Com ritmo sensível e envolvente, Pendular convida o público para dançar

Em 1980, Marina Abramović apresentou em Amsterdã um de seus trabalhos mais ousados. Na performance, intitulada Rest Energy, a artista posicionava um arco e flecha apontando para seu peito, enquanto Ulay, seu companheiro na época, puxava do outro lado. Com o peso de seus corpos, os dois equilibravam-se de modo que, caso qualquer um deles soltasse a mão, o arco disparasse.

A performance serviu de inspiração para que a diretora Julia Murat ‒ de Histórias Que Só Existem Quando Lembradas (2011) ‒ concebesse Pendular (2017), que também traz um casal de artistas em busca de equilíbrio para manter a relação. No filme, uma dançarina (Raquel Karro) e um escultor (Rodrigo Bolzan) mudam-se para um galpão abandonado, que serve a ambos como uma espécie de ateliê para explorarem sua arte ‒ ela, ensaiando seus números de dança; ele, testando e moldando diferentes materiais para suas obras.

Enquanto os dois desvendam aos poucos o novo ambiente, somos convidados a acompanhar as nuances desse convívio, fazendo uma associação quase direta com o cenário que os cerca. Não por acaso, a primeira ação de ambos ao chegar na nova casa é delimitar com uma fita o local de trabalho de cada um. Daí em diante, tudo o que acontece entre as quatro paredes do galpão tem algo a dizer sobre eles.

Para trabalhar dessa maneira, Murat contou com uma equipe de especialistas composta essencialmente por mulheres: a coreógrafa Flavia Meireles, a diretora de fotografia Soledad Rodríguez, a diretora de arte Ana Paula Cardoso e as escultoras Marina Kosovski e Elisa Bracher. O resultado desse esforço é tão efetivo que o filme praticamente não precisa de diálogos: tudo o que precisa ser dito aparece no modo como as personagens se movimentam, como interagem entre si e no modo como é apresentado o espaço em volta. O espectador percebe vividamente as tensões e angústias que permeiam o relacionamento mostrado na tela, ainda que estas não sejam explicadas nas falas.

As opções de direção corroboram o tempo todo essa proposta. Através de uma série de planos-detalhe, conhecemos todos os cantos do ambiente, e os personagens são frequentemente enquadrados entre as esculturas , ampliando o significado que representam para a trama. Quando a cena dá lugar a números de dança, a câmera acompanha os atores de perto, seguindo seus movimentos e dançando junto. Mesmo as cenas mais ousadas de sexo e nudez, que poderiam causar certo afastamento, acontecem sempre sob uma luz discreta e intimista, que, ao invés disso, promovem aproximação ainda maior.

Propositalmente, os protagonistas não recebem nome, sinal claro de que a situação vivida por eles pode servir de paralelo para qualquer casal apaixonado. Algo que fica perceptível em Pendular é a capacidade da diretora de utilizar o imaginário do público para a construção da narrativa, e aí reside o principal trunfo do longa. À medida em que a trama se desenrola sem se revelar por completo, o espectador é deixado a questionar qual conflito existe além do que é mostrado, construindo os personagens junto com o filme, conforme os conhece ‒ e, por fim, se aceitar entrar na dança, sair com uma reflexão profunda sobre o que sustenta um relacionamento.

 

Pendular chega aos cinemas no dia 21 de setembro. Confira aqui o trailer do filme, e, abaixo, entrevista do Cinéfilos com a diretora Julia Murat.

por Matheus Souza
souzamatheusmss@gmail.com

Comentários