo do primeiro filme, apesar de ser sequência, e apesar da história apresentar certas continuidades.

Partindo desse princípio, Blade Runner 2049 é uma bela obra. É visualmente deslumbrante, possuindo desde cenas aéreas frias de infinitas estufas californianas a paisagens de um laranja radioativo em Las Vegas, no estilo dos desertos em Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015). É narrativamente agradável, contando com o carisma de Ryan Gosling e com a trama bem construída. E, além disso, honra o primeiro filme, mas não como uma reinicialização fraca: como uma nova história, com novas ideias e propósitos. É uma primorosa adequação ao século XXI.

Blade Runner

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Contudo – e é por isso que utilizei acima a palavra “inevitável” –, é difícil assistir a Blade Runner sem ouvir “Blade Runner”. A trilha de Vangelis se tornou símbolo do filme de 1982, e o elemento visceral de realmente infligir sentimentos no espectador. Embora a trilha do novo filme seja essencial para a construção de sua narrativa, percebe-se a ausência da melancolia e o desalento que Vangelis conseguiu produzir com tanta delicadeza. Além da composição de Jóhann Jóhansson, o longa conta com clássicos dos anos 1950 e 60 na retratação do passado.

Somado a isso, há também um elemento sentimental que é ligeiramente forçado em 2049, enquanto é tão bem desenvolvido no original. Os conflitos internos, dor e esperanças de K são bem representados por Ryan Gosling, mas algo falta nas relações interpessoais que não faltou em Blade Runner. Talvez seja culpa da nostalgia, mas talvez seja apenas um Je ne sais quoi.

Apesar de tudo, e por causa de tudo, é com maestria que o diretor Denis Villeneuve realiza a sequência Blade Runner 2049. É um filme que leva a si mesmo a sério, mas ainda mais seu tema, e não pretende ser ou se equiparar ao original: caminha por si próprio. A mentalidade para assisti-lo é de desapego do passado. Ele dá saudades de Blade Runner, mas planta curiosidade do quê – e se – virá a seguir.

Blade Runner 2049 estréia hoje, dia 5 de outubro. Confira o trailer abaixo:

por Amanda Péchy
amandapechyduarte@gmail.com

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