Comeback: um faroeste brasileiro singular

Na periferia de Goiás, em um bar empoeirado, sentado num canto esquecido pelo tempo, conhecemos Amador, um assassino deixado ao ostracismo. A música nos diz “por onde tu andares, na certa encontrarás, em tudo uma lembrança”. Desta forma, somos inseridos no ambiente nostálgico de Comeback: um assassino nunca se aposenta (2017), obra que Nelson Xavier nos presenteia antes de falecer, na última quarta-feira, 10 de maio, devido à complicações pulmonares advindas de um câncer de próstata, com o qual lidava a muito tempo. A trama dirigida por Erico Rassi foi considerada uma surpresa do Festival do Rio de 2016, em que Nelson Xavier levou o troféu Redentor como “Melhor Ator”.

O longa conta a história do ex-pistoleiro, Amador, que se agarra às lembranças do tempo áureo de assassino, quando era temido no interior do Brasil. No presente, acaba por submeter-se à trabalhar como negociador de caça-níqueis para um de seus antigos colegas de profissão, conhecido como Tio, que hoje é dono de pontos importantes da região. Amador é procurado pelo neto de um velho amigo, que pede para ser seu aprendiz. O idoso, orgulhoso de seus feitos, insiste em vangloriar suas histórias usando um álbum com recortes de notícias dos seus crimes, mas é constantemente questionado por todos ao seu redor, se o que conta é real ou apenas contos. Cansado das repetidas humilhações, o assassino volta a ativa com um glorioso comeback.

A direção bem delineada e cuidadosa do estreante Erico Rassi é um dos pontos altos da trama. Sua fotografia nos lembra um álbum empoeirado que guardamos no armário e que nos insere à periferia esquecida pelas grandes capitais, assim como o próprio protagonista esquecido pelo tempo. Além do ar obsoleto, a paleta saturada cria uma atmosfera de violência iminente em cada cena. A escolha acertada do diretor de gravar em sua cidade natal, Anapólis (GO), nos apresenta cenários únicos que transportam para uma terra de ninguém, onde os valores são invertidos e ser temido pelos crimes cometidos é sinônimo de glória. O longa também se utiliza de silêncios sepulcrais e olhares que dialogam para criar um ambiente lacônico, mas que ao mesmo tempo diz muito. A trilha sonora funciona como adorno final para o que vemos na tela e nos faz mergulhar de vez no faroeste nacional.

O veterano Nelson Xavier nos apresenta um personagem cheio de histórias e vaidoso dos seus feitos que luta incessantemente contra o ostracismo da idade. Amador é composto como um idoso expressivo com duas facetas – uma adormecida pelo tempo e outra nostálgica. Nas cenas compartilhadas com colegas de carreira, vemos o artista vivendo um eterno saudosista e renegando o fato de ter envelhecido – é notável na cena em que conversam sobre um baile para a terceira idade, eles  não se identifiquem com o público que o frequenta. Despertado por seu discípulo, o ex-pistoleiro entra em contato com dois cineastas que põem em xeque Amador, por não aparentar que naquele idoso calmo e de voz macia está o mentor de uma das maiores chacinas locais, além da dupla forçá-lo a usar sua fama esquecida para conseguir armas para o filme que produzem. O roteiro se desenvolve a partir dos incessantes questionamentos quanto a veracidade do contos do ex-pistoleiro, possuindo certas falhas e caminha bem lentamente no tempo de seu protagonista até o momento do Comeback (que soa estranho ao ser usado num ambiente interiorano), ápice óbvio do longa em que conhecemos o assassino impiedoso que ele carrega dentro de si. As cenas conseguem ser discretas e explícitas ao preencher a lacuna do que não é visto imageticamente na tela, mas sensibiliza auditivamente. Desta forma, Amador derruba cada dúvida nossa como num jogo de tiro ao alvo.

O longa entra em cartaz no dia 25 de maio.

 

Trailer:

por Larissa Santos
larissasantos.c@usp.br

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