Crianças clássicas

Hugo Nogueira

O cinema musical tornou-se parte integrante da produção hollywodiana logo nos primeiros anos do advento do som nas telas. O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927), o primeiro filme sonoro, já trazia a marca primitiva do musical com a enérgica performance de Al Jolson na canção Dirty Hands, Dirty Face. Durante as décadas de 30 e de 40, o musical norte-americano floresceu vigorosamente, propiciando imagens de vigorosa beleza visual e sonora. Contudo, a despeito de todas as novidades tecnológicas que tornaram esse gênero cinematográfico viável, são ainda as performances artísticas que constituem seu aspecto mais relevante. A prodigiosa habilidade e criatividade corporal de vários atores e atrizes tornaram-se, na maioria dos casos, a própria alma do cinema musical. Quando esse talento era expresso por crianças, o espetáculo adquiria uma coloração extraordinariamente ousada.

A maior estrela cinematográfica musical infantil foi, sem sombra de dúvidas, Shirley Temple, a menina-prodígio da década de 30. Shirley Temple, mais do que qualquer outra criança, consubstanciou uma maturidade espontânea e prematura em suas incursões nas telas. Nos dias de seu mega-estrelato conheceu e contracenou com as maiores celebridades de seu tempo: Janet Gaynor, Lionel Barrymore, Gary Cooper, Carole Lombard. Sua maior amizade, contudo, foi com o sapateador negro Bill “Bojangles” Robinson com quem trabalhou em A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935): foi a primeira vez que se viu um homem negro dançando de mãos dadas com uma mulher branca nas telas.

Shirley Temple era um raro fenômeno, uma atriz infantil capaz de cantar, dançar, rir e chorar com espontaneidade e desenvoltura e, assim, transformou-se na primeira criança a pavimentar uma sólida carreira em inúmeros filmes musicais. Muitos de seus números tornaram-se iconográficos: entretendo um grupo de aviadores com a canção On the Good Ship Lollypop em Olhos Encantados (Bright Eyes, 1934), dançando numa escadaria com Bill Robinson em A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935), fazendo um dueto com Buddy Ebsen na memorável performance de At the Coldfish Bay em Anjo do Farol (Captain January, 1936) ou sapateando no número I Love a Military Man em A Princesinha da Rua (Poor Little Rich Girl, 1936). Muitas de suas performances exigiam grande esforço físico. Em A Pequena Órfã (Curly Top, 1936) ela protagoniza When I Grow Up, um elaborado número no qual interpreta tanto uma adolescente quanto uma mulher idosa numa cadeira de balanço. Em Heidi (Heidi, 1937), Shirley canta e dança My Little Wooden Shoes com um pesado figurino holandês e, num ornamentado vestido do século do século XVIII, performa um belo minueto.

Os filmes de Shirley Temple rendiam milhões e seu nome transformava em ouro qualquer produto com o qual estivesse associado. Ela era mantida sob o cuidado de guarda-costas em tempo integral. Sua presença dinâmica, sua incrível segurança diante das câmeras e a espontaneidade inabalável que ocultava habilmente todo trabalho técnico de suas interpretações faziam dela um lenitivo para as audiências no período mais duro da Depressão. “Quando o estado de espírito do povo está mais baixo do que em qualquer outra época, como durante essa Depressão, é esplêndido que, por apenas quinze centavos, um americano possa ir ao cinema e ver o rosto sorridente de uma criança” declarou o presidente Roosevelt a respeito de Shirley Temple.

Sua carreira, porém, naufragou na adolescência, quando surgiu nas telas como uma adolescente comum, pouco atraente e sem nenhum apelo sensual especifico. Shirley desistiu do cinema na década de 50 e dedicou-se, doravante, a uma bem sucedida carreira diplomática.

Shirley Temple foi a primeira opção para estrelar O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939) nos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer, mas, na medida em que não foi cedida pela Fox, entrou em cena um dos maiores ícones do cinema musical: Judy Garland. Garland já havia demonstrado seu incrível talento vocal na canção You Made Me Love You (1936) dedicada a Clark Gable no seu aniversário. Gable odiou a homenagem, acusando a pequena Judy, então com 14 anos, de roubar todas as atenções dos convidados no dia de sua própria festa.

