Blade Runner: a criação do universo cyberpunk

Blade Runner, O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) é uma referência para o gênero da ficção científica no cinema, tendo disseminado mundialmente o então recente universo cyberpunk, o qual incorpora também tendências de filmes noir. Dirigida por Ridley Scott e estrelada por Harrison Ford, a película trata de uma distopia resumida pela máxima “high tech low life”, na qual a grande metrópole futurista tecnológica convive com uma super população pobre e com a alta criminalidade. A história é adaptada do livro Androides sonham com ovelhas elétricas? (Do androids dream of electric sheep?, 1968), de Philip K. Dick. Depois de 35 anos, o longa volta a atrair atenção da mídia com o lançamento da tão aguardada sequência Blade Runner 2049, em outubro de 2017.

Na história, os Replicantes são androides muito semelhantes à raça humana, desenvolvendo até mesmo sentimentos. Usados como escravos na exploração de novas galáxias e novos mundos, eles se tornaram ilegais na Terra após uma tragédia na qual alguns Replicantes se rebelaram e mataram muitos humanos. Um Blade Runner é um oficial da lei responsável por caçar e “aposentar” esses androides.

Para demonstrar de maneira lúdica um pouco dos aspectos técnicos, criativos e filosóficos, será simulado, neste texto, o teste de Voight-Kampff, comum entre os Blade Runners. Ele consiste em avaliar as reações de uma pessoa através de uma breve narração fictícia, acrescida de uma indagação final sobre o comportamento dessa pessoa caso ela estivesse dentro da narrativa. Através das reações, detectadas por um equipamento, é possível identificar se a pessoa é humana ou Replicante.

Todas as narrativas a seguir se baseiam no universo distópico de Blade Runner e cada detalhe expõe uma característica do clássico. Você, leitor, será imerso em três narrativas distintas para refletir sobre elas, através das perguntas finais.

Você acorda em sua cama. Você é um Blade Runner. O ambiente está escuro. A única fonte de iluminação são os raios de sol fatiados, em formato de lâminas de luz, pelas persianas.  A constante e moderada fumaça do ambiente distópico e noir intensifica esse efeito.

Em sua sala há uma mulher que nega ser uma Replicante. Você não tem o seu equipamento para fazer o teste de Voight Kampff, mas você sabe outra forma diferenciar um Replicante de um humano. A principal diferença é que eles vivem por apenas quatro anos. Todas as memórias que um Replicante crê serem de seu passado mais distante foram implantadas artificialmente. A mulher clama uma infância da qual você sabe a verdadeira dona. Você desmascara a moça como uma Replicante.

Como você sabe que você não é um Replicante?

Está chovendo, sempre está. Desta vez, você é um Replicante com um mês restante de existência. Você está comendo yakisoba na calçada de um restaurante. A culinária e a cultura chinesa são muito difundidas nesse mundo futurista. Você consegue ver pelas placas e sinais pela cidade. Todos sempre em luz neon, e escritos em chinês de maneira hegemônica. Boa parte da superpopulação urbana, e classe baixa, é composta de asiáticos e seus descendentes.

O vapor do cozido molha o seu rosto. A luz suave na sua frente contrasta com os intensos neons atrás. Mesmo assim, tudo se encontra em tons azulados, como se a cidade fosse sempre iluminada por uma mesma luz azul escura. Um eterno anoitecer.

Subitamente, um Blade Runner te avista. Você corre. É difícil correr entre o povo aglomerado pela rua, mas o Blade Runner não pode atirar em você com tantas pessoas normais ao seu redor. Ele tenta e te acerta o braço. A adrenalina sobe e você acelera seus passos. A perseguição dura pouco, e você se perde no meio da multidão. Você se recorda da clandestinidade de sua vida. Você se recorda que tem menos de um ano de existência. Escorre uma lágrima pelo seu rosto, mas ela se perde em esquecimento entre as gotas da chuva. O mesmo acontecerá com a sua breve vida e poucas memórias.

Como é conviver com esse medo?

Nesta terceira e última narrativa, você volta a ser um Blade Runner. Você é convidado a ascender ao topo do prédio da Tyrell Corporation, uma empresa influente e responsável pela produção de androides, para se reunir com o fundador Eldon Tyrell. Ao chegar no último andar, ele está te esperando. Você se espanta com a riqueza e luxuosidade do lugar. A áurea de lá é muito poderosa: a luz em tudo antes brilhava azul se torna um alaranjado. Somente esse lugar é digno de tal iluminação.

Conversando com o fundador, você percebe a genialidade dele. Mas você sabe que Tyrell é o criador dos Replicantes, os quais se rebelaram, se tornando perigosos. Você o pergunta como ele não foi capaz de antecipar isso. Ele responde: Mais humano do que o homem, é assim como vemos as nossas criações.

Você acredita que apenas essa razão responde sua dúvida?

Para se informar de maneira mais aprofundada sobre os principais aspectos do desenvolvimento técnico do filme, é interessante assistir ao vídeo acima, do canal CinemaTyler de Youtube. Mas, isso não dispensa a experiência de assistir a uma das obras cinematográficas que definiu o sub gênero cyberpunk da ficção científica, menos ainda à leitura do romance de Philip K Dick.

Tendo assistido ao filme de 1982, ou apenas lido este texto, há mais uma última questão desta simulação do teste de Voight Kampff:

Você está no ano de 2017. Você está em frente a um computador (ou talvez a um celular) e lendo uma matéria sobre Blade Runner no site do Cinéfilos da Jornalismo Júnior (ECA-USP). Você se depara com o seguinte vídeo:

Você enxerga melhor os principais temas e características do clássico longa agora?

Por Caio Mattos
caiomattcardoso@gmail.com

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