Cinema em Pernambuco: um Brasil à parte

por Lidia Matos e Mariana Gonçalves
lidiamcapitani@gmail.com e mariawna.v@gmail.com

Era 1992 quando Fred Zero Quatro, vocalista da banda Mundo Livre S/A, escreveu o manifesto “Caranguejos com cérebro”, texto-chave para a compreensão do Manguebeat. O movimento, que surgira em Pernambuco no ano anterior, foi marcado principalmente pela produção de um tipo de música que unia elementos culturais regionais com os da cultura pop. Seus principais expoentes, como Chico Science & Nação Zumbi e a própria Mundo Livre S/A, mesclaram, nos álbuns da época, o maracatu e a ciranda com o rock, o hip hop, a música eletrônica. Seu objetivo, segundo o manifesto, era “estimular o que ainda restava de fertilidade nas veias do Recife”, cidade que, na época, era cenário de problemas econômicos, sociais e criativos – e também a quarta pior do mundo para se viver.

Lançado, o Manguebeat reconquistou o lugar de Pernambuco no cenário musical brasileiro. Chico Science & Nação Zumbi chegaram a tocar até mesmo em Nova York. Dessa maneira, reanimada a produção cultural pernambucana, nomes como Hilton Lacerda, Claudio Assis e Lírio Ferreira, conhecidos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tiveram chance de se articular e dar nova vida ao cinema local, estagnado havia décadas. O primeiro filme a ser feito por eles foi Baile Perfumado (1997), escrito por Lacerda e digirido por Ferreira. A partir de então, surgiria em Pernambuco uma série de outros trabalhos abraçados pela crítica, como Amarelo Manga (2003), Árido Movie (2005) e Cinema, Aspirinas e Urubus (2005).

Conforme se organizavam, representantes da sociedade civil e das instituições culturais de Pernambuco conseguiram fazer surgir, em diálogo com o poder público, novas políticas de apoio à produção cultural do estado. Instituído na forma de lei, em dezembro de 2002, criou-se o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), que já destinou mais de R$ 140 milhões à cultura pernambucana – R$ 11,5 milhões deles investidos, em 2013, apenas no cinema. Por meio de editais, lançados anualmente, artistas e produtores de diversas áreas têm a oportunidade de apresentar seus projetos ao Fundo e receber o financiamento. O Funcultura tem sido o principal meio de de fomento e difusão da produção cultural de Pernambuco – que, por sua vez, tornou-se o estado brasileiro que mais investe no cinema desde sua criação. Kleber Mendonça Filho, diretor de cinema, chama os membros da política pernambucana de “aristocracia de esquerda”. “Os aristocratas [em Pernambuco] valorizam a cultura e os artistas”, disse ele, em entrevista ao IG.

O Funcultura em números, desde a criação até 2013. (Fonte: Portal Cultura PE – Governo de Pernambuco)

Criado o Funcultura, o cinema autoral e independente, que já tendia a crescer em Pernambuco nos anos 1990, pôde se qualificar, investido mais dinheiro em produção, distribuição e exibição dos filmes. Isso tem dado margem à diversificação do mercado cinematográfico brasileiro –  atualmente protagonizado por produções do Sudeste, muitas delas de caráter comercial – e também da forma de retratar o Brasil, quase sempre elitista e artificial, segundo Kleber Mendonça Filho. Na contramão, contudo, cineastas pernambucanos vêm se popularizando pela criação de filmes dispostos a revelar, originalmente, outros personagens e aspectos do País. Entre eles, destacam-se O som ao redor (2012) e Tatuagem (2013).

Tatuagem: dos tempos da repressão

Hilton Lacerda já era um roteirista conhecido quando lançou seu primeiro longa. Tatuagem (2013) é um drama ambientado em Recife no ano de 1978, em plena ditadura militar. O filme retrata uma trupe de artistas de cabaré, o Chão de Estrelas, que apresenta peças de teor sexual, político e de deboche, liderados por Clécio (Irandhir Santos). Paralelamente, conhecemos o soldado Arlindo Araújo (Jesuíta Barbosa), um jovem em formação, que namora a irmã de um dos artistas da trupe, o Paulo, mais conhecido como Paulete. Uma noite Arlindo vai até o cabaré à procura de Paulo e acaba conhecendo Clécio, por quem logo se apaixona.

A trupe Chão de Estrelas é inspirada num outro grupo de teatro que existiu durante esse período, o Vivencial Diversiones. Segundo Lacerda em entrevista para o site do próprio filme, a ideia não foi retratar de forma fiel o grupo, com suas peças e seus atores, mas representar seu espírito de anarquia e contestamento ao retratar tabus tanto sexuais quanto libertários. E a imagem que fica da trupe do filme é exatamente essa. Em meio a um contexto de repressão, os artistas vivem todos juntos em comunhão numa casa, sobrevivem de suas apresentações no cabaré e questionam todos os padrões sociais mais conservadores, em relação à família, aos relacionamentos e à sexualidade.

A trupe Chão de Estrelas. (Fonte: Divulgação)

O filme, apesar de retratar o relacionamento homossexual de Clécio e Arlindo, que depois é conhecido como Fininha, não se resume a isso. O enredo foca também no relacionamento conflituoso dos dois, já que um é um soldado do exército e outro é um artista que repudia as repressões da ditadura, entretanto, a ideia principal do longa é falar sobre o conceito de liberdade. Há vários aspectos da liberdade que são retratados aqui: o primeiro que se relaciona à sexualidade, ou à liberdade do corpo, o segundo quanto aos conceitos tradicionais de família e o último quanto à liberdade política.

