“Buscando…” é um suspense que, de tanta agonia, te envolve

O seu celular. Pense no seu celular. Todas suas mensagens, e-mails, lembretes, interações em redes sociais. Agora pense no seu notebook (caso tenha, se não tiver, imagine). Replique todas as funções do celular. Mentalmente. As chamadas de vídeo, os arquivos de toda uma vida. O suspense se passa exclusivamente nesses dois aparelhos.

Apostando em uma pegada totalmente digital (no quesito de telas de dispositivos móveis portáteis como smartphones e notebooks), o thriller Buscando… (Searching…, 2018) é capaz de ser cômodo até mesmo aos menos acostumados com as novas tecnologias. Excepcionalmente tudo é mostrado como se estivéssemos manuseando nossos próprios aparelhos. E isso torna o envolvimento com o protagonista David Kim (Jhon Cho) ainda maior na procura da sua filha que sumiu. Sendo assim, Buscando… é repleto de angústias, drama e um gostinho de querer saber o que vem adiante, com um suspense correto e não forçado.

O longa se inicia tentando mostrar uma linearidade da vida da desaparecida, Margot Kim (Michelle La), de apenas 16 anos. Seus passos como criança, registros dos primeiros dias de aula, tudo está devidamente documentado em vídeos. Nota-se que é um hábito de toda família, até então composta por três membros. A mãe, Pamela Mam Kim (Sara Sohn), é diagnosticada com câncer, o que deixa todos fragilizados. Ela vem a falecer com uma sequência incomum: não há funeral, nem aparelhos hospitalares com sons contínuos, existe o adiamento da volta para casa que Margot fazia no seu calendário virtual, até que ela exclui o “evento”.

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Margot Kim, interpretada pela jovem atriz Michelle La, desaparece e deixa apenas rastros virtuais [Foto: Elizabeth Kitchens/Sony]

Com um começo para lá de ideal, ele será crucial para entender (ao menos parte) alguns motivos que levaram Margot a desaparecer. Após conversar com o pai numa noite e dizer que estava em um grupo de estudos, perdem-se completamente seus sinais de contato. Porém, isso só fica claro quando ela liga para o pai duas vezes em chamada de voz e uma de vídeo, sem sucesso. Seu pai, ao acordar, tenta entrar em contato, mas também não consegue. Percebendo a gravidade do caso, o senhor Kim liga para a polícia e registra seu boletim de ocorrência.

Passadas 37 horas do último sinal da filha e seguindo todas as pistas possíveis, David vai ao único lugar que ninguém tinha ido: o laptop de Margot. Em busca de rastros, ele começa a vasculhar as redes sociais da jovem e fica surpreendido por não conhecer a própria filha. A cada pista, a cada descoberta, ele fica desacreditado. A partir de agora ele não apenas está em busca de sua primogênita, ele está descobrindo quem ela é verdadeiramente. Com a detetive Rosemary Vick (Debra Messing) assumindo o caso do desaparecimento, ele tem todo amparo da profissional, que sugere inclusive uma tentativa de fuga de Margot (jamais aceita pelo pai).

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John Cho interpretando David Kim, que na busca de sua própria filha, está descobrindo quem é ela verdadeiramente [Foto: Sebastian Baron/Sony]

Os e-mails, Facebook, Instagram, Tumblr e sites de livestreaming revelam uma adolescente solitária, não sorridente e reflexiva. O pai mapeia todas as informações possíveis e, a essa altura, a mídia já estava fazendo uma grande cobertura com entradas ao vivo (e transmissão para o espectador pelos sites das emissoras, pois nada acontece longe da tela do laptop).

Em uma crítica moderada às ações dos internautas, são mostrados comportamentos reais destes na rede global do sistema de computadores: hashtags de apoio nos Trending Topics do Twitter; hashtags de culpatização do pai; vídeos dos “amigos” da Margot chorando aos prantos em busca de likes, visualizações e inscritos no YouTube; publicações no Facebook também em busca de likes. Tudo muito real. Nesse ponto percebe-se a carga realística ainda maior, pois em eventos diversos que acontecem no Brasil e no mundo, é exatamente isso que ocorre (chuvas de declarações; procura de um culpado; “famosização”).

A solidão da procurada tinha uma explicação, das várias possíveis. Durante os últimos dois anos, período em que sua mãe morre, seu pai simplesmente não conversa sobre o assunto. Um detalhe delicado que revelará a fragilidade da jovem. Em certos momentos, há na tela o pai digitando que sente orgulho da filha e em seguida “sua mãe também se orgulharia”. Mas por medo ou por não querer tocar no assunto, ele acaba apagando a mensagem antes de enviar. A constatação disso é maior quando ele confronta seu irmão Peter Kim (Joseph Lee), que decide falar para ele o porquê de ele não conhecer a própria filha.

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A imprensa fez grande cobertura do caso, David Kim fazia apelos para qualquer informação sobre a filha [Foto: Elizabeth Kitchens/Sony]

Mantendo sua sanidade na maior parte das vezes (apesar de pequenos surtos esporádicos), é o pai que guia todos grandes passos das investigações. Até que a detetive Vick soluciona o caso. Ao menos para ela e para a mídia. David Kim estava sempre a dois cliques de descobrir vestígios valiosos do paradeiro da filha. É perceptível que a essa altura ele já não conseguia acreditar em todos. Ainda bem, pois sua dúvida e seu olhar minucioso seriam essenciais desse momento em diante.

De forma definitiva, esse suspense faz jus à categoria e é completamente rico em detalhes que envolvem o público de uma forma inexplicável. Quando menos se esperava, acontecia um fato importante. Algo novo surgia e você estava ali, aflito e querendo saber o que resultaria tal descoberta.

Tudo que ocorre é de suma importância para a construção da história. Nada passa na tela por acaso. Um ponto positivo, pois não há a expectativa de algo acontecer e isso te frustar depois, quando o evento simplesmente é ignorado (como ocorre em outros longas). Os pontos são costurados e chegam ao momento em que tudo faz sentido.

Esse filme merece muito ir para ao menos duas categorias do Oscar 2019: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator (a brilhante atuação de John Cho, que nasceu na Coreia do Sul, não deve ser irreconhecida). Talvez quem vos escreve esteja superestimando demais, mas se o filme já foi premiado em janeiro no Festival de Cinema de Sundance 2018, com o NEXT Audience Award, devemos esperar tudo.

Buscando… é um suspense que te deixa com agonia e é justamente essa sensação que te faz querer assistir o filme até o fim. Rico em detalhes, dos técnicos até os de atuação, está em outro nível de produção desafiadora e não se deixou levar por isso.

Sua estreia está marcada para o dia 20 de setembro e você pode conferir um pouco mais no trailer abaixo.

por Caio Santana
caiosantana@usp.br

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