Em que pé anda a produção cinematográfica russa nos últimos anos?

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O dia 14 de junho está cada vez mais próximo. Sendo assim, a Copa do Mundo já está às nossas portas, e o foco do mundo inteiro estará na Rússia! O grande tema será o futebol, mas muitos dos intrincamentos culturais desse país-continente ficarão em destaque. E, dentro desta cultura tão diversa, você já parou para refletir sobre como são os filmes produzidos na Rússia? Embora a escola cinematográfica russa seja periférica quando comparada às produções norte-americanas e francesas, ainda sim é muito tradicional, e produz uma grande diversidade de películas de boa qualidade, sempre em posição de prestígio nos grandes circuitos.

Os filmes russos recentes possuem tom cada vez mais crítico, deslocando-se do cinema saudosista do começo do período pós-soviético. (Imagem: Carlos Ferreira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

De toda forma, a análise do cinema que é produzido hoje em territórios russos é intimamente ligada a todo um processo de reformulação cultural, consequente da abertura política ‒  Glasnost ‒ e econômica ‒ Perestroika. A queda da URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, derrubou a limitação da produção artística ao Realismo Socialista, movimento que ”[…] por decreto, proibia o fazer artístico autônomo e submetia toda a produção cultural às diretrizes do Partido Comunista da União Soviética”, conforme explica a professora especialista em cinema russo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, FFLCH-USP, Neide Jallageas em seu ensaio Ativismo na arte pós-soviética: um projeto audiovisual do coletivo russo Chto Delat? / O que fazer?

O realismo socialista se assemelhava muito à  propaganda em diversos elementos. (Imagem: Reprodução)

De acordo com a professora Neide, durante esse período de repressão surgiu um “imaginário invisível”, produções subversivas e não oficiais, que limitadas pela censura, tiveram que se desenvolver rebuçadas do apertado controle do governo soviético. Com o fim do período comunista, não havia mais uma necessidade de encenar uma realidade paralela, otimista e representativa de um bem-estar popular que não necessariamente existia. Esses produtores do “imaginário invisível” surgiram então com muita força dentro do ambiente cultural russo: nomes como Serguei Prokófiev, Serguei Eisenstein e Dmitri Shostakóvitch, que foram importantes pioneiros do cinema russo e também vítimas da censura pública, voltaram a ser muito relevantes para a nova efervescência que surgia no país.

Em entrevista ao Cinéfilos, a professora responsável pela disciplina Cinema Russo na USP, Elena Vássina, indicou o surgimento de importantes nomes nesse movimento, alguns dos quais viriam a ser fundamentais na consolidação da cena atual, como Nikita Mikhalkov, Alexandr Sokurov, Andrei Konchalovsky e Pavel Lungin, todos diretores que receberam importantes prêmios por todo o mundo.

Em Sol Enganoso, Nikita Mikhalkov explora elementos dos blockbusters norte-americanos, sem deixar de lado seu antigo gosto pelo experimentalismo. (Imagem: Reprodução)

Em uma situação inicial, entre esses, o nome que recebeu um maior destaque foi Nikita Mikhalkov, que recebeu o Leão de Ouro por Urga (1991), e mais tarde ganhou o Grand Prix em Cannes, bem como o Oscar de melhor filme estrangeiro pela produção Sol Enganoso (Utomlionnie Solntsem, 1994), no qual também é o protagonista. De mais a mais, Mikhalkov fez um longa sobre o crescimento de sua filha, Anna dos 6 aos 18 (Anna: Ot Shesti do Vosemnadtsati, 1994), gravado por 12 anos, muito antes de Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014), película norte-americana com uma proposta muito parecida.

O diretor russo chama mais atenção por outros motivos atualmente, no entanto. Nos seus filmes, ele sempre deixa claro a sua frustração em relação à Rússia, que considera caótica após a perda dos parâmetros comportamentais ditados no período comunista. A pesquisadora Fabiana Morabito, em sua dissertação de mestrado, define a proposta Mikhalkoviana da seguinte maneira: “Assim como o presidente Vladimir Putin, cuja campanha política igualmente se assenta no orgulho que a Grande Guerra Patriótica deixou no imaginário coletivo russo, Mikhalkov intercede politicamente para ratificar sua visão político-ideológica”, sendo a “Grande Guerra Patriótica” como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial.

Uma semelhança absolutamente compreensível, uma vez que o renomado realizador em 2002 declarou publicamente considerar Putin como o líder que a Rússia precisa. Hoje, Mikhalkov é presidente de diversas organizações ‒ União dos Diretores, do Festival Internacional de Filmes de Moscou, do Fundo de Cultura, assim como da Academia Nacional ‒, o que muitos associam à sua amizade com o presidente russo. Na contramão de sua escalada burocrática, suas obras foram perdendo importância nos últimos anos, talvez pela opção do cineasta de gravar blockbusters, e utilizá-los como instrumento de convencimento ideológico.

