Brown, Jackie Brown: Tarantino e o freio de mão

Daqui a cinquenta anos, ainda serão poucos os que acham Jackie Brown (idem, 1997) o melhor filme do cineasta norte-americano. Isso se lembrarem do diretor até lá. A posteridade será cruel com o filme estrelado por Pam Grier e Samuel L. Jackson; talvez a culpa seja menos dessa homenagem ao gênero blaxploitation do que da filmografia de Tarantino, que inclui obras-primas como Pulp Fiction (idem, 1994) e Bastardos Inglórios (Inglourius Basterds, 2009).

Adaptado de um livro de Elmore Leonard, o roteiro conta como a aeromoça Jackie Brown (Pam Grier) fica no fogo cruzado entre Ordel Robbie (Samuel L. Jackson), traficante de armas, e um policial que o investiga (Michael Keaton), após Jackie ser pega contrabandeando dinheiro e cocaína.

O filme parece um distanciamento de Tarantino em relação a Pulp Fiction, o longa anterior. Consagrado com seu primeiro Oscar de Melhor Roteiro Original e com a Palma de Ouro em Cannes, o cineasta puxa o freio de mão nesse novo trabalho. Preocupa-se menos com referências pop e frases de efeito para se concentrar em atuações, diálogos, ângulos.

Samuel L. Jackson é quem mais reflete essa postura. Longe do penteado afro do filme de 1994, ele ostenta uma cabeleira lisa e uma barba que dispensa comentários. Até a montagem sem linearidade cronológica, ícone tarantinesco, quase passa batida.

Divorciado dos excessos, vemos um raro filme sóbrio do cineasta queixudo. Essa marcha lenta destaca os atores, com suas performances de alto nível: Robert Foster, que vive Max Cherry, agente de finanças que beira o estoicismo; o próprio Samuel L. Jackson, ameaçador e patético ao mesmo tempo; e Pam Grier, habilidosa com o subtexto, como Jackie Brown.

Junto com a judia Shosanna (Mélanie Laurent), de Bastardos Inglórios, e a Noiva (Uma Thurman), de Kill Bill, Brown é uma das melhores personagens femininas do rol tarantinesco. Ela alterna a astúcia com a consciência da própria fragilidade, sem refugiar-se na vitimização. É impressionante a tridimensionalidade da personagem, equiparável à da Noiva; mesmo o longa de Jackie Brown tendo quase a metade da duração dos dois Kill Bill juntos.

Entretanto, o que pesa no filme é o seu ritmo. Os diálogos fluem, as personagens ora se atracam, ora se abraçam, cenas inusitadas e marcantes passam; o andamento não cai bem. Há algo de truncado aqui, diferente do frenético Cães de Aluguel (Reservoir dogs, 1992) e do caleidoscópico Pulp Fiction.

Com cinco anos de carreira, o cineasta americano nos dá a impressão de ainda experimentar quais ferramentas lhe agradam e quais deve aposentar. Não à toa, o intervalo entre esse filme e o primeiro Kill Bill foi de seis anos. Sedimentação de influências? Concentração de recursos criativos?

Fosse feito hoje, Jackie Brown seria mais enxuto, ou mais histriônico; talvez ganhasse em ambas as hipóteses. O filme não é paródico e histérico o suficiente para relevarmos excessos de Tarantino, como a participação quase nonsense de Robert De Niro ou uma gratuita câmera dividida ao meio, com dois personagens em situações distintas em cada parte. Mas também não é grave o suficiente para tirar a expectativa de vermos metralhadoras e mexicans standoff (quando as personagens se apontam com igual probabilidade de matar e serem mortas).

Por Henrique Balbi
henriquebalbi92@gmail.com

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