Dom Paulo Evaristo Arns: o cardeal da resistência e das periferias

Na voz e interpretação de Maria Bethânia, a oração de São Francisco de Assis dá início ao documentário Coragem! As muitas vidas do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (2017). Resultado de um trabalho de quatro anos do jornalista Ricardo Carvalho – repórter que se dedicou ao segmento de direitos humanos no jornal Folha de S.Paulo, trabalhou na TV Cultura e na TV Globo e, recentemente, tornou-se dono de uma produtora independente –, a obra apresenta recortes da vida e ação do frade franciscano e cardeal brasileiro que se tornou um dos protagonistas da luta pela democracia nos anos 70 e 80.

Coragem!

Divulgação/TVM Documentários

Nascido em 1921 na colônia de Forquilhinha, em Santa Catarina, Dom Paulo Evaristo Arns dedicou sua vida à defesa e promoção dos direitos humanos. Entre 1970 e 1988, foi arcebispo metropolitano de São Paulo. Na arquidiocese da metrópole paulistana, foi responsável pela criação de quarenta e três paróquias, lançando, em 1972, a Operação Periferia, cujo objetivo era concretizar projetos em áreas pobres da cidade. Dentre outras ações, o líder religioso incentivou e apoiou a criação de mais de duas mil Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nas periferias de São Paulo, especialmente nas atuais dioceses de São Miguel, Osasco, Campo Limpo e Santo Amaro; e promoveu a aplicação dos recursos financeiros advindos da venda do Palácio Pio XII, efetuada em 1972, na construção de 1200 centros comunitários em áreas periféricas.

Em março de 1973, o cardeal celebrou uma missa em memória de Alexandre Vannuchi Leme, estudante de geologia da USP (Universidade de São Paulo) e membro da ALN (Ação Libertadora Nacional), morto pela ditadura. Sérgio Gomes, preso pelo regime militar em 1975 e atual membro do Conselho Deliberativo do Instituto Vladimir Herzog, em entrevista que integra o documentário, afirma que, a princípio, todos pensaram que seria realizada uma missa campal na USP, mas que Dom Paulo Evaristo Arns viabilizou a ocorrência da celebração na Catedral da Sé, reunindo cerca de cinco mil pessoas no espaço.

“Maldito seja aquele que mancha as mãos com o sangue do seu irmão” foram as palavras do cardeal durante a cerimônia ecumênica realizada em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, torturado até a morte por agentes da ditadura, em outubro de 1975. No documentário, Clarice Herzog, viúva de Vladimir, enfatiza a importância do posicionamento de Dom Paulo diante de um público de oito mil pessoas na Catedral da Sé, sendo este o primeiro reconhecimento público do assassinato do jornalista – o laudo oficial indicava suicídio.

Coragem!

O reverendo Jaime Weight, o rabino Henry Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns na cerimônia em homenagem a Vladimir Herzog, da esquerda para a direita. Divulgação/TVM Documentários

O documentário conjuga reportagens, encontros com o cardeal, fotos, gravações, a família do religioso, e até o acesso à Sala Cardeal Arns, por meio de Maria Angélica Borsoi, secretária de Dom Paulo durante 40 anos. Verifica-se, por exemplo, a presença de Margarida Genevois, ex-presidente da Comissão de Justiça e Paz, organismo fundado em 1972 por Dom Paulo Evaristo Arns, também transformado em um espaço de acolhida aos perseguidos pela ditadura militar, bem como às suas famílias. O ex-aluno de Dom Paulo e teólogo Leonardo Boff, a agente pastoral Yara Spandini – esta, descreve sua experiência como refém da tortura no Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS-SP) e a atitude de Dom Paulo diante do cenário, que ordenou que fosse pregada em todas as paróquias da arquidiocese uma nota que denunciava a violência perpetrada contra Spandini e contra o padre Giulio Vicini – e o jornalista Chico Pinheiro, que atribui o uso da expressão “Coragem!” na apresentação dos jornais televisionados dos quais participa a Dom Paulo Evaristo Arns, já que este possuía o hábito de proferir a expressão às pessoas.

Em 1985, o cardeal publicou o livro Brasil Nunca Mais, um acervo de relatos e documentos de vítimas da repressão política. No prefácio da obra, Dom Paulo Evaristo Arns sublinha que “não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu”.

O documentário tem estreia marcada para o dia 14 de dezembro de 2017, quando a morte de Dom Paulo Evaristo Arns completa um ano. Confira o trailer:

por Camila Mazzoto
camila.mazzotto@usp.br

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