De lagarta a borboleta: o chegar da maturidade aos olhos do cinema brasileiro

É difícil lidar com os entremeios da infância para a vida adulta, quando chega a adolescência. Todos convivemos com ela por um curto e intenso período da vida, num meio tempo em que as emoções nunca são poupadas – tanto as boas quanto as mais terríveis – e que qualquer ocorrido pode vir a se tornar uma enorme descoberta. A puberdade é uma linha tênue que separa o universo infantil do adulto, e é marcada pelos altos e baixos desses dois mundos: a permanência da inocência e a maturidade já se anunciando; o florescer da sexualidade e a estranheza ante o corpo mudado; a mescla de carinho e de repulsa pelos pais; a vontade de voar e de virar casulo – tudo de uma vez.

Enquanto isso, nas telonas brasileiras, uma temática ainda não muito explorada vem ganhando espaço em meio ao sucesso arrebatado pelas comédias pastelão: é o subgênero que, no inglês, ficou conhecido como coming-of-age. Trata-se de um conjunto de narrativas que se pautam em torno de um momento marcante na vida de um jovem, momento este que será fundamental no crescimento, na formação de caráter e no rumo que o personagem em questão tomará a partir daí. Em outras palavras, a narrativa centraliza a metamorfose do mundo infanto-juvenil para o adulto. Por isso, então, o chegar-da-idade.

A complexidade envolta nesse subgênero é grande, pois o enredo não basta para que um filme seja inserido nele. O ideal é que a história parta do olhar do jovem protagonista, pois o espectador precisa entender a trama a partir dessa visão particular de mundo. É preciso mergulhar no interior da personagem, entender seus gostos, valores e crenças. E para que isso ocorra, tudo é válido: a arte e a sonoplastia delineiam a personalidade construída; o ambiente, as vestimentas, as palavras e sinais, as formas, texturas e cores, tudo isso contribui para a formação do universo individual em foco. Este universo é embaraçado, confuso e varia de caso a caso. Portanto, ao se fazer um recorte sobre uma realidade específica – no caso desse texto, a de um jovem de classe média – não se pode generalizá-la a todas as outras realidades existentes.

Infelizmente, no entanto, o cinema brasileiro ainda possui um forte vínculo com uma abordagem rasa e até antiquada perante os jovens. Era característica comum nos longas nacionais da década de 50 que as produções atribuíssem ao adolescente um papel secundário, de alguém prestativo, bem intencionado e um tanto romântico. Mesmo quando começa a surgir como protagonista, na década de 60, o jovem continua sem possuir um retrato fidedigno nas telonas. O produto cultural era destinado a ele, mas não era sobre ele (a sequência de filmes do Roberto Carlos exemplifica bem isso). Atualmente, apesar de muito ter mudado, essa herança ainda permanece em maior ou menor grau. Mas isso não impede que algumas produções se destaquem pela excepcionalidade.

Filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), de Roberto Farias

À Deriva (2009) é uma dessas exceções. Com direção de Heitor Dhalia, o filme relata o cotidiano de uma família em férias numa casa de praia em Búzios, nos anos 80.  Nada de diferente até então, senão pelo fato da narrativa ser construída a  partir do olhar de Filipa (Laura Neiva), uma adolescente de 14 anos que vê a sua relação familiar ruir em uma crise de relacionamento entre seus pais, Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Débora Bloch). Desde o início da trama, Filipa já nota os prenúncios do caos que assolará a casa, mas só acaba tomando certeza sobre o futuro quando descobre a relação adúltera que seu pai levava com Ângela, a bela norte-americana habitante da região.

A temática do filme, a princípio, pode até soar banal. Mas ela ganha seu poder justamente por estimular a análise interior da personagem principal. O período de férias sintetiza a sua passagem de menina para mulher, e isso está presente até nos menores detalhes capturados. A ambientação numa natureza quase intocada é tão pura e quase tão inocente quanto uma criança. A água, presente em quase todo momento (seja na fotografia ou na sonoplastia), também carrega significado: Filipa e seu pai flutuam e brincam sobre ela no início do filme, feito menino e menina. Em outros momentos, porém, o mar é fuga, é refúgio, é guardador de segredos, é lugar da maturidade.

Filipa (Laura Neiva) e seu pai Matias (Vincent Cassel) em À Deriva (2009)

A relação que Filipa mantém com o pai  é outro indicador de crescimento. Antes da descoberta dos segredos de Matias, a amizade é o que prevalece entre eles. Mas a traição desperta uma mistura de repulsa e de curiosidade que confundem os pensamentos da menina. Ela deseja perseguir os passos do pai, observá-lo secretamente, ao mesmo tempo que o despreza pelos seus atos. Até Ângela, a amante, torna-se objeto de curiosidade. As suas roupas e maquiagens são desejáveis, assim como o ar de sexualidade evocado quando ela entra em cena.

Por outro lado, a predisposição alcoólatra de Clarice, a mãe, é progressivamente agravada com as brigas do casal. O alcoolismo materno e o relativo abandono paterno levam Filipa a adquirir uma estranha responsabilidade reversa. É ela quem passa a cuidar da própria mãe, levando-a para o banho e a colocando para dormir. Os pais falham em suas funções paternais, então a filha as desenvolve. Em contrapartida, a garota também passa a reproduzir um pouco do que espreita: seus impulsos sexuais se acentuam e o interesse pela bebida alcoólica é despertado no momento de desamparo, tudo isso sem que a sutileza da obra seja diminuída.

