Bukowski: do papel as telas, e o caminho inverso

por Maria Beatriz Barros
mabi.barros.s@gmail.com

Conhecemos Charles Bukowski por sua escrita obscena, seus poemas ébrios e livros sobre a dura realidade das classes baixas nos Estados Unidos, durante a segunda metade do século XX. Porém, o que poucos sabem é a presença do escritor americano também nos cinemas. Entre adaptações e roteiros originais, o autor americano envolveu-se com a sétima arte uma série de vezes, com destaque para Crônicas de um Amor Louco (Storie di Ordinaria Follia, 1981), Factótum – Sem Destino (Factotum, 2005) e Barfly – Condenados pelo Vício (Barfly, 1987).

Os alteres-ego

A obra de Bukowski é montada em cima dos alteres-ego do autor. Ele não teve uma vida fácil, sofria abusos físicos e psicológicos de seu pai quando criança, muito jovem tornou-se alcoólatra. Chegou a estudar dois anos de jornalismo na Faculdade da Cidade de Los Angeles, mas abandou o curso. Depois disso, teve diversos empregos ordinários, até, de fato, começar a sustentar-se como escritor.

O mais famoso alter ego de Bukowski é Henry Hank Chinaski, protagonista das obras Mulheres, Misto Quente, Factótum e Hollywood, entre outras. Retratado como um anti-herói, Chinaski é um alcoólatra egoísta, que vaga de emprego em emprego, e de mulher em mulher. Existem, contudo, outros alteres-ego do autor, todos na mesma linha de Chinaski. A maioria dos acontecimentos da vida destes personagens são baseadas em experiências próprias do autor, muitas vezes fielmente reproduzidas.

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A questão dos alteres ego trazem tanto a literatura quanto ao cinema de Bukowski um caráter semiautobiográfico.

Do papel as telas

A obra Ereções, ejaculações e exibicionismos inspirou o filme italiano Crônicas de um Amor Louco (Storie di Ordinaria Follia, 1981), que leva o nome do primeiro volume da obra. Na produção do diretor Marco Ferreri, somos introduzidos a outro alter ego do velho Buk, Charles Serking (Bem Gazzara), um poeta alcoólatra que vive no submundo de Los Angeles e tem as mais bizarras relações sexuais. Um dia, o escritor conhece a intensa prostituta Cass (Ornella Muti), por quem se apaixona e passa a viver um autodestrutivo romance.

 

 

Factótum – Sem Destino (Factotum, 2005), se baseia na obra homônima de Bukowski, a segunda da “saga” baseada em sua trajetória como escritor, sob o alter ego de Henry Chinaski (junto com MistoQuente e Hollywood). Além de mostrar as características típicas do protagonista, alcoolismo e volubilidade quanto as mulheres, o filme foca nos diversos empregos que o anti-herói tem enquanto tenta a vida como escritor, dos quais é frequentemente demitido.

Na produção de Bent Hamer, o ator Matt Dilion, que dá vida a Chinaski, interpreta com excelência o lado amargurado do personagem. Tal ressentimento é fruto dos diversos “nãos” de editoras e revistas a seus textos, da impossibilidade de ganhar a vida como escritor. Enquanto isso, ele precisa, de alguma forma, se sustentar, nem que seja às custas das mulheres com quem se relaciona.

 

Da tela ao papel

       

       Já como um autor consagrado, Bukowski recebeu o pedido do diretor francês Barbet Schroeder para roteirizar uma produção sua. Surge então Barfly – Condenados pelo Vício (Barfly, 1987). O roteiro é liberado antes da estreia do filme, com ilustrações do próprio autor, que imita Hitchcock, e aparece silenciosamente em uma das cenas do filme.

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Ao estilo do cinema cult dos anos 80, a produção traz, de novo, Henry Chinaski como protagonista. Dessa vez, o foco do enredo é nos fatores que inspiram o alter ego de Bukowski a escrever suas brilhantes histórias, como o meio em que ele se insere, seu alcoolismo e seus relacionamentos volúveis.

Logo no início, enquanto vaga pelos bares de Los Angeles, Chinaski, interpretado esplendidamente por Mickey Rourke, conhece Wanda Wilcox (Faye Dunaway), com quem logo vai morar. O protagonista nunca deu importância ao sonho americano ou qualquer ambição do gênero. Ele passa o dia bebendo “whisky com água”, e esporadicamente, tem brainstormes que o levam a escrever histórias e poemas, que manda para revistas e editoras, sem muito sucesso.

 

 

A experiência de Bukowski como roteirista de Barfly – Condenados pelo Vício, rendeu mais uma obra do autor: o livro Hollywood. Na obra, o autor americano relata o processo de produção do filme, como a escritura do roteiro, as filmagens, e faz uma sátira veemente a indústria cinematográfica de Hollywood. É curiosíssimo, pois o livro é narrado sob o alter ego Henry Chinaski, que também é o protagonista de Barfly.

As produções cinematográficas em questão fazem jus a obra de Charles Bukowski. Os fãs da literatura do velho Buk não se decepcionarão ao ver Henry Chinaski no cinema, e aqueles que ainda não conhecem o trabalho incrível deste escritor, os filmes serão uma ótima iniciação a ele.

 

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