Da submissão ao protagonismo: a evolução da representatividade feminina no cinema

Ao longo dos anos, os papéis femininos no cinema sofreram diversas alterações. Nos dias de hoje, as personagens representativas estão cada vez mais presentes nos filmes, e não apenas em papéis secundários, como suporte para protagonistas masculinos. Elas também aparecem como personagens centrais, com suas próprias histórias complexas e até mesmo como super-heroínas. Essa mudança não se deu de forma rápida, muito pelo contrário: as mulheres percorreram um longo caminho até conquistarem seu espaço nas telas e deixarem de representar apenas personagens estereotipadas.

No começo do século XX, com a era dos filmes mudos, apesar da grande presença feminina por trás das câmeras nessa época, aos poucos a indústria começou a ser dominada pelos homens e a figura da mulher passou a ser moldada por e para eles, de forma que a imagem feminina servia apenas como objeto de cena para a apreciação masculina.

Nessa época, Florence Lawrence, considerada uma das primeiras atrizes de cinema do mundo, interpretava apenas papéis passivos, desde a camponesa ingênua até a esposa dócil de um personagem central. Assim, é possível perceber que os estereótipos femininos surgiram desde muito cedo, e foram sendo meramente reproduzidos pelos cineastas, sem reflexão acerca da real representação da mulher.

Um dos poucos filmes a quebrar esse padrão estabelecido na época, alguns anos depois, quando o som já começava a compor as produções, foi O Martírio de Joana D’Arc (La passion de Jeanne d’Arc, 1928). Considerado um dos mais importantes da história do cinema, o filme mostra os momentos finais da heroína francesa, desde sua prisão até sua condenação de morte. Focado nas emoções e expressões das cenas, apresenta uma personagem feminina forte, com uma história heroica e inspiradora.

Representação feminina

Maria Falconetti como Joana D’Arc em O Martírio de Joana D’Arc [Imagem: Reprodução]

 Entretanto, com a instauração do Código de Produção de Cinema, também conhecido como Código Hays, em 1934, o enfoque em personagens femininas fortes não foi adiante. O código estabelecia diversas regras que censuravam as produções cinematográficas, de forma que qualquer tentativa de quebra de padrões poderia ser cortada. Com isso, um novo estereótipo foi criado: o da princesa. Nessa época, os estúdios Disney estavam ganhando fama, o que lhes garantiu o direito de animar a história de Branca de Neve. Após o filme Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) ganhar um Oscar honorário em 1939, produções como essa passaram a ser ainda mais comuns no universo da Disney e a representação feminina no cinema passou a influenciar não somente mulheres, mas também jovens meninas, que cresciam acreditando na figura do príncipe encantado e que, para ele ser conquistado, elas precisavam manter uma postura recatada.

Esse cenário começou a mudar apenas em 1960, com o enfraquecimento do Código Hays e o avanço da segunda onda feminista, um período de pensamentos e atividades feministas que começou nos Estados Unidos com o objetivo de aumentar a igualdade de gênero para além do sufrágio. Resistir à opressão da sexualidade feminina era um dos objetivos principais desse movimento; assim, muitos dos filmes produzidos nessa época foram feitos por mulheres e tinham como foco essa temática, mostrando a heterossexualidade do ponto de vista feminino. Um destaque dessa época é Wanda (1970), um filme independente, dirigido, produzido e estrelado por Barbara Loden. O longa conta a história de uma mulher recém-divorciada, suas dificuldades na busca por uma vida melhor e suas crises existenciais, abordando essa temática de uma maneira que era praticamente uma raridade nos anos 70.

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Barbara Loden como Wanda [Imagem: Reprodução]

No entanto, a tentativa de libertação sexual feminina foi abalada quando os filmes, ao contrário de focar no direito de sexualidade da mulher, passaram a praticar sua sexualização. Dessa maneira, as mulheres se tornavam, novamente, meros objetos para a apreciação masculina, perpetuando a imagem da personagem sem autonomia, submissa aos homens e, além disso, fetichizada. Com isso, é retomada a imagem dos chamados sex symbols, personagens com apelo sexual tão forte a ponto de passarem a ser consideradas símbolos de sensualidade e modelos a serem seguidos, idealizando ainda mais a figura feminina, sem mostrar seus atributos verossímeis.

Um filme que evidencia essa tênue linha entre a libertação e a sexualização é Barbarella (1968), uma ficção científica baseada numa história em quadrinhos que apresenta Barbarella, uma viajante do espaço e representante do Planeta Terra enviada ao espaço para capturar o cientista criminoso Durand Durand. A obra evidencia a libertação feminina ao apresentar uma personagem feminina central que tem consciência dos seus atributos físicos e de sua sexualidade, além de apresentar conceitos chocantes para a época, como uma máquina que mata através do prazer sexual excessivo. Porém, a personagem também é extremamente sexualizada em quase todo o filme: dependendo de personagens masculinos para atingir seus objetivos, que a ajudam em troca de favores sexuais, Barbarella passa a ideia de que mulheres precisam da assistência de homens para alcançar seus objetivos, e que a única maneira de conseguir essa ajuda é através de seu corpo.