Outros diretores aproveitam melhor da liberdade proveniente do fim da União Soviética, até hoje. Sokurov, por exemplo, ainda produz  conteúdo de qualidade. Talvez por ter sofrido um tanto mais com a censura: suas duas primeiras produções não puderam ser exibidas até a consolidação da Glasnost. É muito lembrado por ter gravado, em um único plano-sequência não editado, o filme Arca Russa (Russkyi Kovcheg, 2002), marcante principalmente por sua qualidade técnica. Em 2011 ganhou o Leão de Ouro por sua interpretação livre da obra de Goethe, Fausto (Faust, 2011), que foi muito bem recebida pela crítica, em razão da montagem característica do realizador, e depois pela originalidade da adaptação.

Sokurov é conhecido por sua ousadia ao lidar com a câmera. (Imagem: Reprodução)

Pavel Lungin, por sua vez, recebeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes logo no seu primeiro filme, Taksi-Blyuz (1990), e tomou residência na França por divergências políticas, de acordo com a professora Elena. Lungin ousou explorar, em seu filme Tsar (2009), a influência da igreja Ortodoxa sobre o Império Russo, o que a professora diz ser uma quebra de paradigmas, dado que, durante o período soviético, qualquer menção a religião era motivo de censura.

A animação de Alexander Petrov, O Velho e o Mar (Starik I More, 1999), adaptação do livro do escritor norte-americano Ernest Hemingway, foi a outra realização russa a ganhar um Oscar no período pós-soviético. Um forte tom característico da obra é a técnica utilizada por Petrov, de pintura sobre o vidro, que deixa ainda mais vívido o jogo entre realidade e devaneio, no embate do velho pescador cubano com o enorme peixe espada, que acaba fisgando.

Porém, o detalhe para o qual a pesquisadora Elena Vássina dá mais destaque é a produção de um cinema crítico à situação atual da Rússia, em contrapartida ao aparato estatal que patrocina filmes de seu interesse. A iniciativa independente vem ganhando muita força nos últimos anos, sendo Andrey Zvyagintsev ‒ de Leviatã (Leviafan, 2014), Sem Amor (Nelyubov, 2017) e O Retorno (Vozvrashchenie, 2003) ‒ o carro chefe desta tendência.

O realizador, figura carimbada nas premiações europeias, têm como tom marcante não só o debate existencial, com um encaixe universal, mas também duras críticas às políticas de Putin. Zvyagintsev não tem medo de associar autoridades e políticos à figura do presidente russo, de forma a simbolizar o arranjo burocrático estabelecido pelo governante, fora acusar os oligarcas que dominam o país.

O retrato de Putin sempre fica em evidência na sala do algoz e prefeito, Vadim (Roman Madyanov), em Leviatã. (Imagem: Reprodução)

O triste cenário de homofobia que acontece na Rússia nos últimos anos, que pode ser caracterizado pela lei que proíbe a “propaganda gay”, e também por outras atitudes do governo russo, também atingiu o cinema, contudo. O cineasta Kirill Serebrennikov ‒ de O Estudante ((M)uchenik, 2016) ‒ foi uma das ausências no Festival de Cannes deste ano dentre os concorrentes ao Palme D’or, preso por um suposto esquema de fraude em sua companhia de teatro Estúdio 7. Há suspeitas, todavia, de que a sexualidade do diretor, abertamente homossexual, esteja influenciando o julgamento.

Ademais, aconteceu um movimento dos cineastas russos em defesa do diretor ucraniano Oleg Sentsov. Ele é contrário à anexação da Crimeia à Rússia, e portanto, foi preso em represália. Recluso desde 2014 por acusações de terrorismo, o ucraniano recebeu a pena máxima de prisão de 20 anos, em 2015. As acusações são baseadas na sua participação nos protestos da Praça de Maidan em Kiev, um movimento pró-Europa.

Os trâmites judiciais receberam diversas críticas tanto da defesa do realizador, como do governo da Ucrânia. Dentre os cineastas que pediram a liberdade de Sentsov, constam personalidades pertencentes a todos os lados do espectro político, do liberal Zvyagintsev ao conservador Mikhalkov. A chegada da Copa do Mundo tornou-se mais uma frente a pressionar o governo russo a libertar o ucraniano, pois evidencia o caso para as pessoas do mundo inteiro.

Ambos eventos vêm fortalecendo a mobilização da categoria, e influenciando a criação de um cinema ainda mais crítico aos atuais moldes políticos russos, à medida que tentam usar da arte como ferramenta de protesto ‒ o que talvez possa ser traduzido pelas palavras da professora Neide em seu ensaio: “Vários artistas passaram a demonstrar o poder dessa invisibilidade para o apagamento de boa parte da história russa e cuidaram de retirar as camadas de verniz para identificar e demonstrar publicamente o que havia por baixo, buscando refrescar o imaginário de seu povo.” Trabalho que remanesce por meio da iniciativa desses novos diretores, que veem a arte também como forma de engajamento social.

por Pedro Teixeira
pedro.st.gyn@gmail.com

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