A história do cinema norte-coreano e as suas peculiaridades

O cinema propagandista é uma ferramenta muito utilizada por regimes ditatoriais. Na Coreia do Norte, a indústria cinematográfica conta com apenas quatro estúdios,  todos controlados pelo governo, e há a produção de diversos longas que contam sempre com o mesmo objetivo: a exaltação do país e de seu governante — que nunca aparece fisicamente nas produções, sendo apenas homenageado e louvado pelos personagens. Assistir aos filmes tornou-se uma das atividades preferidas dos norte-coreanos, que adoram o cinema nacional. Ainda que seja difícil saber ao certo quantos longas-metragens já foram produzidos no país, em 2001 a BBC contou que os estúdios cinematográficos produziam cerca de sessenta filmes por ano. A distribuição também sempre foi incrivelmente acessível: os longas eram exibidos em fábricas, fazendas coletivas e unidades do Exército

Um pouco da história do cinema norte-coreano

As produções norte-coreanas tiveram seu início no ano de 1949, com My Home Village (Nae kohyang,1949), filme que já apresentava os ideais que o governo pretendia repassar ao povo. Nele, o exército de Kim Il-sung (avô do atual governante da Coreia do Norte, Kim Jong-un) é retratado como o único responsável pela expulsão dos japoneses, que teriam sido extremamente abusivos e cruéis com os norte-coreanos. As cenas de introdução apresentam imagens da sagrada Montanha Baekdu, onde o primeiro reino coreano teve sua origem e que serviu como ponto estratégico para os norte-coreanos nos conflitos contra Japão e Coreia do Sul. Além disso, é um dos elementos que compõem o brasão de armas do país e um de seus maiores símbolos ideológicos, que também aparece em outros longas-metragens. A produção nacionalista ainda ignora completamente a importante participação das tropas da URSS e dos EUA no embate.

Cinema norte-coreano

Cenas de My Home Village (1949)

Depois, surgiram longas que tratavam da atuação da Coreia do Norte na Guerra da Coreia, que ocorreu entre os anos 1950 e 1953, e a reconstrução do país pós-conflito. Assim, foram produzidos Scouts (1953), em que o esquadrão norte coreano derrota os sul-coreanos, e Unsung Heroes (1978-1981), que por ter mais de vinte horas de duração foi lançado em várias partes e conta uma história de espionagem durante a guerra. Nesse último, há a participação de dois soldados americanos desertores, posteriormente feitos prisioneiros: Charles Robert Jenkins e James Joseph Dresnok, que se tornam bastante populares no país devido ao sucesso da produção. Durante a Guerra da Coreia também foram feitos diversos filmes que, além de terem propósitos ideológicos, tinham como objetivo incentivar a presença da Coreia do Norte no conflito. É o caso de Righteous War (1950).

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Cena de introdução de The Flower Girl (1972)

Os longas sobre a libertação do domínio japonês, no entanto, nunca pararam de ser feitos. Os dois de maior sucesso, inclusive, datam da década de 60. Ambos baseados em óperas creditadas à Kim II-sung, fazem parte das cinco maiores óperas revolucionárias. Sea of Blood (1969) é um perfeito exemplo da ideologia Juche, de tradução “autossuficiência”. Mentalizada pelo próprio Kim II-sung, trata-se da ideologia oficial do regime da Coreia do Norte e defende que o povo é a fonte da revolução e deve guiá-la. The Flower Girl (Kotpanum chonio, 1972), provavelmente o filme mais popular e querido da Coreia do Norte, conta a história do sofrimento de uma florista e de sua família nas mãos dos senhores de terra japoneses de uma maneira que beira o melodramático. É uma característica muito comum nos dramas coreanos, utilizada para que, no final, surja o exército norte coreano, que, em companhia do povo, põe fim ao domínio japonês. Essas produções tinham a preocupação de mostrar para o público como a vida no país era terrível antes de Kim II-sung, que é sempre representado de maneira heroica The Flower Girl recebeu reconhecimento internacional e foi a primeira produção norte-coreana a ser premiada em algum festival estrangeiro. Neste caso, recebeu o prêmio especial no Festival de Karlovy Vary, da Tchecoslováquia.

Mas nem todos os longas-metragens do país são do gênero drama ou falam diretamente sobre guerra. O Youth! (1994), por exemplo, é uma comédia situada na década de 90. Mesmo assim, o filme possui clara intenção propagandista: há cenas inteiras dedicadas a homenagear o governante do país (que nesse período era Kim Jung-II) e que falam de “deixar a bandeira de Kim II -sung pelo mundo” com o sucesso no Taekwondo ou nos esportes em geral. Portanto, mesmo quando há diversidade no gênero das produções, a mensagem continua a mesma.

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Pôster de Comrade Kim Goes Flying (2014)

Nas últimas décadas surgiram algumas parcerias com as indústrias cinematográficas de outros países, distanciando-se da propaganda bastante presente em outras produções da Coreia do Norte. São exemplos Comrade Kim Goes Flying (2014), comédia romântica anglo-belga-norte-coreana, e a animação Empress Chung (王后沈淸, 2005) baseada no folclore coreano e produzida por ambas as Coreias. Somando-se a isso, o estúdio de animação estatal SEK, responsável por Empress Chung, ocupa a 85° posição no ranking dos 100 estúdios mais influentes de todos os tempos e realiza vários pedidos de estúdios europeus de produção de animações, como Gandahar (1988), na França, e Tentacolino (2004), na Itália.

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Cena de Pulgasari (1985)

O sequestro

Percebe-se a importância da sétima arte para os governantes da Coreia do Norte, em especial para Kim Jung ll, fanático por cinema desde a adolescência. Porém, em determinado momento essa obsessão ultrapassou todos os limites. No final da década de 70, o futuro ditador estava insatisfeito com as produções cinematográficas e decidiu raptar o famoso diretor Shin Sang-ok e a aclamada atriz Choi-Eun hee, ambos sul-coreanos, para melhorar a qualidade das produções de seu país. Antes de finalmente conseguirem escapar em 1986, os dois tiveram que participar de diversOs filmes. A mais famosa delas foi Pulgasari (불가사리, 1985), dirigida por Shin Sang-ok e conhecida como a “versão coreana” de Godzilla. Assim, apesar da manutenção do tom propagandista e nacionalista nas produções, houve grande melhora em sua qualidade. Para o especialista em cinema norte coreano, Johanness Schönerr, “Shin conseguia usar fórmulas tradicionais da propaganda norte-coreana e transformá-las em grandes filmes”. Esse é o caso de longas como An Emissary of No Return (1984) e Salt (1985). O primeiro teve cenas gravadas no exterior, algo nunca feito antes no cinema da Coreia do Norte; já o segundo concedeu a Choi-Eun o prêmio de melhor atriz no Moscow Film Festival de 1985.

 

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Imagem do Festival de Pyongyang

Porém, o festival que realmente importa para os habitantes da Coreia do Norte é o Festival Internacional de Cinema de Pyongyang. Criado em 1987, ele era voltado para os países não alinhados, ou seja, que não se envolviam com o conflito entre EUA e URSS. Mais recentemente ocorreu uma maior abertura para filmes ocidentais. Entretanto. de acordo com Johanness Schönerr, em seu livro North Korean Cinema: A History, “o Festival Internacional de Cinema de Pyongyang é um grande evento propagandista e os estrangeiros que vão a esse evento são figurantes em grande show de propaganda”.

por Nathalia Giannetti
nathaliagiannetti@usp.br

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