Os desafios de um cineasta

Bruno Benevides

O cineasta Roberto Moreira está há mais de 20 anos trabalhando na área e já dirigiu o longa Contra Todos, curtas metragens e trabalhos para a TV, além de ser professor do curso de Audiovisual da USP. Mesmo assim ele ainda encontra dificuldades para realizar novos trabalhos como seu próximo filme Condomínio Jaqueline, atualmente em pós-produção. Foi durante a preparação para seu segundo longa que Roberto Moreira respondeu algumas perguntas por e-mail, nas quais defendeu a qualidade dos cursos de cinema ministrados no país e criticou o mercado cinematográfico brasileiro.

O senhor é formado em cinema. Qual a importância disso para um cineasta?

Roberto Moreira: O essencial é praticar e o curso é uma ótima oportunidade, além de ser uma chance para encontrar as pessoas da sua geração.

Como o senhor avalia que as faculdades de cinema e os cursos complementares no Brasil são satisfatórios ou é necessário recorrer a cursos no exterior para complementar a formação?

RM: Acho os brasileiros mais do que suficientes. Há muita ilusão com respeito aos cursos no exterior. Sabe como é, o gramado do vizinho sempre é mais verde. Agora, viajar é muito bom, sempre abre novos horizontes. Só não acho imprecindível.

Os cursos de cinema estão bastante procurados atualmente. O senhor acha que isso será positivo para o setor, trazendo profissionais qualificados?

RM: É bom porque qualifica mais pessoas, mas o mercado é limitado, ou seja, a concorrência é grande. Talvez esse mercado cresça no futuro próximo com todas essas tecnologias que estão chegando. Enfim, para a atividade é bom, já para os recém formados…

Como foi seu início como cineasta? Quais as dificuldades que o senhor enfrentou antes de fazer seu primeiro longa?

RM: A maior dificuldade foi o senhor Collor de Mello que acabou com o cinema brasileiro e postergou em dez anos o acesso da minha geração ao cinema. Hoje é bem mais fácil, mesmo porque a tecnologia democratizou o acesso aos meios de produção. No entanto, também é importante ter uma proposta original, uma contribuição pessoal, e isso as vezes demora para formular.

O senhor costuma fazer o roteiro de seus trabalhos. Acha isso importante? O senhor filmaria o roteiro de outra pessoa?

RM: Filmaria, desde que me sentisse tocado pelo tema. Mas a verdade é que tenho vários temas que gostaria de tratar e acho mais fácil sentar e escrever eu mesmo o roteiro.

O senhor é sócio de uma produtora. Qual é seu papel como produtor? É difícil separar seu lado produtor do seu lado diretor ou eles se complementam?

RM: Eu tenho uma sócia, Geórgia Araujo, que é a produtora. Mas eu penso sim como produtor e acho que todo diretor no Brasil precisa estar atento às questões de produção. Nós lidamos o tempo todo com limitações.

O senhor costuma atuar em diferentes áreas do cinema, escreve dirige, produz e dá aulas. Isto é uma necessidade do mercado? É possível sobreviver atuando em apenas uma área do cinema?

RM: Olha, todo mundo tem que se virar. Muitos fazem publicidade, outros documentários. É mesmo uma batalha.

Qual a diferença entre fazer um filme para o cinema e para a televisão? Em qual dos dois meios o senhor prefere para trabalhar?

RM: A diferença está no acesso instantâneo que temos ao público na TV. A série é entregue e uma semana depois milhões de pessoas estão assistindo seu episódio. No caso do cinema o esforço de lançamento é enorme e não se tem garantia nenhuma de que as pessoas assistam ao filme.

Até 2004 o senhor era professor da USP em regime de dedicação exclusiva, mas desde então o senhor diminui a carga horária. Isto significa que o senhor está se dedicando mais a realização de longas metragens e outros trabalhos?

RM: Sim. O filme Contra Todos gerou várias oportunidades que exigiram de mim maior atenção. No entanto, a longo prazo gostaria de voltar a dedicação exclusiva, afinal vejo as filmagens como uma atividade de pesquisa. A cada filme exploro novas técnicas e isso melhora minha docência e alimenta meus trabalhos acadêmicos.

Em uma entrevista em 2004 para o UOL o senhor declarou que seu projeto seguinte era fazer um filme baseado no personagem “Soninha” de Contra Todos. Quatro anos depois o filme está em pré-produção. Este intervalo foi escolha sua ou o senhor encontrou dificuldades para produzir o filme?

RM: Não foi uma escolha. Ganhei praticamente todos os prêmios de financiamento e, ainda assim, não completei meu orçamento. Os patrocínios estão com valores muito baixos em relação ao custo do filme. Essa é uma armadilha que precisamos desmontar. A engrenagem do cinema tem que rodar com maior velocidade.

Comentários