A carreira de Judy ganhou fôlego com Sangue de Artista (Babes in Arms, 1938), um musical espirituoso sobre um grupo de garotos que levam ao palco um espetáculo musical para auxiliar seus pais, dois artistas de vaudeville. Ao lado de Garland estava Mickey Rooney e ambos formaram um par sensacional o que motivou uma série de filmes excitantes com a dupla. Amigos extremamente próximos, Garland e Rooney já haviam trabalhado juntos em O Menino de Ouro (Thoroughbreds Don’t Cry, 1937) e O Amor Encontra Andy Hardy (Love finds Andy Hardy, 1938). Ambos combinavam perfeitamente seus talentos frente às câmeras, partilhando um vigoroso entusiasmo, um sensual senso de humor e uma evidente camaradagem nos filmes em que contracenaram. Não obstante, para Judy Garland, as lembranças do período não eram as melhores. “Faziam-nos trabalhar dia e noite sem parar. Davam-nos pílulas energéticas para nos manter em pé mesmo quando estávamos exaustos. Então nos levavam ao hospital e nos nocauteavam com pílulas para dormir. Mickey despencava numa cama e eu na outra.”

O sucesso de Sangue de Artista transformou Judy Garland e Mickey Rooney em uma parceria eficaz que foi repetida com imenso sucesso em Rei da Alegria (Strike Up the Band, 1940), Calouros na Broadway (Babes on Broadway, 1941) e Louco por Saias (Girl Crazy, 1943). Ao contrário de Judy, Rooney já era um artista veterano nessa época. Estreou num espetáculo de vaudeville ao lado de seus pais com dois anos. Aos seis anos entrou no elenco de Not to Be Trusted (1926) com seu nome verdadeiro, Joe Yule Jr. Foi rebatizado como Mickey McGuire que logo se converteu em Mickey Rooney. A fama, contudo, demorou a chegar. Destacou-se com o pequeno e vivaz Puck em Sonho de Uma Noite de Verão (Midsummer Night’s Dream, 1935) e propiciou uma excelente performance em Marujo Intrépido (Captains Courageous, 1937), mas foi somente com a série de filmes sobre a vida da família Hardy na pequena cidade de Carvel que Rooney se converteu numa estrela internacional. Filmes como Uma Questão de Família (A Family Affair, 1937), Andy Hardy Cowboy (Out West With the Hardys, 1938), Andy Hardy Banca o Sherlock (Judge Hardy and Son, 1939) e A Secretária de Andy Hardy (Andy Hardy’s Private Secretary,1941), entre tantos da série, levaram Mickey Rooney ao estrelato, fazendo dele a maior atração de bilheteria nos Estados Unidos e na Inglaterra entre 1940 e 1941. Em 1940, o New York Times o qualificou como “a oitava ou nona maravilha do mundo”. Seu talento para performances musicais foi especialmente evidenciado nos filmes em que contracenou com Judy Garland. Com ela cantou belíssimas canções como Our Love Affair e Drummer Boy. Devido à sua baixa estatura, o ator foi mantido em papéis de adolescentes por um longo período de sua carreira. Como no caso da maioria das estrelas infantis, a tragédia de Mickey Rooney foi que ele fatalmente teve de entrar na idade adulta e, em torno dos 20 anos, seu apelo de bilheteria começou a declinar lentamente. Manteve célebres romances com a maioria das estrelas com quem contracenou, casou-se oito vezes (sua esposa mais famosa foi a femme fatale Ava Gardner) e encontrou grandes dificuldades para dar continuidade à sua carreira quando se tornou evidente que a adolescência havia terminado.Não obstante, permaneceu ativo na indústria cinematográfica até a velhice, ganhando em 1983 um Oscar honorário pela sua longeva carreira.

Judy Garland, igualmente teve uma carreira longa e uma vida pessoal acidentada, marcada por romances mal-resolvidos e uma progressiva dependência medicamentosa, o que terminou por destruí-la. Tornou-se uma estrela nos seus próprios termos após a eletrizante performance em O Mágico de Oz, o qual permanece como um dos maiores musicais de todos os tempos, um filme pleno em momentos memoráveis a começar pela emocionante performance de Judy na canção Over the Rainbow. Construído sob o influxo de uma vasta simbologia visual, o filme coloca em ação a fantasia infantil de se aventurar em reinos misteriosos e fantásticos.

