Cinema no céu, na água e no ar!

Hugo Nogueira

Os trens começaram a circular no celulóide já na gênese da expressão cinematográfica. Colocando nas telas as primeiras cenas de perseguição e captura, The Great Train Robbery (Edwin S. Porter, 1903) foi o primeiro filme que congregou os gêneros western e aventura, sugerindo as vastas potencialidades comerciais até então inexploradas da arte cinematográfica. Daí em diante, trens continuariam sendo um tema excitante nas telas.

A General

A General

O senso de movimento fez de A General (The General de Buster Keaton, 1926) um dos mais divertidos e movimentados filmes de todos os tempos: ambientado na época da Guerra da Secessão, a produção coloca um estóico herói em ininterrupta ação enquanto tenta resgatar a General, a locomotiva roubada do título. A construção da Union Pacific Railroad, uma das maiores ferrovias norte-americanas, foi o tema de The Iron Horse (John Ford, 1924) e de Aliança de Aço (Union Pacific, de Cecil B. DeMille, 1939). Em O Expresso de Shangai (Shangai Express, de Josef von Sternberg, 1932), a travessia ferroviária de Pequim a Shangai no meio de uma revolta armada é protagonizada por exóticos personagens com destaque para duas desinibidas prostitutas (Marlene Dietrich e Anna May Wong). Cumpre recordar, também, o famoso trem Expresso Oriente que, o seu apogeu, fazia a rota Paris-Constantinopla e foi cenário de um surpreendente crime em Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, de Sidney Lumet, 1974, baseado no romance homônimo de Agatha Christie).

O cinema vai aos céus com Asas (Wings, de William Wellman, 1927), ambientado na Primeira Guerra Mundial

Asas

Asas

– a produção traz as mais espetaculares cenas de batalhas aéreas do cinema mudo e é, ainda hoje, um dos melhores filmes de guerra já produzidos. A fotografia aérea e as cenas de batalha entre aviões em Anjos do Inferno (Hell’s Angel, de Ben Lyon, 1930) também converteram esta produção num marco na história do cinema de aventura. Na Sétima Arte, contudo, o céu não foi o limite. A conquista espacial cinematográfica começou na alvorada do século XX com a delgada cápsula que levou os primeiros astronautas cinematográficos à Lua em La Voyage dans la Lune (de Georges Méliès, 1902). Foguetes espaciais voltariam à cena na série Flash Gordon (de Frederik Stephani, 1936) e em Daqui a Cem Anos (Things to Come, de William Cameron Menzies, 1936). As mais célebres espaçonaves cinematográficas, contudo, somente apareceriam muitas décadas depois: a nave comandada pelo computador HAL em 2001: uma Odisséia no Espaço (2001: a Space Odyssey, de Stanley Kubrick, 1968), a estação espacial de Solaris (Solaris, de Andrei Tarkovski, 1971), o comboio Nostromo de Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, de Ridley Scott, 1979), a nave que dá nome à produção Apollo 13: do Desastre ao Triunfo (Apolo 13, de Ron Howard, 1995), dentre muitas outras.

Os mares foram singrados por uma imensa frota de navios cinematográficos: o barco pesqueiro We’re Here em Capitão Coragem (Captains Courageous, de Victor Fleming, 1937), o barco mercante Glecairn em The Long Voyage Home (de John Ford, 1940, baseado na obra de Eugene O’Neill), o navio pirata Revenge em O

O Grande Motim

O Grande Motim

Cisne Negro (The Black Swan, de Henry King, 1942), o galeão Santa Madre em Pirata dos Sete Mares (The Spanish Main de Frank Bozarge, 1945), dentre muitos outros. O Grande Motim (Mutiny on the Bounty, de Frank Lloyd, 1935), por outro lado, foi baseado no histórico motim ocorrido em 1788 no H.M.S. Bounty devido ao tratamento cruel imposto aos marinheiros pelos oficiais da Marinha Britânica. O Gavião do Mar (The Sea Hawk, de Michael Curtiz, 1940), o qual tem a maior parte de sua ação centrada no navio Albatross, foi também frouxamente inspirado na derrota da Invencível Armada da Espanha pela Marinha Britânica de Elizabeth I. Eventualmente, o mais célebre dos navios históricos registrado no celulóide foi o encouraçado da frota do czar, o Príncipe Potemkin de Táurida, em O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potiomki, de Sergei Eisestein, 1925).

Naufrágios espetaculares constituem o clímax das aventuras marítimas do cinema. O desastre do navio negreiro William Brown, efetivamente, é o ponto culminante de Almas ao Mar (Souls at Sea, de Henry Hathaway, 1937), tanto quanto o soçobro do baleeiro Pequod constitui o ápice de Moby Dick (Moby Dick, de John Huston, 1956). Por outro lado, o naufrágio do Patna é o ponto inicial de Lord Jim (Lord Jim, de Richard Brooks, 1965) baseado no romance de Joseph Conrad e o mesmo pode ser dito do afundamento do H.M.S Torrin em Nosso Barco, Nossa Vida (In Wich We Serve, de David Lean e Nöel Coward, 1940). 20.000 Léguas Submarinas (20.000 Leagues Under the Sea, de Richard Fleischer, 1954) levou o cinema para o mundo subaquático com o primeiro submarino da literatura, o Nautilus, oriundo da obra de Julio Verne (Vingt Mille Lieues Sous les Mers, 1869.

Os andarilhos também tiveram largo espaço para caminhar nas telas como bem atesta Forrest Gump, o Contador de Histórias (Forrest Gump, de Robert Zemeckis, 1994). Contudo, de longe, a mais excitante das

As Minas do Rei Salomão

As Minas do Rei Salomão

aventuras andantes provavelmente foi a épica travessia entre feras e tribos primitivas pela selva africana em As Minas do Rei Salomão (King Solomon’s Mines, de Compton Bennett e Andrew Malton, 1950).

Há ainda que falar dos meios de transporte exóticos. Em A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around the World in 80 Days, de Michael Anderson, 1956), baseado também num livro de Julio Verne (Le Tour du Monde en Quatre-vingts Jours, 1873) os meios de locomoção que levaram os personagens pela França, Espanha, Suez, Índia, Sudeste da Ásia e Estados Unidos foram variados: um balão, um trem, um navio, uma carruagem, um elefante e até uma avestruz. A célebre e opressiva carruagem em No Tempo das Diligências (Stagecoach, de John Ford, 1939), as trágicas bicicletas em Ladrões de Bicicleta (Ladri de Biciclette, de Vittorio de Sica, 1948) e o tapete voador de O Ladrão de Bagdá (The Thief of Bagdad, de Michael Powell, 1940) foram igualmente meios pouco usuais de celebração do movimento nas telas.

O fascínio do cinema com o deslocamento no espaço reverbera a própria natureza cinética da Sétima Arte. O cinema é, essencialmente, a arte do fotograma em movimento. Celebrando a velocidade, a ação, o ritmo e a ruptura da distância, o cinema evoca, metaforicamente, o dinamismo de sua própria natureza. A arte cinematográfica, desde suas origens, teve no movimento uma matéria prima definitiva que lhe proveu de forma e conteúdo.

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