O drama de milhares de famílias em A Dangerous Son

(Imagem: Divulgação)

17 milhões. Esse é o número de crianças estadunidenses que possuem ou já possuíram um problema psiquiátrico. Hoje, uma em cada dez crianças americanas sofre de transtornos mentais graves. Mesmo assim, desses 17 milhões, aproximadamente metade não tem acesso ao acompanhamento e tratamento psicológico necessário. Os números assustam, mas deixam de lado o fator humano envolvido nesse cenário, o sofrimento, a dor, a tristeza e a frustração de milhares de famílias. E é exatamente esse lado que o documentário A Dangerous Son (2018) busca — e consegue — retratar.

O longa, dirigido e produzido pela americana Liz Garbus, retrata a luta de três famílias na busca pelo atendimento e ajuda que três crianças com distúrbios psicológicos necessitam, ao mesmo tempo em que têm que lidar com crises e outros problemas ligados a essas crianças. Um dos grandes aspectos do documentário é focar em um lado muitas vezes deixado de lado quando se fala de crianças com problemas psicológicos, o dos pais. Ao longo de todo o filme vemos o drama e as dificuldades que as mães — peças centrais na narrativa — enfrentam no seu dia a dia.

Stacy e Ethan, Edie e William, Cora e Vontae. Esses são as três duplas de mãe e filho que movem a narrativa e explicitam os problemas, desafios e descasos enfrentados por milhões de famílias americanas diariamente. É impossível não se emocionar e simpatizar com as mães após ver tudo que elas enfrentam, e essa aproximação também está presente no documentário. Na metade do filme, o espectador passa a ouvir a voz da equipe de filmagem pela primeira vez, que então aparece outras vezes. Em outro momento do documentário, a equipe teve que intervir para ajudar uma das mães, Stacy, a controlar seu filho Ethan em um dos seus surtos de violência.

Edie Cooper e sua família, retratados no documentário. (Imagem: Divulgação)

Mas o documentário não retrata com maestria apenas todo o descaso e falta de estrutura do sistema de saúde estadunidense em relação às crianças com distúrbios mentais. Também estão presentes nele contundentes críticas sociais, em especial ao racismo presente no país — a partir da figura de Cora e seu filho Vontae — e a questão do porte de armas e massacres que ocorrem no país. Em relação a esse último aspecto, o documentário mostra como, muitas vezes, os realizadores dos ataques são pessoas com problemas psiquiátricos, que tiveram acesso fácil a armas de fogo mas um difícil acesso a tratamentos e acompanhamentos que poderiam ter evitado diversas tragédias.

Ao falar sobre esse lado, o filme destaca como, muitas vezes, são os pais dos atiradores que recebem críticas quando, muitas vezes, eles não conseguiram encontrar a ajuda que seus filhos necessitavam. Fica claro no longa que há um limite para o que os pais podem fazer por seus filhos, e que, muitas vezes, a culpa e ausência é do Estado.

O documentário é muito enriquecido, também, pelo depoimento de outras pessoas. São ouvidos o doutor Thomas Insel, ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental, Andrew Solomon, autor do livro Far From the Tree (que aborda a questão de doenças mentais em crianças), Creigh Deeds, senador estadual da Virgínia que foi esfaqueado pelo filho Creigh, que sofria de problemas psicológicos e acabou se suicidando, e Liza Long, autora do artigo I Am Adam Lanza’s Mother que relata o drama da mãe de uma criança com problemas psicológicos e como, muitas vezes, os pais acabam sendo culpados por falhas do Estado em relação ao cuidado de filhos com problemas psicológicos. Os depoimentos são ricos em informações e acrescentam ainda mais ao documentário.

A obra consegue pintar um amplo retrato da vida das famílias. A falta de  atendimento, leitos em instituições médicas, problemas em relação a diagnóstico e medicação, o impacto na vida dos irmãos dessas crianças, o impacto nos pais, como lidar com possíveis surtos agressivos que põem em risco a vida da criança e dos familiares, tudo isso é retratado de modo a mostrar o significado e tamanho dos número atuais. 17 milhões de duras realidades, milhões de pais e mães que diariamente buscam um futuro melhor para seus filhos e filhas.

E vale lembrar que a realidade brasileira não é muito diferente. A questão das doenças mentais ainda é um tabu em diversos países, e, enquanto isso continuar, o tratamento que milhares de pessoas necessitam não será dado, o que prejudica não apenas aqueles que possuem os transtornos, mas também os seus familiares e a sociedade como um todo. Esse é o grande alerta que A Dangerous Son busca passar para o seu público, sendo, assim, um documentário essencial para aqueles que buscam saber mais ou possuem alguma curiosidade sobre essa realidade.

O documentário estreia no dia 22 de outubro, às 22 horas, no Canal HBO. Confira o trailer abaixo:

por João Pedro Malar
joaopedromalar@gmail.com

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