A liberdade do corpo e da sexualidade é também apresentada na forma de amor controverso entre Fininha e Clécio, mas não somente. O modo como a trupe vive, ao estilo amor-livre dos anos 60, também questiona esses padrões. Os artistas em suas apresentações não possuem qualquer pudor, há nudez frontal masculina e feminina, sem falar das canções de seus musicais que falam sobre esses tabus sexuais propositalmente, para chocar e espantar os espectadores.

Clécio (Irandhir Santos) e Fininha (Jesuíta Barbosa) vivem um romance em Tatuagem. (Fonte: Divulgação)

Os valores de família também são questionados, principalmente pela personagem de Clécio, que é pai de um garoto de treze anos de um relacionamento heterossexual passado. Apesar de o pai ser abertamente homossexual tanto para o filho quanto para a mãe, os três convivem perfeitamente, inclusive o filho parece possuir uma ótima relação com seu pai e com o seu namorado, o Fininha. Em diálogos, percebemos que a educação do filho de Clécio foi sempre voltada a aceitar aquele estilo de vida e a opção sexual do seu pai, principalmente para ele saber como lidar com as críticas alheias.

Em último lugar, a liberdade política é retratada não apenas pela história se passar durante a ditadura militar brasileira e por se tratar de artistas subversivos, mas também pelo próprio relacionamento entre as personagens principais. O artista, por ser totalmente contra a ditadura, e Fininha, que precisa obedecer às ordens do exército e acaba sendo um daqueles que Clécio tanto repudia. A liberdade política é vista como algo pessoal, em que todos têm direito de pensar por si próprios e seguir suas ideologias, sem qualquer repressão.

O Som ao Redor: O Recife deste século

Kleber Mendonça Filho, nascido em 1968, é jornalista de formação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi conhecido primeiramente pelas críticas de cinema que fazia no Jornal do Commercio, na Folha de São Paulo e em seu próprio site, o CinemaScópio. Em 2013, no entanto, quando dividiu com Fernando Meirelles o espaço na lista do jornal britânico FinancialTimes, que elegia na época os 25 brasileiros que mereciam atenção, a razão não era o trabalho que sempre fizera nas redações, mas o que vinha exercendo, havia mais de dez anos, como cineasta. Sua última produção, lançada em 2012, no Festival de Roterdã, era então O som ao redor, seu primeiro longa de ficção. Um dos dez melhores filmes do mundo lançados no ano, segundo A. O. Scott, do New York Times.

O som ao redor foi filmado em 2010, na mesma rua onde Kleber morava, na zona sul do Recife. Ali, na ficção, são retratadas famílias de classe-média, entre elas a de seu Francisco (W. J. Solha), proprietário de mais da metade dos imóveis da área, e a de Bia (Maeve Jinkings), mulher que o filme mostra travar diariamente batalhas contra o cão do vizinho, cujos uivos são constantes. O cenário é de insegurança: um dos primeiros acontecimentos da trama é o arrombamento e o furto do aparelho de rádio do carro de Sofia (Irma Brown), garota que João (Gustavo Jahn), neto de Francisco, acabara de conhecer na noite anterior. Naquele mesmo dia, apresenta-se, no entanto, uma possibilidade: ao bater de porta-em-porta, selando contrato com os moradores, surge uma milícia composta por Clodoaldo (Irandhir Santos) e Fernando (Nivaldo Nascimento), que juntos se dispõem a oferecer segurança particular à população da rua, vigiando as redondezas durante a madrugada.

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Sofia (Irma Brown) e João (Gustavo Jahn) almoçam na casa de seu avô, Francisco (W. J. Solha). (Fonte: Divulgação)

“Uma coisa que me incomoda no cinema brasileiro é que muitos filmes abordam universos que o realizador não conhece”, disse Kleber em entrevista ao Autres Brésils. Na contra-corrente, no entanto, revela: não bastando filmá-lo na rua de casa, o diretor tirou O som ao redor, em parte, da própria mãe, Joselice Jucá. Historiadora, comentava com o filho sobre os diários de André Rebouças, que registrava os tempos da abolição. Ali ela via, Kleber diz, que “o Brasil fez muito pouco, ou quase nada, para receber milhões de novos cidadãos que antes eram escravos, e que com a abolição ficaram livres para continuarem presos no Brasil” – resultando naquilo que hoje, ainda evidente, ele chama de “um país  cordialmente racista”. Pernambuco – em especial o do cinema – é reflexo disso. Apesar de O som ao redor ser também um filme sobre a era pós-Lula – e, por um lado, citar algumas das prosperidades que o país, sobretudo as camadas mais pobres, conquistaram nesse período –, a tradição colonial, que ali fora forte, ainda persiste. O diretor afirma, com obviedade, que “a ideia do filme sempre surgiu de transpor um engenho pruma rua moderna da zona sul do Recife”.

Desde 2012, quando estreou em Roterdã, o filme percorreu mais de quarenta festivais mundo afora, além de ter sido premiado no Brasil – como na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Festival do Rio e no Festival de Gramado. O Ministério da Cultura chegou a escolhê-lo para disputar o Oscar 2014 na categoria “melhor filme estrangeiro”. Kleber vê o sucesso com muita surpresa. “Acho que Pernambuco é um grande mistério”, disse em entrevista ao G1. “Vejo com alegria e espanto esse cenário de produção onde ninguém tem projeto algum que queira conquistar o mercado, as bilheterias, e fazem filmes pessoais, autorais, que têm viajado muito no Brasil e no exterior, em curtas e longas-metragens”.

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