Cartas para um Ladrão de Livros mostra que todos têm uma história única para contar

Se tem uma coisa que Hollywood nos ensina é que o roubo de obras de arte raras em massa é trabalho para uma equipe de inúmeros ladrões, cada um com um conjunto específico de habilidades e que requer meses de planejamento. Na verdade, não é bem assim. O Brasil já teve sua própria série de roubos de artigos desse tipo, e o responsável era apenas uma pessoa, Laéssio Rodrigues de Oliveira, maior criminoso do gênero da história do país. No documentário Cartas para um Ladrão de Livros (2018), o diretor e jornalista Carlos Juliano Barros se propõe a contar a história de Laéssio de um modo pessoal, muitas vezes dando total liberdade ao personagem central para dizer o que vem na cabeça.

O nome do filme remete a uma série de correspondências trocadas pelo diretor e o protagonista do documentário enquanto este se encontrava em cárcere. Estas cartas foram importantes para a aproximação entre os dois e para o estabelecimento de uma confiança mútua, o que possibilitou que o filme pudesse contar a história do prisioneiro.

Cartas para um Ladrão de Livros 01

Divulgação/Boutique Filmes

Assim como seus feitos, a motivação original de Laéssio também é um tanto peculiar. Muito fã de Carmen Miranda, jurou que colecionaria tudo relacionado à cantora e, para cumprir a promessa a si mesmo, precisou infringir a lei vez ou outra, já que alguns itens eram pertencentes a museus. Vendo como era fácil roubar artigos raros de museus e bibliotecas, e cada vez mais envolvido com o mercado negro das obras de arte, Laéssio passou a furtar para vender – ou como diz em certo ponto: “Agora eu coleciono dinheiro”. A partir disso, Cartas para um Ladrão de Livros conta o auge e a decaída do protagonista, sempre intercalando com depoimentos de pessoas ligadas a Laéssio, dando não apenas um toque de dinamicidade à história mas oferecendo vários pontos de vista diferentes sobre o caso.

Talvez o maior trunfo do documentário seja o próprio ladrão de livros. Sendo, evidentemente, a pessoa que mais aparece durante o filme todo, Laéssio é o típico criminoso sedutor e bem-humorado, quase como se tivesse vindo direto de Onze Homens e um Segredo (Ocean’s Eleven, 2001). De origem e aparência humildes, o espectador muitas vezes se surpreende com o conhecimento e inteligência que alguém que ganhava a vida do furto possui. Conhecedor das artes, Laéssio sabia muito bem as obras que estava roubando, além de fazer críticas ferrenhas à desigualdade social e ao jeito que nosso país funciona.

Cartas para um Ladrão de Livros 02

Divulgação/Boutique Filmes

Por causa desses traços, é difícil não se encantar pelo personagem de Cartas para um Ladrão de Livros, mesmo considerando seu estilo de vida. Difícil, mas não impossível. Apesar do carisma, Laéssio não demonstra remorso pelos seus atos e, egoísta, procura justificar seus roubos com uma causa nobre. Isso, na verdade, é mérito do filme, que consegue capturar todos os lados do personagem, evitando uma idealização exagerada. Consegue, inclusive, capturar um lado infantil e brincalhão de Laéssio em uma cena um tanto quanto perturbadora envolvendo uma mala de viagem e muitas garrafas cheias de urina.

 

Cartas para um Ladrão de Livros estreia dia 01 de março nos cinemas. Assista ao trailer abaixo:

por Bruno Menezes
brunomenezesbaraviera@gmail.com

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