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Barbarella, Dr. Durand Durand e a máquina de prazer excessivo, o Orgasmatron [Imagem: Reprodução]

Após este período, os estereótipos femininos continuaram a ser reproduzidos com poucas mudanças na estrutura do cinema. Na década de 80, popularizou-se a gíria “chick flick”, utilizada para denominar gêneros de filmes que tratavam principalmente de amor e romance e que tinham como público-alvo a audiência feminina. Tais filmes, em sua maior parte romances, como Namorada de Aluguel (Can’t Buy Me Love, 1987), e dramas adolescentes como A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink, 1986), ajudaram a eternizar o papel da personagem ingênua que vê sua vida mudar ao se apaixonar.

Essa dinâmica de estereotipação feminina começa a sofrer mudanças reais apenas no final da década de 80. Com a terceira onda feminista, a qual teve início como uma resposta às supostas falhas da segunda onda, passou-se a acreditar que precisavam haver mudanças nos estereótipos e retratos da mídia em suas tentativas de definir as mulheres. Assim, inicia-se um afluxo de filmes com personagens femininas fortes e características reais,  não idealizadas, que se estendem até os dias atuais, com um protagonismo feminino cada vez maior. Um exemplo disso é Thelma & Louise (1991), um filme que conta a história de duas melhores amigas que partem em uma viagem e acabam por se tornar fugitivas da polícia, tentando escapar dos crimes que cometeram. Ao apresentar mulheres com defeitos e problemas concretos e relações amorosas que passam longe da idealização romântica, a obra ataca os padrões convencionais da sociedade e reescreve os papéis tradicionais de gênero.

Outra questão trazida pela terceira onda foi a necessidade de um feminismo diverso, que não focasse apenas nas mulheres brancas de classe média-alta, mas que abraçasse a percepção de que mulheres são de cores, etnias, nacionalidades e origens diversas. Assim, os filmes passaram a trazer também protagonistas de tipos mais diversos. Em A Cor Púrpura (Color Purple, 1985), a personagem principal é uma mulher negra oprimida que sofre com a violência doméstica e tenta superar o racismo e misoginia no sul rural dos Estados Unidos.

Outro fator que contribuiu muito para esta evolução foi o aumento do número de mulheres trabalhando por trás das câmeras. Ao contrário do que muitos pensam, o início da história cinematográfica teve um pioneirismo feminino muito forte na direção, edição e roteirização. Enquanto representavam personagens ingênuas na frente das telas, por trás delas lideravam os sets de filmagem e lidavam com os negócios. Quando a indústria começou a se moldar num modelo formal e se tornar um negócio lucrativo, entretanto, as mulheres começaram a perder o prestígio nos sets e as posições de destaque passaram a ser exercidas por homens.

Histórias como a de Alice Guy-Blaché, a primeira mulher a dirigir um filme em 1896 e uma das inventoras do conceito de cinema narrativo, e de Lois Weber, outra diretora que, em 1916, produzia filmes com enfoque em problemas sociais, como o uso da pílula anticoncepcional e o aborto, ajudaram a desconstruir a ideia de que algumas posições são reservadas para homens, e inspiraram outras mulheres a não deixar que a profissão fosse tomada pelos homens, mas a retomar a influência feminina antes estabelecida. Exemplos como a já citada diretora e estrela de Wanda e, mais recentemente, a cineasta Kathryn Bigelow, a primeira mulher a ganhar um Oscar de Melhor Direção, são a prova deste legado.

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A cineasta Alice Guy-Blaché fez história no mundo do cinema [Imagem: Reprodução]

Apesar das grandes vitórias conquistadas pelas mulheres no mundo cinematográfico, ainda há uma longa jornada a ser percorrida. De acordo com uma pesquisa feita pela New York Film Academy em 2018, nos top 900 filmes produzidos entre 2007 e 2016, somente 30.5% dos personagens com fala eram mulheres, e apenas 12% dos filmes apresentavam um elenco balanceado no qual metade das personagens eram mulheres. Além disso, há uma proporção de cinco homens para cada uma mulher trabalhando por trás das câmeras em filmes, de forma que fica explícita a desigualdade ainda vigente nessa indústria.

É necessário continuar cobrando uma maior representatividade feminina nos filmes atuais, além de avaliar o desempenho destes nesse quesito. Uma forma de fazer isso é utilizar o chamado Teste Bechdel, um teste criado pela cartunista Alison Bechdel para avaliar se um filme faz bom uso de suas personagens femininas. O filme precisa cumprir três regras: ter pelo menos duas personagens mulheres com nome, que devem conversar entre si, e o assunto deve ser sobre algo que não homens. Os critérios parecem triviais, mas a maioria das grandes produções não consegue cumprir esses requisitos.

As mulheres ainda representam 51% dos frequentadores de cinema, segundo pesquisas do Motion Picture Association of America (MPAA), e é apenas selecionando e questionando os filmes a que assistimos que será possível reverter esse cenário de desigualdade,  e não deixar que histórias como a de Alice Guy-Blaché sejam apagadas da história. Muito pelo contrário: que continuem a inspirar um número cada vez maior de mulheres a diversificar esse mundo ainda tão padronizado.

por Beatriz Crivelari
beatrizcrivelari@usp.br

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