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Por Juliana Penna

A arte do obsceno é algo tão complexo quanto instigante. Não há reações nulas frente ao espetáculo do sexo. Especialmente quando este é representado em uma tela de cinema. Ou ela bela é sensual, ou é agressiva e permissiva demais. Em meio a essa polêmica dualidade, se estabelece a elite e o submundo da arte do sexo. A chamada antítese entre erotismo e pornografia não é menos controversa do que o tema de que ela advém.

Mas no que consiste essa distinção? Ela vai além do conceito de permissividade e de libertinagem, já que não se pode denunciá-los em uma cena de sexo sem se desvencilhar de valores sócio-culturais pré-adquiridos. Conformar-se, porém, que os limiares dessa dualidade eram tão flexíveis quanto as diferenças culturais entre povos não cessou jamais a discussão. Filósofos, semiólogos e lingüistas buscavam uma definição universal, inerente a humanidade como um todo.

Vários já tentaram defini-la em poucas palavras. Os estudiosos Roland Barthes e Jean Baudrillard classificavam pornografia como uma representação cujo fim era o sexo. Ou seja, o sexo como fim em si mesmo, em oposição ao erótico, em que a sensualidade era um caminho e não o objetivo. Mas toda a representação única do sexo deve receber o nome de pornográfico?

Para o crítico da Folha de S. Paulo e professor do curso de Artes Cênicas da USP, Luiz Fernando Ramos, isso não procede. Filmes como o de Nagisa Oshima “Império dos Sentidos”, por exemplo, em que não só há uma representação completamente explícita do ato sexual, mas também toda a carga artística é voltada para sua reflexão; não devem carregar o estigma de pornográfico. “Pornográfico é um filme pragmático, que como objetivo a excitação rápida do expectador”, afirmou.

Mas a condenação do pornográfico a uma função mercadológica também é muito questionada. A estudiosa Susan Sontag tenta reverter essa condição, encontrando potencial artístico em obras do gênero, sendo que muitas vezes obtinha sucesso. Mas se uma obra pornográfica pode conter teor artístico e a chamada obra erótica pode consistir na representação unitária do sexo, então a diferença aqui discutida não existe, e o debate aqui realizado não tem propósito algum.

Todavia, para Luiz Fernando Ramos, essa diferença existe e é mais profunda do que aparenta. “Pornografia é um gênero, enquanto erotismo é uma qualidade”. Portanto, não há antítese. Para o crítico, existem várias produções artísticas que mesclam os dois elementos. Entre elas as fotografias de Man Ray e os contos de Marquês de Sade. Filmes como “Nove Canções” (Michael Winterbotton, 2004) e o próprio longa de Oshima, comprovam isso.

Ele acredita, no entanto, que a distância entre elite e submundo dentro da representação do sexo tende a aumentar. Se na época de Marquês de Sade o moralismo e a religiosidade faziam o erótico e o pornográfico se confundirem em um só pecado, nos dias de hoje em que a exposição do sexo é tão deliberada, o erótico acaba se refugiando não no explícito, mas no que é velado, sutil, sugestivo.

A sétima arte, contudo, terá sempre a capacidade de reunir o erótico, o pornográfico e o romântico dentro de si. Sobre o suposto cuidado que o cinema deveria ter ao representar o sexo, o crítico adverte “Não deve haver cuidado. É a única forma de transmitir o sexo em sua temporalidade. Essa é uma vantagem que o cinema tem que usufruir”, concluiu.

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