Clarice (Débora Bloch) desconta seus problemas no alcoolismo

Com narrativa contemporânea à retratada por À Deriva, outro filme que merece notoriedade por seu fino tratamento com a adolescência é Califórnia (2015), dirigido por Marina Person. A trama toda acontece em torno de Estela (Clara Gallo), que inicia o filme aos 15 e o finaliza aos 17 anos de idade. Teca, como costuma ser chamada, é uma adolescente comum dos anos 80, e carrega consigo uma espécie de inocência própria da época. Seus maiores dramas envolvem os conflitos amorosos, os temores acerca do sexo, as pressões escolares e as repressões do pai conservador (Paulo Miklos). Mas, à parte de tais desordens do mundo terreno, Estela sonha longe: sua maior ambição para o futuro é viajar para a Califórnia e encontrar o seu tio Carlos (Caio Blat), um jornalista cultural muito admirado pela menina. A viagem fora prometida pelos pais para quando ela completasse 17 anos, em troca da não realização de sua festa de debutante.

É quando o tio inesperadamente retorna ao Brasil, após anos morando nos Estados Unidos, que Estela percebe que seus planos para o futuro estão ameaçados: sua viagem se distancia da realidade, ganha ar de inconcebível, impraticável. Carlos, que sempre fora objeto de muita admiração para a garota, tem sua saúde mais e mais debilitada, sua vida se definhando a cada dia que passa. E o mundo de Estela, antes envolto de aspirações, sonhos e fantasias, ganha um forte peso de realidade.

Estela (Clara Gallo) e seu tio, Carlos (Caio Blat), em Califórnia (2015)

Outro ponto abordado pelo filme é a dificuldade da protagonista em se encaixar nos moldes estabelecidos pelo seu núcleo de convivência. Ela é fissurada pelo rock internacional (possui uma adoração especial por Bowie), enquanto seus colegas têm preferência pela música nacional. É a última virgem entre as amigas e fora eleita a nerd da turma. Mas isso não a faz uma pessoa desprezada ou debochada pelos colegas. Apenas fora do comum. É o que fica ainda mais evidente com a chegada de um novo aluno no colégio, o JM (Caio Horowicz): com seu visual sombrio que, para a maioria, ocasiona repulsa, ele desperta certa curiosidade em Teca.

Ambas obras cinematográficas possuem uma ambientação nos anos 80 significamente importante. As personagens Teca e Filipa não só vivem o momento, mas são todas construídas a partir dele. As músicas, as vestimentas, os aparatos tecnológicos um tanto rudimentares, como a vitrola, a polaroid e a máquina de escrever. Tudo isso é responsável pela criação de uma atmosfera de simplicidade e inocência que dificilmente caberia em uma narrativa passada nos saturados tempos atuais. O ambiente ocupado por um jovem muito representa quem ele é ou o que ele deseja ser, e o quarto de Teca tem uma função primordial nisso: as alusões musicais estão presentes nos pôsteres que forram as paredes e nos discos amontoados pelos cantos;  os objetos icônicos da época se espalham pelo cômodo (E.T., cubo mágico, cama patente, dentre outros); fotos de amigos e do próprio tio estão em exposição. Mas o objeto de maior destaque é, sem sombra de dúvidas, o grande mapa do estado da Califórnia instalado bem ao lado de sua cama. Ele, justamente, representa o amadurecimento da personagem, passando de símbolo de seus sonhos futuros para o principal símbolo da dura realidade que chega.

É certo que À Deriva e Califórnia possuem divergências. O primeiro nos traz a menina em meio ao distanciamento familiar, em uma luta incansável pela resolução de problemas irresolúveis entre a mãe e o pai. O segundo nos mostra a aproximação familiar, com a vinda de tão querido tio, como motivo para o mundo da personagem ruir. Claro que não é a chegada do tio Carlos o motivo da tristeza. A presença dele traz felicidade a Teca, mas também a certeza de que a tão sonhada road trip da dupla será impraticável.

Porém, alguns pontos são certeiros na união entre os dois longas: eles retratam o cotidiano de jovens como outras quaisquer, uma em férias e outra em período de aulas. As duas têm de lidar com conflitos amorosos e com as pressões dos colegas. Elas possuem toda uma vida social fora do âmbito familiar, com amigos, festas, fofocas e divertimentos. Mas o mais importante, é o fato de que ambas passam por situações que as levam a adquirir grande amadurecimento: Filipa entra em férias sem carregar consigo nenhum contratempo. Os problemas são todos adquiridos, agravados e solucionados nesse curto espaço de tempo, de forma que tais férias representem um ciclo perfeito de começo, meio e fim. Se não fosse por elas, Filipa teria seguido um rumo diferente na sua vida. O mesmo ocorre com Estela, que em certos momentos se enxerga em um beco sem saída diante do agravamento das complicações, mas que, a partir de certo momento, as supera com tamanho ar de superioridade. As duas, enfim, terminam os filmes evidentemente crescidas, com outra concepção de mundo.

Claro que a adolescência não se é explicada a partir da análise de dois filmes, apenas. Não seria explicada sequer se todos os outros filmes que a retratam fossem analisados. Ela é, como dito anteriormente, profundamente complexa. Ela varia de caso a caso, depende da situação regional, social e temporal. É um universo que possibilita abordagens das mais diversas, que não requer explicações concretas, mas que não deixa de ser incrivelmente fascinante.

 

por Laura Molinari
lauratmolinari@gmail.com

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