A luminosa performance de Judy Garland lhe valeu um Oscar especial e fez dela uma estrela internacional cuja carreira floresceu vigorosamente daí em diante. Garland adentrou na idade adulta como uma atriz sensível e intensa. Sua voz incomparável e sua invulgar capacidade dramática resultaram em performances exuberantes nas telas e em espetaculares concertos musicais. Logo após seu quinto casamento, aos 47 anos, morreu subitamente devido a uma overdose acidental de pílulas para dormir. Uma impressionante multidão de fãs e admiradores acompanhou seu enterro numa das maiores demonstrações públicas de afeição por uma estrela da Golden Age holywoodiana. Pouco tempo antes, ela havia declarado numa entrevista: “O que eu faço quando estou para baixo? Eu passo meu batom nos lábios, vejo se minhas meias estão arrumadas e sai por aí cantando Over the Rainbow”.

Judy Garland havia estreado no cinema aos 13 anos, ao lado de Deanna Durbin, outro ícone do cinema musical, no curta-metragem Every Sunday (1935) para a Metro-Goldwyn-Mayer, no qual ambas tiveram oportunidade de demonstrar seus estilos extremamente pessoais de cantar. Ao vê-las nesse breve filme, Louis B. Mayer, executivo-chefe da Metro-Goldwyn-Mayer disse secamente: “Mandem embora a mais gorda!” referindo-se a Judy Garland. Sem saber quem era exatamente a garota a ser dispensada, os assistentes de Mayer terminaram contratando Judy e dispensando Deanna Durbin por engano.

As performances de Deanna Durbin nas telas foram marcadas pela espontaneidade e sua voz de cantora lírica rapidamente atraiu a atenção dos estúdios de Hollywood. Teria interpretado a voz de Branca de Neve (Snow White, 1937) se Walt Disney não a tivesse considerado muito madura para o papel (Deanna tinha, então, 15 anos). Deanna foi contratada pela Universal e salvou o estúdio da falência numa série de musicais que se beneficiaram de seus múltiplos talentos. Alcançou a fama com Três Pequenas do Barulho (Three Smart Girls, 1937). Daí em diante, o musicais de Durbin passaram a seguir uma fórmula infalível combinando enredos frívolos, concentrados ao redor da personalidade exuberante e sagaz da atriz. Suas canções eram usualmente músicas populares às quais ela injetava uma incomparável vivacidade. Cantou sob regência do maestro Leopold Stokowski em Cem Homens e Uma Menina (One Hundred Men and a Girl, 1937) o que representou um dos pontos mais altos de sua carreira.

Ganhou um Oscar especial em 1939 e recebeu seu primeiro beijo nas telas no mesmo ano em O Primeiro Amor (First Love). Sua voz de soprano e sua naturalidade cênica evoluíram surpreendentemente bem na idade adulta. Teria se convertido em uma excepcional e glamurosa atriz dramática nos anos 40, mas seu potencial de bilheteria declinou com filmes cujos roteiros remanesciam abaixo de sua capacidade artística. Esteve excelente em Férias de Natal (Christhmas Holyday, 1944), um pesado drama noir e em A Dama Desconhecida (Lady on a Train, 1945), uma comédia negra de sucesso. Investindo o dinheiro que ganhou nos seus anos de estrelato, Deanna Durbin decidiu se aposentar em 1949, aos 27 anos de idade, declarando publicamente seu desprezo pela indústria cinematográfica hollywoodiana e pela imagem pública que foi concebida para ela. “A personalidade cinematográfica forjada de Durbin nunca teve qualquer similaridade com a minha, nem mesmo coincidentemente”.

Shirley Temple, Mickey Rooney, Judy Garland e Deanna Durbin pertencem a uma época em que a indústria cinematográfica sedimentava seus experimentos estéticos não na grandiloqüência de efeitos pirotécnicos, mas, sim, sobre a versatilidade e o talento dos seus performers. A habilidade genial desses jovens intérpretes esteve certamente entre o conjunto de fatores que levou o gênero musical adiante nos seus primeiros anos de existência. Dotados de uma naturalidade única, de vozes personalíssimas e de uma graciosa presença cinematográfica, as crianças-prodígio da década de 30 legaram uma obra instigante e desafiadora que sobrevive incólume ao tempo e que ainda não foi superada nas décadas subseqüentes.

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